O setor de seguros brasileiro encerra 2025 com a sensação de que está apenas na “primeira fase do filme”, com muitas discussões que culminaram na entrada em vigor hoje do novo marco legal de contratos de seguros — e que 2026 pode finalmente está destinado a trazer um “final feliz”, nas palavras do presidente da CNseg, Dyogo Oliveira. Depois de um ano de avanços estruturais, diagnósticos profundos sobre o comportamento do consumidor e um ambiente macroeconômico ainda desafiador, a indústria entra no próximo ciclo com uma agenda clara: aumentar a proteção, expandir a presença do seguro entre a população e enfrentar, de maneira objetiva, as causas da baixa penetração do produto no país.
Durante a tradicional coletiva de final de ano à imprensa, Oliveira destacou que 2025 foi fundamental para compreender melhor as percepções da sociedade sobre o mercado segurador. Pesquisas conduzidas neste ano revelaram a existência de “dois mundos”: um grupo que entende, recomenda e se relaciona com o seguro, e outro — majoritário — que sequer compreende conceitos básicos.
“Cerca de 85% das pessoas não sabem que prêmio é o valor pago, não entendem o que é sinistro, franquia. E essas mesmas pessoas nos dizem que não são procuradas com ofertas do setor”, afirmou. Segundo ele, esse dado acendeu uma “luz amarela” e mostra para onde o mercado precisa caminhar: comunicação mais ativa, linguagem mais acessível e uma estratégia de aproximação real com quem nunca contratou um seguro.
Essa reaproximação será crucial em um cenário econômico que continua apertado. As projeções divulgadas pela CNseg apontam PIB de 1,95%, IPCA de 4,08% e Selic a 12% em dezembro de 2026, combinação que não libera totalmente o consumo, mas oferece alguma estabilidade para o planejamento de famílias e empresas. Já o cenário fiscal permanece tensionado, com o governo buscando receitas para acomodar despesas obrigatórias, o que adiciona incerteza especialmente sobre políticas de previdência e tributação.
A previdência aberta, aliás, é exatamente o ponto cego das projeções. Com a mudança no IOF e o teto de R$ 600 mil anuais para aportes em 2026, o comportamento futuro do VGBL permanece imprevisível. A CNseg optou por não divulgar projeções para o próximo ano, justamente pela volatilidade causada pelas alterações tributárias e pela queda de 25% nas contribuições até setembro de 2025. “É uma incógnita”, resumiu Oliveira.
Mesmo com esse componente de incerteza, o mercado de seguros como um todo deve apresentar um desempenho robusto. Excluindo previdência, o crescimento projetado para 2026 é de 8% — cerca de 4% em termos reais, segundo Oliveira, número bastante expressivo para a economia brasileira. Os dados da CNseg confirmam esse movimento em quase todos os ramos: automóveis (+7,7%), danos e responsabilidades (+8,5%), habitacional (+10,2%), transportes (+6,6%) e riscos financeiros (+12,5%).
No automóvel, o crescimento é impulsionado pelo aumento de 57,6% nos emplacamentos de híbridos e elétricos (jan–nov/2025) e pela manutenção de sinistralidade em patamar estável, de 59,8% até setembro de 2025. No habitacional, os lançamentos avançaram 25,2% e as vendas cresceram 2,9%, estimuladas pelo Minha Casa Minha Vida — um vetor evidente de expansão do seguro prestamista e habitacional. O ramo de transportes também ganha impulso com o e-commerce e com a expectativa de que a nova regulamentação, que vincula emissão de nota fiscal à verificação da existência de apólice, fortaleça o compliance e amplie a base segurada.
A única nota destoante do cenário otimista é o seguro rural. O ramo depende fortemente de subvenção pública e, embora o Congresso tenha aprovado o projeto que transforma o subsídio em despesa obrigatória, o texto ainda aguarda sanção presidencial. Até lá, o setor convive com dúvidas — apesar do orçamento previsto de R$ 1 bilhão para o PSR em 2026 e da perspectiva positiva trazida pelo futuro Fundo Catástrofe. A projeção da CNseg para o ramo é de crescimento de 2,3%.
No campo dos riscos financeiros, 2026 deve ser um ano de forte expansão, com destaque para o seguro garantia (+12,1%). O estoque de processos do CARF a serem liquidados até o fim de 2026, a nova Lei de Seguros, o avanço do PAC e a reforma tributária criam ambiente favorável para esse mercado.
Para Oliveira, o setor seguirá crescendo, mas o grande salto virá quando o país resolver um problema anterior ao próprio produto: a barreira cultural. “Precisamos enfrentar as causas da baixa penetração do seguro no Brasil. Isso passa por ações concretas, por comunicação clara e por olhar para quem hoje está fora do sistema. Não basta esperar que esse público venha até nós”, afirmou.
