A Darwin Seguros está mudando rapidamente de perfil. Criada em 2023 e inicialmente concentrada no seguro de automóvel, a companhia acelerou a entrada nos riscos corporativos e estima encerrar 2026 com mais de R$ 250 milhões em faturamento, mais que o dobro do registrado no ano anterior. Hoje, 80% do volume já vem de grandes riscos e negócios empresariais.
A transformação foi apresentada ao mercado nesta quarta-feira (9), em São Paulo, pelos fundadores Firmino Freitas e Carlos Alberto (Beto) Souza Barros e por Edson Toguchi, que assumiu em janeiro como sócio e CEO da seguradora.
A ambição é manter uma curva acentuada de crescimento. No encontro, os fundadores disseram que a Darwin trabalha em direção a R$ 1 bilhão em 2028, apoiada na expansão dos ramos corporativos e na diversificação da base de riscos. “Se for para crescer sem qualidade, não é o nosso jogo”, afirmou Freitas.
O avanço ocorre depois de a companhia levantar mais de R$ 180 milhões em diferentes rodadas de investimento desde sua fundação. Só na Série B, anunciada em outubro de 2025, foram cerca de R$ 102 milhões (US$ 18,6 milhões), em operação liderada pela Vintage Investimentos, com participação do IRB(Re) e do fundo Eqwow.
A estrutura de acionistas inclui ainda Banco BV e IRB(Re), enquanto o programa de resseguro conta com nomes como Munich Re, Austral Re, Everest e Hannover Re. Segundo os executivos, o IRB(Re) atua como líder do programa.
Capital, tecnologia e capacidade de resseguro formam, portanto, a base da estratégia de transformar uma companhia que ganhou escala em Auto em uma seguradora multiproduto.
Dez produtos em poucos meses
A velocidade dessa mudança aparece no portfólio. Desde fevereiro, a Darwin colocou no mercado cerca de dez produtos corporativos. O movimento começou com Vida Capital Global. Em abril vieram Seguro Garantia e Fiança Locatícia; em junho, Responsabilidade Civil Geral e Profissional e outras linhas; e, entre agosto e setembro, Riscos de Engenharia, Riscos Diversos e Eventos. O portfólio também abrange Financial Lines, Patrimonial e outros produtos destinados a empresas.
Segundo a companhia, os produtos já passaram pelos procedimentos regulatórios necessários e os módulos foram incorporados à sua plataforma tecnológica. O trabalho agora é ampliar a distribuição por meio de corretores e assessorias. A proposta é resumida pela Darwin no conceito “Riscos complexos. Soluções simples.”
A simplicidade, porém, está mais no processo do que no risco. A aposta é usar dados, inteligência artificial e automação para retirar etapas burocráticas da operação, deixando os casos que efetivamente exigem conhecimento técnico para subscritores e corretores. “Aplicamos inteligência artificial para eliminar gargalos burocráticos e dar celeridade ao processo, o que libera o capital intelectual dos nossos subscritores e dos corretores para o que realmente exige especialização”, afirma Freitas.
Tecnologia construída antes da diversificação
A capacidade de lançar tantos produtos em poucos meses, segundo os fundadores, é resultado de uma decisão tomada ainda quando Auto praticamente definia a Darwin. Em vez de construir uma plataforma restrita àquele ramo, a companhia desenvolveu uma arquitetura tecnológica preparada para incorporar outras linhas. “Parece simples fazer dez produtos em cinco ou seis meses, mas isso só é possível por toda a fundação de tecnologia que a gente vem criando desde o início”, afirmou Beto Souza Barros.
A chegada de Toguchi acrescentou a essa estrutura a experiência em riscos corporativos. Com 36 anos de mercado, o executivo assumiu a missão de ampliar a atuação da seguradora sem abandonar o modelo tecnológico que marcou sua primeira fase. Para Toguchi, o corretor ocupa posição central na estratégia. A proposta, diz, é reduzir o esforço operacional para que o intermediário possa concentrar seu tempo na atividade consultiva e na relação com o cliente.
De uma semana para 24 horas
Um dos exemplos apresentados pelos executivos envolve Vida Capital Global e um grande banco brasileiro, cujo nome não foi divulgado por questões de confidencialidade. A instituição operava uma jornada que envolvia sucessivas trocas de e-mails para cotação, emissão e pagamento. A Darwin desenvolveu uma plataforma integrada para automatizar o processo.
