Resseguro entra em ciclo “soft”, amplia competição e aumenta a consolidação do setor

Segundo Pedro Farme, CEO da Guy Carpenter Brasil, excesso de capital, chegada de novos players e avanço tecnológico inauguram uma nova fase no país; cenário amplia oportunidades, mas eleva a pressão sobre resultados técnicos

O mercado de resseguros vive uma mudança de ciclo que está redesenhando a dinâmica competitiva do setor no Brasil. Após um período de endurecimento de preços entre 2023 e 2024, impulsionado pela restrição de capital global, o setor entrou em uma fase conhecida como “soft market”, caracterizada pelo aumento da oferta de capacidade, queda das taxas e maior poder de negociação nas mãos dos compradores. Para seguradoras e resseguradoras, o momento traz oportunidades de expansão, mas também exige mais disciplina técnica.

A avaliação é de Pedro Farme, CEO da Guy Carpenter Brasil, durante entrevista nos bastidores do encontro de resseguros realizado no Rio de Janeiro. O evento reuniu lideranças do mercado brasileiro e executivos internacionais para discutir tendências, novas estruturas de capital e perspectivas do setor. “O mercado soft é o mercado comprador. Seja para o cliente final, seja para o comprador de resseguro. Hoje a dinâmica está totalmente favorável ao comprador”, afirmou Farme.

Segundo o executivo, a fase atual marca uma reversão importante do movimento observado nos últimos dois anos. Diferentemente do que se poderia imaginar, o endurecimento anterior não foi provocado principalmente por grandes perdas catastróficas, mas por uma redução da base global de capital disponível.

Farme explica que, nos últimos anos, eventos climáticos globais vêm produzindo perdas recorrentes na casa de US$ 100 bilhões anuais, patamar que, embora elevado, continua absorvível pela indústria global. O que efetivamente pressionou o mercado entre 2023 e 2024 foram fatores macroeconômicos. “O endurecimento não veio das perdas. O que endureceu o mercado foi um efeito financeiro: juros, inflação, remarcação de ativos e redução de capital disponível”, explicou.

Na prática, taxas maiores e resultados robustos geraram um movimento clássico dos ciclos de seguros: capital atraindo mais capital. Com o aumento da rentabilidade das resseguradoras, novos investidores passaram a enxergar oportunidades no setor, ampliando a capacidade disponível.

O resultado já pode ser observado no Brasil, que, segundo Farme, entrou no ciclo soft de forma até mais acelerada do que outros mercados. “O mundo começou a entrar nesse ciclo na segunda metade do ano passado. O Brasil acelerou muito no primeiro semestre deste ano”, afirmou.

Esse aumento de capacidade vem ocorrendo tanto pela expansão dos resseguradores tradicionais quanto pela chegada de novos participantes e plataformas especializadas. Movimentos recentes ilustram a tendência. Entre eles estão iniciativas da Pátria, crescimento de grupos como Arch, Hannover e Grange, além do avanço de plataformas dedicadas a estruturar operações de resseguro e fornecer capital para novas estruturas.

Além dos novos participantes, a tecnologia aparece como um dos principais vetores de transformação do mercado. Farme afirma que plataformas digitais estão permitindo às companhias ampliar escala de distribuição e processar volumes antes inviáveis por estruturas tradicionais. “Estamos vendo companhias conectando 15 mil, 30 mil corretores em plataformas digitais e realizando dezenas de milhares de cotações”, afirmou.

Segundo ele, a digitalização deixou de ser diferencial competitivo para se tornar requisito básico para atuação. “Virou algo obrigatório. Quem quer crescer no pequeno e médio mercado precisa ter tecnologia. Sem isso, fica difícil competir”, disse. A nova realidade, porém, não gera apenas entusiasmo. A queda das taxas impõe desafios importantes às seguradoras e resseguradoras, que precisam ampliar volume para preservar receitas. “Para atingir a mesma meta, será preciso produzir muito mais”, afirmou Farme.

Na prática, margens menores exigem maior exposição ao risco e revisão dos modelos de subscrição. O cenário demanda menos conservadorismo e análises mais refinadas. “Será preciso trabalhar mais, apertar os modelos e fazer conta na ponta do lápis”, resumiu.

Apesar da maior competição, o executivo observa que praticamente todas as linhas de negócios vivem dinâmica semelhante. A única exceção relevante é o seguro garantia, que ainda apresenta algumas limitações de capacidade para determinados riscos, embora permaneça competitivo.

Ao mesmo tempo, o ambiente macroeconômico adiciona elementos de atenção. Empresas altamente endividadas, crescimento das recuperações judiciais e possível redução de investimentos em prevenção de riscos podem criar um ambiente mais desafiador para resultados técnicos.

Segundo Farme, historicamente há dois momentos em que a sinistralidade tende a subir: em períodos de forte retomada econômica, quando ativos operam em elevada intensidade, e em cenários de forte estresse financeiro. “Se você soma elevado endividamento, menor investimento em prevenção e taxas mais baixas, pode ter um cenário de perdas mais alto”, afirmou.

Ele pondera que esses fatores isoladamente não garantem deterioração, mas elevam a probabilidade de pressão sobre os resultados. Mesmo diante dos desafios, o executivo vê o atual momento mais como oportunidade do que ameaça. “O mercado soft separa os muito mal-humorados daqueles que enxergam oportunidade. Nós estamos no grupo que vê oportunidade”, afirmou.

O encontro de resseguros no Rio refletiu essa percepção. O evento atraiu grande número de executivos estrangeiros interessados não apenas no mercado local, mas também nos impactos das novas regras regulatórias, da reforma tributária e do potencial brasileiro em uma indústria ainda pouco explorada em segmentos como riscos climáticos, estruturas paramétricas e instrumentos ligados ao mercado de capitais.

Para Farme, o tamanho do Brasil faz do país um caso particular na América Latina. “O Brasil é um outlier em qualquer escala. Tudo aqui acontece em escala grande”, afirmou. Na visão do executivo, o país pode construir soluções próprias de inovação em riscos, especialmente em instrumentos ligados ao mercado financeiro. A combinação entre um mercado de capitais sofisticado e necessidades específicas brasileiras pode abrir espaço para novas estruturas.

Mas ele reconhece que os juros ainda representam uma barreira importante. “Com juros altos, qualquer ativo de risco se torna menos atrativo”, afirmou. Enquanto isso, o mercado segue em movimento. Mais capital, mais competição e mais tecnologia devem moldar os próximos capítulos de uma indústria que entra em uma nova fase — e que, como todo ciclo de seguros, exigirá capacidade de adaptação para separar vencedores e perdedores.

Denise Bueno
Denise Buenohttp://www.sonhoseguro.com.br/
Denise Bueno sempre atuou na área de jornalismo econômico. Desde agosto de 2008 atua como jornalista freelancer, escrevendo matérias sobre finanças para cadernos especiais produzidos pelo jornal Valor Econômico, bem como para revistas como Época, Veja, Você S/A, Valor Financeiro, Valor 1000, Fiesp, ACSP, Revista de Seguros (CNSeg) entre outras publicações. É colunista do InfoMoney e do SindSeg-SP. Foi articulista da Revista Apólice. Escreveu artigos diariamente sobre seguros, resseguros, previdência e capitalização entre 1992 até agosto de 2008 para o jornal econômico Gazeta Mercantil. Recebeu, por 12 vezes, o prêmio de melhor jornalista de seguro em concursos diversos do setor e da grande mídia.

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