Por Leandro Ramirez, especialista em seguros
O avanço das mudanças climáticas e a maior incidência de eventos extremos estão impondo uma revisão profunda na forma como projetos de infraestrutura são estruturados, financiados e protegidos. Rodovias, portos, ativos de energia e saneamento já convivem com uma realidade em que chuvas intensas, secas, enchentes e furacões deixaram de ser exceção. Nesse contexto, o seguro e o resseguro ganham papel cada vez mais estratégico, não apenas como instrumentos de proteção financeira, mas como alavancas para destravar investimentos e induzir melhores padrões de engenharia e gestão de riscos.
Ao longo da minha trajetória em resseguradoras globais e corretoras internacionais, tive a oportunidade de participar de projetos de infraestrutura em diferentes países, como Suíça, Estados Unidos e, mais recentemente, na América Latina. Essa experiência mostra que uma das principais diferenças entre o Brasil e mercados mais maduros está no peso da incerteza macroeconômica sobre a subscrição. Em projetos de infraestrutura com prazo médio de execução de quatro anos, fatores como taxa de juros, custo de mão de obra e preço de insumos têm influência direta sobre o custo de reconstrução e, portanto, sobre o risco segurado.
Na América Latina, e particularmente no Brasil, outro fator recorrente é o atraso nos projetos. Em média, 70% das obras são entregues com custo superior ao planejado e fora do prazo inicial. Isso afeta não apenas o cronograma dos empreendimentos, mas também o fluxo de caixa das seguradoras, sobretudo quando há atraso no pagamento do prêmio. Em mercados mais maduros, embora os riscos técnicos e climáticos também sejam relevantes, a previsibilidade institucional e macroeconômica tende a reduzir parte dessas incertezas.
A agenda climática, reforçada pela realização da COP30 no Brasil, amplia ainda mais a relevância desse debate. O mercado de seguros pode exercer função decisiva ao tornar países vulneráveis mais atrativos para investimentos em infraestrutura. Isso ocorre porque a proteção securitária ajuda a reduzir a percepção de risco e contribui para viabilizar financeiramente projetos de longo prazo em regiões expostas a eventos severos. Ao mesmo tempo, o desenvolvimento recente de modelos climáticos mais robustos pelos resseguradores tem tornado soluções como o seguro paramétrico mais acessíveis do que eram cinco anos atrás.
Um exemplo concreto dessa evolução foi um projeto recente de seguro paramétrico para a cidade de Miami. A iniciativa envolveu parceria entre o setor público e o mercado segurador. Além da avaliação do plano de gestão de risco da cidade para exposições como furacões e inundações, foi possível modelar uma cobertura paramétrica cujo prêmio acabou sendo pago por uma fundação filantrópica, já que o município não tinha recursos orçamentários reservados para essa finalidade. A experiência mostra como a atuação conjunta entre setor público, mercado segurador e outras fontes de capital pode viabilizar soluções inovadoras de proteção e, com isso, apoiar investimentos em infraestrutura em áreas sensíveis às mudanças climáticas.
Os investidores já começaram a incorporar esses riscos à estruturação dos projetos. Do ponto de vista técnico, alguns empreendimentos, especialmente em rodovias e portos, vêm revisando normas de engenharia para responder a eventos de maior severidade. Sob a ótica econômico-financeira, financiadores passaram a exigir estudos de resiliência dos ativos, com cenários climáticos de longo prazo, como condição para apoiar novos investimentos. Isso sinaliza uma mudança importante: não basta mais avaliar a viabilidade econômica tradicional; é preciso testar a robustez dos ativos diante de condições climáticas futuras e incertezas associadas.
Nesse ambiente, o seguro paramétrico tende a ganhar espaço em situações nas quais a frequência e a severidade dos eventos climáticos tornam mais difícil ou mais cara a transferência de risco pelos modelos tradicionais. Inicialmente mais explorado pelo setor público, esse instrumento vem despertando interesse crescente também entre agentes privados, sobretudo quando há necessidade de cobrir diversos ativos concentrados em determinada região. Trata-se de uma solução que pode complementar a cobertura convencional, especialmente em carteiras expostas a perdas catastróficas de rápida materialização.
O seguro também pode contribuir para destravar o financiamento de projetos sustentáveis. Organismos multilaterais, bancos e investidores institucionais vêm exigindo estruturas mais robustas de gestão de risco climático, e a presença de coberturas adequadas pode reforçar a bancabilidade dos empreendimentos. As seguradoras já começam a desenvolver uma agenda mais clara de atuação nesse campo, inclusive com apoio a iniciativas relacionadas à restauração de ecossistemas, o que amplia o papel do setor para além da simples indenização.
Apesar do aumento das catástrofes naturais, ainda há capacidade disponível no mercado segurador para apoiar grandes obras. O foco, neste momento, parece estar menos na escassez de capacidade e mais na qualidade da gestão de risco e da sustentabilidade dos projetos. Seguradoras e resseguradoras buscam incentivar empresas que adotam postura proativa na mitigação de riscos climáticos. No Brasil, os eventos recentes aceleraram um movimento importante entre seguradoras locais: o aperfeiçoamento da qualidade dos dados para melhorar a precificação e a gestão das carteiras.
Na prática, estruturar um projeto de infraestrutura climate resilient significa abandonar a lógica de que o clima do passado será uma boa referência para o futuro. É necessário considerar condições meteorológicas futuras e as incertezas associadas a elas desde a fase de concepção. Isso implica critérios mais rigorosos de projeto, construção e operação. Nesse processo, o seguro pode funcionar como instrumento indutor de melhores práticas, oferecendo termos e condições mais favoráveis para projetos mais resilientes e bem planejados.
O novo ciclo de investimentos em infraestrutura no Brasil, ancorado em concessões, PPPs, energia e saneamento, abre uma janela relevante de oportunidades para o mercado segurador. As seguradoras não apenas oferecem capacidade para cobrir obras, mas também aportam conhecimento técnico ao longo de todo o ciclo do investimento. Dada a complexidade desses projetos, esse movimento também tende a elevar o nível técnico de todos os profissionais envolvidos, de subscritores e gerentes de risco a reguladores de sinistros. Com o protagonismo crescente do capital privado, a disciplina na avaliação de riscos se torna mais rigorosa, o que favorece a evolução do mercado e reforça a importância do seguro como parte da engrenagem de desenvolvimento da infraestrutura brasileira.












