Revista Apólice: É hora de se preparar para o futuro

Os corretores, de todo o Brasil, têm um grande desafio pela frente. Vivemos um momento de readequação na forma de pensar o futuro. De se preparar para o futuro. Os sistemas oficial e privado de previ- dência são pressionados a mudar para se adaptar a um cenário de taxas de juros menores. E neste momento, todo cuidado é pouco, segundo o consultor e econo- mista Luiz Calado, do IBEF (Instituto Brasileiro de Executivos Financeiros).

“Ninguém acreditava que poderia existir um cisne negro. Todos acreditam apenas que existia um cisne branco. Mas setembro de 2008 está ai para mostrar que tudo é possível”, disse durante palestra proferida no evento “Mesa Redonda – Os efeitos da atual política de juros no mercado de seguros e previdência”, promovido em São Paulo, pela Escola Nacional de Seguros.

Ele se referiu ao maior pico da bolsa em 2008, quando a BM&FBovespa atingiu 73 mil pontos. Naquela época, as principais revistas do país traziam matérias de capa como “Faça dinheiro com ações”, ou jovens que ficaram famosos com o enredo “Ganhei R$ 1 milhão na Bolsa”. Bem, tudo isso desapareceu com a crise financeira, trazendo todos a uma realidade mais amarga. O Brasil registrou o maior derretimento dos lucros da bolsa da época, chegando a pouco mais de 40 mil pontos. Os papéis amargaram mais de 50% de perda.

E o que isso tem a ver com o Cisne Negro? “Quando o mercado está subindo, todos projetam cenários positivos. Mas é preciso olhar o cisne negro, que surge para quebrar com a nossa expectativa”, diz o economista, estimulando que as pessoas avaliem as informações antes de escolher uma estratégia. Se seguir o curso da maioria, corre o risco de se arrepender, de perder tempo, dinheiro, clientes e amigos.

Faria fez uma pesquisa com 52 seguradoras, usando o banco de dados público da Superintendência de Seguros Privados (Susep). O estudo mostrou que nas seguradoras do segmento de seguros gerais, o resultado financeiro sobre o prêmio ganho passou de 15% em 2003 para 8% em agosto de 2012. O índice combinado melhorou dez pontos percentuais, passando de 110% para 102%.

Dentro deste contexto, Lauro Vieira de Faria, economista da Escola Nacional de Seguros, divulgou um estudo sobre o que as seguradoras brasileiras já fizeram para se adaptarem a um cenário de queda de juros. “O estudo revela que elas já fizeram ajustes sig- nificativos para conviver com taxas de juros menores, mas ainda precisam adotar estratégias para manter o nível de retorno financeiro ao acionista”, diz Faria.

Segundo ele, a cada um ponto percentual de redu- ção da taxa de juros, as seguradoras precisam melhorar em um ponto percentual o índice combinado (fatura- mento menos despesas e pagamentos de indenizações), indicador conhecido no setor por medir a eficiência operacional de uma companhia. Quanto menor, melhor. “Se comparado ao mercado internacional, onde a relação é de a cada um ponto percentual de queda de juros há uma necessidade de melhorar três pontos percentuais de índice combinado, as seguradoras no Brasil estão muito capitalizadas”, afirma.

As seguradoras do ramo vida devem ser mais atin- gidas pela baixa da taxa de juros, acredita Faria. “Mas é preciso olhar cada caso, empresa a empresa”, citou. Já seguros gerais, que envolvem bens patrimoniais, têm menos chance de serem afetados em razão dos contratos serem de curto prazo de, no máximo, um ano.

A rentabilidade sobre o patrimônio médio pra- ticamente se manteve em 8%, com um pico de 17% nos anos de 2006, 2007 e 2011. Segundo ele, os in- vestidores estão acostumados com uma faixa de 12%. “Então, para retornar a esse patamar, as seguradoras de seguros gerais precisam acelerar estratégias para aumentar a rentabilidade neste cenário de queda de taxas de juros”, afirma Faria.