Taxonomia Sustentável
O setor de seguros entrou em 2026 com uma das iniciativas mais estratégicas de sua agenda de sustentabilidade: a construção da Taxonomia Sustentável do Mercado Segurador (TSS), apresentada por Claudia Prates, diretora de Sustentabilidade da CNseg, durante a coletiva. O material — que define critérios objetivos, elegibilidade de produtos e impactos esperados — será submetido a consulta pública no próximo dia 15, abrindo uma fase de engajamento amplo com seguradoras, reguladores e sociedade.
Segundo Claudia, o ponto de partida foi o reconhecimento de que o mercado brasileiro ainda operava sem padronização suficiente para classificar produtos sustentáveis. “Poucas seguradoras classificaram seus produtos como sustentáveis até agora. E isso não acontece por falta de interesse, mas por falta de segurança técnica. Com a taxonomia, vamos conversar com a Susep e validar essas classificações, evitando erros e prevenindo o greenwashing”, afirmou.
A taxonomia, conforme a CNseg detalhou estabelece um arcabouço metodológico único para orientar seguradoras na avaliação de atividades, critérios de elegibilidade, contribuições e características que permitam rotular produtos como sustentáveis. Esse alinhamento se conecta tanto a marcos nacionais (como a Resolução CNSP 473/24) quanto a referências internacionais — um passo decisivo para garantir integridade e comparabilidade entre mercados.
Claudia reforçou que este é um trabalho coletivo, mas já maduro o suficiente para ser discutido abertamente. “Fechamos o arcabouço e agora vamos fazer a consulta pública com as seguradoras, que será lançada no dia 15. É um trabalho a ser terminado, mas já temos a base toda para discutir com o governo. Vamos fazer aberto para todos participarem e teremos um benchmark inspirador para o setor.”
Os impactos esperados da taxonomia, apresentados vão além do próprio mercado. Para as seguradoras, a TSS oferece referências padronizadas para desenvolvimento de produtos, maior segurança jurídica e redução de assimetrias de informação. Para o regulador, cria uma base técnica clara para futuros aprimoramentos normativos. Mas é para a sociedade que Claudia enfatiza os maiores benefícios: “A taxonomia permitirá ampliar o acesso à proteção, fomentar soluções para setores críticos como agro, florestas e cidades, e aumentar a transparência e a confiança no setor de seguros.”
A estrutura prevê ainda um componente essencial: indutores de boas práticas na cadeia de valor. “Essa taxonomia não é apenas um mapa; ela gera incentivos para que as empresas desenvolvam produtos que realmente contribuam para mitigação, adaptação e inclusão. É um processo que eleva a régua do mercado”, disse Claudia.
Na apresentação, a CNseg apresentou exemplos concretos de produtos elegíveis demonstrando como a taxonomia será aplicada na prática. Entre eles:
• Microsseguro de vida voltado a populações vulneráveis, com critérios de precificação acessível, adesão simplificada e indicadores claros de impacto social.
• Seguro Agrícola, com elegibilidade condicionada a cobertura contra eventos climáticos extremos, conformidade com o ZARC e uso de práticas de adaptação climática.
• Seguro Auto para veículos elétricos e híbridos, que deve incluir rede de oficinas especializadas, descarte adequado de baterias e incentivo ao uso de peças recondicionadas.
• Produtos de capitalização com finalidade filantrópica, que devem adotar métricas de impacto, reporte transparente e governança estruturada sobre os recursos repassados.
Esses exemplos ajudam a demonstrar como a taxonomia funcionará como um instrumento orientador, mas também como gatilho de inovação. “Estamos criando um padrão que ajudará o mercado a entender onde estão as verdadeiras contribuições socioambientais. Não basta rotular: é preciso provar impacto, consistência e alinhamento com os objetivos da taxonomia”, destacou Claudia.
A jornada da TSS prevê ainda guias por linha de negócio, governança de monitoramento, processo contínuo de atualização e treinamentos. A ideia é que o instrumento evolua ao longo dos próximos anos, acompanhando avanços regulatórios, climáticos e tecnológicos.
Com a consulta pública marcada e o engajamento crescente das seguradoras, a TSS inaugura uma nova fase para o mercado segurador brasileiro — mais transparente, mais orientado ao impacto e mais próximo da sociedade, afirma Claudia Prates.
Depois de uma primeira fase de filme agitada, com muitos pontos de vistas divergentes, agora a perspectiva é que a “segunda fase do filme”, como definiu o presidente, é justamente essa: um ciclo em que o setor assume papel mais ativo, combate a desinformação, amplia o alcance dos produtos e fortalece sua presença no dia a dia das famílias brasileiras. Se o roteiro será de fato premiado com um final feliz, 2026 começará a contar, sendo o interesse do consumidor pelo setor o melhor spoiler. A conferir.