Por Felipe Freire de Aragão, cofundador da Latin Re e FIT Participações com apoio da LARA – Latin Re Assistant
Hoje muita gente vai discutir a convocação da Seleção Brasileira. Quem entrou, quem ficou fora, quem deveria ser titular e quem chega melhor para a Copa. Mas existe uma outra convocação que começou muito antes — e que quase ninguém vê.
Antes da bola rolar, antes do primeiro ingresso ser vendido, antes da primeira campanha de patrocinador ir ao ar e antes de qualquer seleção desembarcar, o mercado de seguros e resseguros já está em campo. E sem ele, sendo direto, seria impossível termos chegado a um evento da magnitude de uma Copa do Mundo moderna.
A Copa de 2026 será disputada em três países — Estados Unidos, Canadá e México — com 48 seleções, mais de 100 jogos, milhões de torcedores presenciais e bilhões de espectadores ao redor do planeta. Mas, por trás do espetáculo esportivo, existe uma arquitetura invisível de contratos, responsabilidades, seguros, resseguros e gestão de risco que começa anos antes do apito inicial.
A Copa não é apenas o maior evento do futebol. É provavelmente um dos programas de risco mais complexos do planeta. E a Responsabilidade Civil está no centro de tudo isso. Porque a Copa é, essencialmente, uma gigantesca concentração simultânea de pessoas, patrimônio, contratos, tecnologia, mobilidade e exposição reputacional.
Em determinados jogos, principalmente envolvendo seleções mais valiosas, existe um nível de acúmulo que poucos mercados no mundo conseguem absorver confortavelmente. No passado, tivemos a oportunidade de estruturar certificados e operações envolvendo algumas das seleções europeias mais valiosas do mundo. E existe um ponto que, honestamente, poucas pessoas fora do mercado percebem.
Hoje, dependendo da seleção e do momento esportivo, o acúmulo financeiro de um elenco pode ultrapassar facilmente €5 bilhões quando consideramos salários, contratos de imagem, valor econômico dos atletas, patrocinadores, clubes, federações e responsabilidades indiretas.
E isso leva a uma reflexão interessante.
Imagine o acúmulo financeiro dentro de um único voo da Seleção Brasileira. Talvez nem todo o limite disponível hoje no mercado internacional de RC fosse suficiente para absorver determinados cenários extremos envolvendo uma seleção top 5 global. E aí surge uma pergunta legítima: será que as federações, os clubes e os próprios atletas realmente enxergam o tamanho desse risco?
Porque não estamos falando apenas de vidas humanas — que já seriam suficientes para justificar toda preocupação do mundo. Estamos falando também de uma das maiores concentrações de capital humano do esporte global dentro de um único ambiente físico.
E o mais impressionante é que o risco não está apenas dentro das quatro linhas.
O estádio é risco.
O transporte é risco.
O catering é risco.
O hotel é risco.
O VAR é risco.
O telão é risco.
O sistema biométrico é risco.
O drone é risco.
O fornecedor terceirizado do fornecedor também é risco.
Quase tudo na Copa é segurado.
E precisa ser.
A RC do organizador talvez seja a peça mais sensível do programa inteiro. A FIFA, os comitês organizadores locais, os operadores dos estádios e os fornecedores convivem com exposições gigantescas relacionadas a lesões corporais, falhas operacionais, tumultos, problemas de infraestrutura, danos materiais e responsabilidade cruzada entre diferentes operações e jurisdições.
Porque basta um único incidente relevante para transformar um jogo em um evento de consequências bilionárias. E quando falamos em multidões, inevitavelmente falamos de tumulto, violência e risco político.
A Copa de 2026 acontece em um ambiente particularmente sensível. Três países diferentes. Contextos políticos distintos. Tensões migratórias. Polarização crescente. Manifestações. Pressão social. E uma exposição global sem precedentes.
Hoje os riscos de SRCC (strikes, riots and civil commotion), terrorismo e political violence deixaram de ser coberturas periféricas em grandes eventos. Eles passaram a ocupar posição central na modelagem do risco.