As seguradoras de vida mostram outro cenário, uma vez que os passivos são mais de longo prazo, ao contrário de seguros gerais, onde a maioria dos con- tratos de seguros tem vigência de um ano. Na média entre as 26 seguradoras pertencentes à amostra, o resultado financeiro sobre o prêmio ganho que era de 22% em 2003 caiu para 6% em agosto de 2012. A rentabilidade sobre o PL se manteve em 25%, com um pico de 46% em 2005. Ou seja, um elevado índice de remuneração ao acionista.

Não é possível saber se esse ajustamento revelado na pesquisa procede de aumento de preço, da me- lhora da subscrição, da redução de custos. “Acredito que esse ajustamento veio de ganho operacional”, comentou Faria.

As alternativas para compensar o vácuo deixado pela redução do ganho financeiro são aumento do preço, ampliação do portfolio e área de abrangência da companhia e redução de custos. Outra saída é apli- car as reservas técnicas (valores que garantem que a seguradora vai ter recursos para pagar a indenização no futuro) em ativos de maior risco, numa tentativa de aumentar o retorno da carteira de investimentos.

Também é possível fazer uma alavancagem maior entre prêmio e patrimônio. Faria acha pouco provável a alavancagem, em razão das amarras regulatórias e maior fiscalização das companhias por parte da Susep. O economista também não acredita que as companhias consigam aumentar o preço do seguro diante de um mercado extremamente competitivo. Para ele, a aposta do setor está na melhoria operacional por meio do ganho de escala ao conquistar mais clientes para o setor de seguros.

A pergunta que não quer calar foi feita por um dos corretores presentes. “Por que as seguradoras não fizeram um hedge para garantir o resultado fi nanceiro quando estavam ganhando rios de dinheiro sem repassar ao cliente, ganhando taxas de 15% e pagando 6%, se era claro a queda das taxas de ju- ros?”. Segundo Faria, as seguradoras são reguladas e não podem fazer operações de derivativos. “Uma coisa é fazer hedge nos EUA e outra é fazer hedge no Brasil”, diz ele.

Bem, a nova realidade é que a Susep olha para o tema e vislumbra exigir das seguradoras um forte aporte financeiro para garantir que elas terão recur- sos suficientes para fazer frente aos planos vendidos no passado com garantias de rentabilidade. Segundo um teste de resistência feito pelo órgão regulador, a necessidade de aumento de provisões por parte das seguradoras seria de R$ 6 bilhões, informou o Valor Econômico recentemente.

Os atuais, como PGBL e VGBL, não apresentam riscos, pois a rentabilidade prometida é a obtida pela aplicação dos recursos no mercado financeiro. O pro- blema aqui são as taxas cobradas, de carregamento (sobre os aportes) e de administração (sobre o patri- mônio acumulado), que em alguns casos superam em muito a rentabilidade obtida pelo gestor. “As taxas de fundos fechados cobradas dos participantes vao de 4% a 15%”, informou Wilma Gomes Torres, da Previc. “Um percentual elevadíssimo se considerarmos os rendimentos atuais, com juro real de 1,5%. “Vamos atacar esse problema em 2013”.

Já para os planos que garantem rentabilidade e também para aqueles que querem ganhar algo além do juro real, hoje na casa dos 1,5% no Brasil e negativo em países como Japão e Estados Unidos, será preciso assumir riscos. “E numa hora dessa, o corretor tem de estar bem informado sobre o mercado financeiro e sobre a saúde da seguradora que escolhe para seu cliente”, enfatizou Marcelo Caetano, do IPEA.

Denise Bueno
Denise Buenohttp://www.sonhoseguro.com.br/
Denise Bueno sempre atuou na área de jornalismo econômico. Desde agosto de 2008 atua como jornalista freelancer, escrevendo matérias sobre finanças para cadernos especiais produzidos pelo jornal Valor Econômico, bem como para revistas como Época, Veja, Você S/A, Valor Financeiro, Valor 1000, Fiesp, ACSP, Revista de Seguros (CNSeg) entre outras publicações. É colunista do InfoMoney e do SindSeg-SP. Foi articulista da Revista Apólice. Escreveu artigos diariamente sobre seguros, resseguros, previdência e capitalização entre 1992 até agosto de 2008 para o jornal econômico Gazeta Mercantil. Recebeu, por 12 vezes, o prêmio de melhor jornalista de seguro em concursos diversos do setor e da grande mídia.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Ouça nosso podcast

ARTIGOS RELACIONADOS