Segundo a companhia, a primeira versão da solução foi desenvolvida em cerca de uma semana e, diante de uma demanda específica, uma adaptação do portal foi entregue em 24 horas. A solução garantiu à seguradora a exclusividade da operação sem pagamento de front fee, segundo os executivos. A Darwin afirma que a plataforma reduziu em 90% o esforço operacional de emissão e já gerou alguns milhões de reais em faturamento, praticamente sem intervenção humana na parte operacional. É um exemplo da tese que a companhia pretende levar aos demais ramos: o risco pode continuar complexo, mas sua operacionalização não precisa necessariamente ser.
Garantia ganha escala rapidamente
O Seguro Garantia é outro teste dessa estratégia.A Darwin desenvolveu um motor que reúne cotação, subscrição e análise de crédito. Em um dos casos relatados no encontro, uma corretora enviou uma oportunidade por e-mail enquanto conversava com um executivo da seguradora. Antes do fim da ligação, o sistema já havia processado a análise e apresentado um preço.
A automatização não elimina, segundo a companhia, a avaliação técnica nos casos mais complexos. Balanços, limites de crédito, estrutura da operação e demais características do risco continuam podendo exigir análise dos subscritores. A diferença pretendida é evitar que todo negócio percorra o mesmo processo manual.
Em material divulgado pela companhia, a Darwin informou ter alcançado a 15ª posição nacional em Seguro Garantia após três meses de operação. No encontro desta quarta-feira, os executivos afirmaram que a companhia continuou avançando no ranking e estimam que já esteja se aproximando do Top 10 do ramo.
A carteira inclui negócios relacionados a licitações, Garantia Judicial e modalidades menos tradicionais, como garantias para cartórios. A seguradora também se prepara para ampliar a emissão de performance bonds. Para o início de 2027, a companhia prepara um novo portal de Garantia, que pretende aprofundar a automação da jornada.
Nem todo risco precisa receber um “não”
A tecnologia também está sendo usada para mudar a relação da seguradora com oportunidades que fogem dos padrões previamente definidos. Segundo os executivos, parte do mercado trabalha com esteiras bastante rígidas: o risco se enquadra ou é recusado. A proposta da Darwin é automatizar aquilo que pode ser automatizado, mas abrir espaço para análise quando uma oportunidade diferente puder apresentar uma relação adequada entre risco e retorno.
É nesse ponto que a companhia pretende combinar a experiência dos profissionais trazidos do mercado tradicional com sua infraestrutura tecnológica. Na visão dos fundadores, o corretor precisa saber que terá uma resposta rápida e que, diante de um caso complexo, haverá disposição para estudar alternativas antes da recusa.
Nova Lei de Seguros vira oportunidade
A expansão ocorre justamente quando o setor brasileiro passa pela adaptação ao Marco Legal dos Seguros, a Lei 15.040/2024. A Darwin enxerga uma vantagem em estar construindo grande parte de sua carteira corporativa sob a nova legislação. Enquanto seguradoras com carteiras antigas precisam rever produtos, clausulados e processos, boa parte dos novos negócios da companhia já nasce sob as regras atuais.
“Não estamos trabalhando em renovação, estamos trabalhando com seguro novo. Então conseguimos utilizar criatividade com base na nova lei. Para nós é muito mais tranquilo porque começamos do zero já pela nova legislação”, afirmou Toguchi.
A décima — e última — seguradora de Toguchi
A expansão para o mundo corporativo marca também uma nova etapa na carreira de Toguchi. O executivo completa neste mês 36 anos de mercado de seguros e contou no evento que a Darwin é a décima seguradora de sua trajetória profissional — e pretende que seja a última.
A decisão de rever seus próximos passos ganhou força depois de sofrer um infarto no ano passado. Segundo Toguchi, o episódio o levou a reconsiderar prioridades profissionais e pessoais e a buscar uma empresa na qual pudesse participar diretamente da construção do negócio. “Foi um marco para realmente olhar para trás e pensar no que eu queria para mim”, contou.
Na Darwin, tornou-se não apenas CEO, mas sócio. E recebeu dos fundadores o que classificou como um “cheque em branco” para ajudar a desenhar a nova seguradora. Para Toguchi, entretanto, tecnologia não é suficiente para diferenciar uma companhia. Ele defende a proximidade com corretores, segurados, investidores e parceiros e destaca o papel social da atividade seguradora.
A chegada do executivo coincide, portanto, com a maior transformação da curta história da Darwin. Auto continua no portfólio, mas já não define a companhia. Com 80% do volume concentrado em grandes riscos e negócios empresariais, a seguradora terá agora de provar se a tecnologia que sustentou sua primeira fase consegue entregar o mesmo resultado em linhas nas quais capacidade, crédito, subscrição e resseguro ganham importância.






