E existe uma dificuldade importante: o dano nem sempre vem de um grande ataque. Às vezes o maior problema nasce do pânico. Uma falha em controle de acesso. Um problema em evacuação. Uma pane tecnológica. Um boato. Um movimento de multidão. Em eventos dessa escala, segundos importam. E isso nos leva a outra transformação importante da indústria: a migração do risco físico para o risco híbrido.
Hoje um ataque cibernético pode gerar dano físico real. Uma falha em sistemas de acesso pode gerar superlotação. Uma pane em comunicação de emergência pode gerar tumulto. Um ataque a sistemas de energia ou transmissão pode interromper operações críticas em tempo real.
A Copa moderna não depende apenas de concreto e segurança privada. Ela depende de tecnologia funcionando perfeitamente o tempo inteiro. Muito antes da abertura, existe ainda outro lado menos visível do risco: contratos, obras, fornecedores, entregas, garantias financeiras e crédito circulando por anos até que o evento finalmente aconteça.
Os seguros garantia e de crédito acabam funcionando quase como a infraestrutura silenciosa da Copa. Eles ajudam a sustentar a confiança necessária para que obras avancem, fornecedores assumam compromissos de longo prazo e contratos bilionários atravessem diferentes ciclos econômicos até a entrega final.
Mas quando o torneio começa, o centro do risco volta a ser humano.
Atletas, árbitros, comissões técnicas, voluntários, jornalistas, equipes operacionais, fornecedores e milhões de torcedores passam a fazer parte de uma operação viva e extremamente sensível.
Os seguros de vida e acidentes pessoais ganham então uma dimensão enorme — especialmente porque o futebol moderno deixou de representar apenas paixão esportiva. Hoje ele também representa ativos humanos de valor econômico gigantesco.
Uma lesão grave durante a Copa não impacta apenas uma partida. Ela pode afetar clubes, patrocinadores, contratos futuros, campanhas globais e até companhias abertas expostas economicamente à imagem de determinados atletas. Ao mesmo tempo, existe um aspecto mais humano que às vezes o mercado esquece: por trás de todo cálculo atuarial existem pessoas.
Existe o voluntário trabalhando doze horas por dia em uma fan zone. Existe o jornalista atravessando cidades e multidões diariamente. Existe o funcionário operacional responsável por fluxos gigantescos de público. Existe o torcedor viajando milhares de quilômetros para viver talvez o momento mais importante da vida dele dentro do esporte. E talvez seja exatamente aí que o seguro mostre sua face mais importante.
Não apenas na capacidade de indenizar perdas gigantescas, mas na capacidade de dar segurança para que milhões de pessoas participem de algo dessa dimensão. Existe também um simbolismo silencioso em torno desta Copa. A final do maior Mundial da história acontecerá na região de Nova York, um dos maiores centros financeiros do planeta e marcado para sempre pelo trauma do 11 de setembro. Talvez isso diga muito sobre a própria evolução do mercado global de riscos.
Porque apenas uma indústria extremamente sofisticada de seguros, resseguros, modelagem de catástrofe, gestão de multidões, riscos cibernéticos, terrorismo e responsabilidade civil conseguiria oferecer hoje a resiliência necessária para reunir novamente dezenas de milhares de pessoas em um evento dessa magnitude no mesmo epicentro simbólico de um dos maiores ataques da história moderna.
No fundo, seguro também é isso. A capacidade da sociedade continuar funcionando, investindo, construindo e se reunindo mesmo depois dos maiores choques. A própria ideia de reunir bilhões de dólares em infraestrutura, direitos de mídia, capital humano, transporte, tecnologia e responsabilidade jurídica em torno de um único torneio seria economicamente inviável sem mecanismos sofisticados de transferência de risco.
O seguro não apenas protege a Copa.
Ele ajudou a tornar a Copa possível.
Quando a bola rolar em 2026, bilhões de pessoas estarão olhando para o campo. Mas talvez o jogo mais complexo já tenha acontecido muito antes, silenciosamente, entre seguradoras, resseguradores, brokers, governos, atuários, advogados e mercados financeiros espalhados pelo mundo.
Porque uma Copa do Mundo não começa na abertura.
Ela começa quando alguém aceita carregar o risco.