Uma mudança silenciosa, mas simbólica, mexeu com um dos pilares históricos do mercado brasileiro de resseguros. Pela primeira vez desde a criação do Instituto de Resseguros do Brasil (IRB), em 1939, a companhia deixa a liderança do ranking de grupos resseguradores que mais recebem negócios do mercado brasileiro. O novo líder é a Allianz, movimento que já provoca discussões técnicas e estratégicas nos bastidores do setor.
Estes dados, entre outras análises do mercado de resseguros e de ILS, constam na nova edição do estudo [Re]vision Research, idealizada e patrocinada pela Abecor, e mostram a Allianz com participação de 13,1% do mercado, enquanto o IRB caiu para 11,8%, recuo de 4,8 pontos percentuais em relação ao ano anterior.
O episódio expõe uma transformação estrutural do mercado brasileiro e reacende um debate delicado: o crescimento do resseguro intragrupo e seus efeitos sobre a competitividade local. O próprio estudo afirma que “os efeitos do resseguro intragrupo moldam os rankings” e destaca que grupos seguradores globais passaram a ocupar as primeiras posições entre cedentes e resseguradores.
Nos corredores do Encontro de Resseguros, realizado esta semana no Rio de Janeiro, o tema dividiu opiniões. Alguns executivos veem a mudança como consequência natural da globalização dos grupos seguradores. Outros avaliam que ela merece atenção regulatória, sobretudo pelo potencial de alterar condições competitivas no mercado brasileiro de seguros.
Fontes ouvidas sob condição de anonimato afirmam que a liderança da Allianz foi fortemente impulsionada pelo aumento do resseguro intragrupo, especialmente em carteiras massificadas, como automóveis. A lógica é relativamente simples: a seguradora brasileira transfere parte relevante do risco para resseguradoras do próprio grupo no exterior, concentrando prêmio e resultado em outras jurisdições, muitas delas com cargas tributárias com cargas mais favoráveis.
De acordo com nota da Allianz, a liderança é uma consequência de vendas. “Para fazer frente aos sinistros causados pelas mudanças climáticas, a Allianz passou a oferecer mais coberturas nas carteiras de Automóvel, Agro e Massificados, o que reforça a necessidade de resseguro. No caso de Agro, houve a ampliação do tipo de culturas, que agora são cobertas pela Allianz, e nos massificados a inclusão da cobertura de alagamento, por exemplo. Isso beneficia muito o segurado, que agora está sendo indenizado por danos que antes não eram cobertos.”
O estudo já identifica esta dinâmica se intensifica recente. Segundo a publicação, o resseguro intragrupo, historicamente utilizado em grandes riscos corporativos, passou a avançar também para linhas de varejo, como automóveis. O tema desperta sensibilidade porque a discussão vai além do resseguro, impacta as seguradoras brasileiras de grandes riscos e as de linhas massificadas. Na prática, participantes do setor apontam que a transferência de operações para estruturas internacionais pode gerar vantagens econômicas relevantes.

Uma das principais questões está relacionada à carga tributária. O Brasil possui uma estrutura de impostos considerada mais pesada que diversas jurisdições internacionais. Ao deslocar parte do resultado para outras geografias, grupos globais podem operar sob condições tributárias potencialmente mais favoráveis.
Nos bastidores, há quem use termos mais fortes, como “evasão de divisas”. Mas especialistas ponderam que a leitura exige cautela. O debate não deve ser tratado como um problema específico do IRB ou como justificativa para mudanças protecionistas. Tampouco se trata de um tema novo. Trata-se de um modelo operacional permitido pela regulamentação atual e adotado globalmente por grandes grupos seguradores.
A preocupação maior, segundo participantes do mercado, deveria estar menos no impacto sobre o IRB e mais nos efeitos concorrenciais entre seguradoras que disputam o segmento de automóveis. Se determinados grupos conseguem operar com estruturas globais mais eficientes, parte desse ganho pode ser convertida em preços mais agressivos, alterando a dinâmica competitiva do mercado local.
A discussão ganha ainda mais relevância porque ocorre num momento em que a Superintendência de Seguros Privados (Susep) mantém grupos de trabalho debatendo ajustes e aperfeiçoamentos do novo marco legal do seguro e de contratos ligados ao resseguro.
Há uma memória regulatória sensível nesse tema. O estudo lembra que mudanças infralegais realizadas ao final de 2019 flexibilizaram operações intragrupo e facilitaram retrocessões das resseguradoras locais. O efeito, segundo os autores, foi imediato: a retenção doméstica iniciou uma trajetória de queda acelerada.
Hoje, a produção doméstica de resseguro representa apenas 27% do volume cedido pelas seguradoras brasileiras, patamar próximo das mínimas históricas. Ao mesmo tempo, o próprio IRB também atravessa um momento de redefinição estratégica. A companhia ampliou sua atuação internacional e busca novas frentes de crescimento, incluindo a criação de uma seguradora patrimonial própria, em movimento que busca diversificar receitas e reduzir dependência do modelo tradicional.
Por isso, a perda da liderança pode representar menos uma derrota isolada e mais um retrato de um setor em transformação. Depois de décadas em que o IRB funcionou quase como sinônimo do mercado brasileiro de resseguros, a mudança de ranking mostra que o setor passa por uma nova fase: mais internacionalizada, mais integrada a estruturas globais e, possivelmente, mais desafiadora para reguladores e concorrentes.











