O mercado de resseguros iniciou nesta terça-feira (19) no Rio de Janeiro uma das suas principais agendas do ano em um momento considerado favorável para expansão dos negócios no Brasil. Em um cenário de ampla oferta global de capital e elevada capacidade disponível para absorção de riscos — conhecido no setor como mercado soft — executivos, reguladores e lideranças do setor de seguros e resseguros defendem que o país vive uma janela de oportunidade para ampliar produtos, estimular novos participantes e avançar em áreas ainda pouco exploradas pela indústria.
O tema permeou a abertura do Encontro de Resseguro do Rio de Janeiro, promovido pela Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg) em parceria com a Federação Nacional das Empresas de Resseguros (Fenaber), que reúne seguradoras, resseguradoras, corretores e especialistas brasileiros e internacionais. Mais do que discutir renovação de contratos e tendências técnicas, o evento deste ano ocorre em meio a uma combinação de fatores que pode redefinir a dinâmica concorrencial do mercado local.
Na prática, o ambiente atual é marcado por maior disponibilidade de capacidade de resseguro global e menor pressão de preços após ciclos recentes de endurecimento. O movimento amplia o acesso ao capital e cria condições para que seguradoras avancem em nichos ainda pouco desenvolvidos no Brasil, sobretudo em segmentos com baixa penetração, riscos especializados e áreas historicamente marcadas por exclusões de cobertura.
O tema ganhou relevância porque, tradicionalmente, o resseguro funciona como o mecanismo que dá sustentação financeira às seguradoras para assumir riscos de grande porte ou de maior complexidade. Quanto maior a capacidade disponível, maior tende a ser o espaço para o desenvolvimento de novos produtos, aumento da concorrência e ampliação do acesso à proteção.
Na abertura do encontro, a presidente da Fenaber, Rafaela Barreda, classificou o resseguro como “a engrenagem silenciosa da resiliência”, destacando seu papel na sustentação de investimentos e da atividade econômica em cenários mais instáveis. Segundo ela, o setor atravessa uma fase de transformação profunda, impulsionada por avanços regulatórios, inovação tecnológica e crescente sofisticação da gestão de riscos.
Entre as áreas apontadas como prioritárias estão infraestrutura, agronegócio, mudanças climáticas e riscos cibernéticos. “Sem resseguro, não há ponte que se erga, não há safra que se garanta, não há investimento que se sustente”, afirmou a executiva ao defender o papel estrutural do segmento para a economia.
O presidente da CNseg, Dyogo Oliveira, reforçou que o mercado brasileiro ainda possui amplo espaço de crescimento e chamou atenção para os chamados “vazios de proteção”, sobretudo em seguros inclusivos, infraestrutura e cobertura para novas demandas. Segundo ele, o desafio vai além de ampliar capacidade: passa também pela criação de soluções mais acessíveis e aderentes à realidade econômica do país. “Ainda temos riscos declinados, como o setor têxtil, o que mostra o quanto temos de avançar com o apoio de todos os integrantes deste grande ecossistema do setor de seguros”.
A discussão ocorre em um país que ainda convive com forte subpenetração em seguros e com riscos que permanecem parcialmente descobertos ou com baixa oferta de proteção. A combinação entre maior apetite de capital global e necessidade de expansão do mercado local passou a ser vista por parte dos participantes como uma oportunidade para estimular inovação e aumentar a competição.
O superintendente da Susep, Alessandro Octaviani, afirmou que o mercado brasileiro de resseguros ainda é pequeno diante das dimensões da economia nacional e defendeu estratégias para ampliar sua escala. Segundo ele, fortalecer seguros e resseguros significa aumentar a capacidade de investimento e a resiliência econômica do país. Ele trouxe também uma grande esperança para quem aguarda o sinal verde para o lançamento do Universal Life, um seguro com acumulação e risco. “Nos reuniremos novamente com a Receita Federal e estamos otimistas por estas conversas estarem acontecendo”, disse.
A crise climática foi um dos temas mais presentes na abertura do evento. Para os participantes, os impactos de eventos extremos já impõem ao setor a necessidade de novas estratégias de compartilhamento de riscos, inovação regulatória e cooperação entre mercado privado e poder público. Octaviani afirmou que o país precisa construir uma estratégia ampla de resiliência climática, reconhecendo que o mercado privado tem papel essencial, mas não conseguirá absorver sozinho toda a complexidade dos riscos envolvidos.
Ele informou ainda que um grupo de trabalho da Susep deverá concluir, ainda neste semestre, documento que servirá de base para novas discussões sobre mecanismos de compartilhamento de riscos e fortalecimento da proteção securitária no país. Na sequência, a autarquia deverá criar um grupo de trabalho voltado à relação entre seguros, resseguros e infraestrutura. A proposta, segundo Octaviani, é fazer com que o setor funcione como “infraestrutura da infraestrutura brasileira”, ajudando a destravar investimentos, ampliar garantias e fortalecer a segurança econômica dos projetos.
Resseguradores clamam por união para setor enfrentar desafios

Mesmo com uma realidade cada vez mais incerta e desafiadora, Bruno Freire, CEO da Austral Re, reforçou que os mercados de seguros e resseguros devem atuar conjuntamente. “É um mercado de boa fé, de compartilhamento dos riscos entre as partes”, disse. “Como mercado, vamos entender e ajustar as responsabilidades de cada um”, completou Freire, que se diz cauteloso, mas otimista para o novo momento.
Pela primeira vez no Brasil, Marc Lipman, presidente da Lloyd’s Americas, ressaltou que a falta de previsão, principalmente no que tange às mudanças climáticas, tem sido um desafio para os mercados de seguros e resseguro. Trazendo uma perspectiva estrangeira, Lipman também reforçou que, atualmente, há muitas oportunidades nos mercados emergentes, em particular no Brasil. No entanto, o presidente do Lloyd’s Americas enfatizou que “a habilidade de continuar a atrair e reter capital vai depender de entregar previsibilidade em termos de desenvolvimento político e econômico”.
Para Karsten Steinmetz, CEO da Munich Re no Brasil, as mudanças climáticas no Brasil têm mudado, de forma clara, o perfil do risco e, por isso, é necessário ter uma perspectiva além do preço e capacidade, mas, sim, de temas como prevenção, ampliação de coberturas e diversificação, que são cada vez mais importantes em um mundo imprevisível. Neste cenário, o CEO da Munich Re do Brasil ressalta que é preciso agir em conjunto. “Temos que colaborar de verdade juntos como seguradoras, resseguradoras, sociedade, Susep. Todas temos papel. Se trabalharmos juntos, podemos enfrentar esse desafio”, finalizou Steinmetz.
Fernanda Guardado, economista chefe do BNP, trouxe um panorama global dos últimos anos, principalmente após a pandemia de Covid-19. Para ela, apesar dos choques sucessivos e incertezas, a América Latina tem apresentado resultados positivos e, consequentemente, novas oportunidades de negócios. “Temos observado um interesse maior. Na BNP, temos muita interação com empresas globais e vemos o Brasil brilhando”, afirmou. “Já se observa que o Brasil é um ponto para novas atividades, as que não são tradicionais”, acrescentou.











