A terceira estrutura brasileira voltada à emissão de Letras de Risco de Seguro (LRS) chega ao mercado em um momento considerado estratégico para o desenvolvimento de instrumentos alternativos de transferência de riscos no país. Depois de Andrina, do IRB, e da Galapagos Capital, a Ariel SSPE nasce com a proposta de conectar o mercado de seguros ao de capitais e ampliar a oferta de proteção em um cenário de aumento de eventos climáticos extremos, maior sofisticação do setor e crescente interesse de investidores por ativos descorrelacionados.
A empresa será comandada por Aline Meza, executiva que atuou como subscritora do IRB Brasil Re e participou da estruturação da primeira emissão de LRS do país. A chegada da Ariel ocorre após as primeiras iniciativas do mercado brasileiro começarem a tirar do papel um modelo amplamente consolidado em mercados como Estados Unidos e Europa, especialmente para cobertura de riscos catastróficos. O objetivo das LRS é permitir que riscos tradicionalmente absorvidos pelo mercado segurador sejam parcialmente transferidos ao mercado de capitais, criando uma fonte adicional de capacidade financeira.
Para Aline Meza, quatro fatores explicam o momento favorável ao lançamento da nova empresa. O primeiro deles é o avanço regulatório. Segundo a executiva, a Resolução CNSP nº 453, de 2022, criou um ambiente adequado para constituição e operação de SSPEs, acompanhado de apoio institucional ao desenvolvimento do segmento.
O segundo fator é o próprio crescimento global do mercado de Insurance Linked Securities (ILS). Segundo ela, esse capital alternativo já representa entre 15% e 25% do capital total dedicado ao resseguro no mundo. “Não há como ignorar que o ILS/LRS virou não só realidade, mas rotina em mercados historicamente tradicionais”, afirma.
Durante o Encontro de Resseguro do Rio de Janeiro, realizado pela CNseg e pela Fenaber, a executiva destacou a evolução da cultura de transferência de riscos no Brasil. Desde a abertura do mercado de resseguros, há cerca de 18 anos, seguradoras passaram a utilizar estruturas mais sofisticadas e acumularam experiências relevantes, incluindo eventos catastróficos locais e internacionais. Segundo Aline, isso elevou a maturidade técnica e criou espaço para inovação. “Crises recentes, variações cambiais e movimentos nas taxas de juros trazem apetite e vontade do investidor em encontrar formas diferentes de investimento”, afirma.
A experiência acumulada na primeira operação de LRS do país também molda a estratégia da nova companhia. Aline participou diretamente da estrutura pioneira e considera que a experiência mostrou o potencial do instrumento, mas também revelou desafios importantes de educação do mercado.
“Esta experiência só confirmou o que já imaginava: este é um instrumento extremamente poderoso e que só tem a contribuir com o mercado”, afirma. Segundo ela, ainda existe um trabalho intenso a ser realizado tanto junto ao setor de seguros quanto ao mercado de capitais, especialmente para ampliar o uso das estruturas em linhas como agro, patrimonial, marine e seguros paramétricos.
A Ariel pretende operar de forma independente, com foco em divulgação, educação e estruturação de operações sob medida. “Construiremos a Ariel SSPE focados na estruturação de títulos tailor-made que alinhem necessidade do mercado de seguros com o apetite do mercado de capitais”, afirma.
Segundo ela, o Brasil vive um estágio semelhante ao observado há décadas em mercados mais maduros. O aumento da frequência de eventos climáticos extremos e a necessidade de ampliar a capacidade de proteção podem acelerar a adoção dessas soluções. “O mais importante é que esses instrumentos não substituem o mercado tradicional. Eles se mostram um capital adicional e complementar”, diz.
Do lado dos investidores, a percepção também estaria mudando. Segundo Aline, desde a primeira emissão houve evolução no entendimento sobre a relevância e funcionamento das LRS. A expectativa é atrair principalmente investidores institucionais, family offices e fundos de investimento. Na Ariel, um dos investidores é Rodrigo Botti, especialista neste tempo há anos e que agora comanda a área de resseguros da corretora Lockton.
Ela afirma que há sinais de aquecimento tanto entre seguradoras quanto investidores. Além da busca por diversificação, outro vetor relevante é o componente ESG ligado à proteção e adaptação frente aos impactos climáticos.
As ambições da Ariel também são elevadas. A empresa estima que o mercado brasileiro de Letras de Risco de Seguro possa alcançar entre R$ 30 bilhões e R$ 100 bilhões em emissões anuais nos próximos anos, patamar próximo ao observado em instrumentos de securitização já consolidados, como CRIs e CRAs.
“Temos a ambição de posicionar a Ariel como uma das principais emissoras desse mercado nascente”, afirma Aline. A executiva vê ainda potencial para o Brasil se tornar uma referência regional no segmento. Segundo ela, investidores internacionais têm demonstrado interesse crescente por riscos fora dos mercados tradicionalmente concentrados nos Estados Unidos e Europa.
Esse interesse pode abrir uma nova fronteira para o mercado segurador brasileiro: a criação de uma ponte mais estruturada entre proteção, resseguro e mercado de capitais. Em um país que historicamente não era percebido como catastrófico, mas que passou a conviver com eventos extremos de maior frequência, o desafio pode ser transformar necessidade em oportunidade.
Governo prevê aumento da demanda com debates mais maduros
A construção das primeiras Letras de Risco de Seguro no Brasil exigiu mais do que uma inovação financeira. O processo envolveu adaptações regulatórias, jurídicas, operacionais e até culturais para transformar em realidade um instrumento amplamente utilizado no exterior, mas ainda inédito no mercado brasileiro.
Durante debate realizado em evento do setor de resseguros, executivos e representantes do governo destacaram que a jornada ainda está em construção e que muitos ajustes devem surgir à medida que o mercado evoluir.
Para Vinicius Brandi, subsecretário de Reformas Microeconômicas e Regulação Financeira do Ministério da Fazenda, a publicação da norma foi apenas o ponto de partida. “O debate regulatório não se encerra quando a norma é publicada no Diário Oficial. Na verdade, ele se intensifica”, afirmou. Segundo ele, o processo vem produzindo aprendizados e levantando novos questionamentos relacionados à governança, tributação, estrutura das SSPEs e participação de diferentes órgãos reguladores.
Brandi afirmou ainda que a evolução do instrumento poderá trazer novos desafios à medida que a estrutura avance para riscos mais sofisticados. “Tudo bem quando falamos de riscos mais próximos do mercado financeiro, como seguro garantia. Mas novas perguntas surgirão quando migrarmos para riscos mais complexos, mais próximos da origem dos cat bonds”, disse.
Na avaliação de Pedro Farme, CEO da Guy Carpenter, o Brasil possui características distintas dos mercados onde esses instrumentos nasceram e isso exige adaptações locais. “A gente não pode simplesmente repetir uma equação que funciona em outros mercados e assumir que ela funcionará aqui”, afirmou. Segundo ele, enquanto cerca de 95% das emissões globais continuam concentradas entre Estados Unidos e Europa, o Brasil precisa encontrar aplicações alinhadas às suas necessidades específicas.
Farme destacou que o país possui oportunidades em segmentos como seguro garantia, infraestrutura, crédito de carbono e proteção financeira, criando espaço para desenvolver estruturas próprias. “O mercado de capitais brasileiro é sofisticado e acostumado a trabalhar riscos. Existe espaço para inovação”, afirmou.
Já Emerson Medeiros, officer institucional do Itaú, relatou que o maior desafio da primeira operação foi justamente transformar um conceito internacional em algo compreensível e operacional no Brasil. “Foi preciso traduzir a linguagem do seguro para a do mercado de capitais”, afirmou. Segundo ele, explicar ao investidor que existe a possibilidade de perda parcial ou total do capital diante de determinados eventos gerou resistência inicial e exigiu um trabalho extenso de educação do mercado.
Antes da primeira emissão sair do papel, o grupo passou cerca de dois a três anos em conversas com gestores e participantes do mercado.”Todo mundo dizia que seria revolucionário. Mas a dúvida era como fazer funcionar”, afirmou Medeiros. Segundo ele, a estrutura demandou adaptações em bancos, processos internos, infraestrutura de mercado e na própria B3. O trabalho envolveu interações entre Susep, Ministério da Fazenda e diferentes agentes do sistema financeiro. “Todo mundo olhou na mesma direção para mostrar ao mercado que era um produto replicável”, disse.
















