“Quem não cuida dos leitores não cuida dos eleitores.” A frase dita durante o lançamento do Instituto Tokio Marine Gerações Futuras resume uma discussão que foi muito além da apresentação de um novo projeto social: o papel da educação, da leitura e das empresas na criação de oportunidades para crianças e jovens que partem de condições muito diferentes na sociedade brasileira.
Na abertura do encontro, Masaaki Itakura, diretor executivo de Estratégia Corporativa da Tokio Marine Seguradora e presidente do Instituto, recorreu à imagem de uma semente para explicar a proposta. “Cada criança é uma semente. Algumas recebem água e luz desde o início, outras não recebem as mesmas oportunidades. Mas nenhuma criança nasce com menos talento”, afirmou. Para ele, educação e cultura podem funcionar justamente como essa água e essa luz.
A criação do Instituto ocorre no ano em que a Tokio Marine completa 67 anos de atuação no Brasil e passa a concentrar iniciativas sociais que a companhia já desenvolvia, além de novos projetos voltados à infância e à juventude. A seguradora já atuava na inclusão produtiva de jovens por meio do programa Sementes do Brasil. Segundo Itakura, cerca de 400 jovens foram capacitados nos últimos cinco anos, mais de 70% conseguiram emprego e mais de 100 acabaram contratados pela própria Tokio Marine.
Entre jovens oriundos do sistema de acolhimento, os resultados apresentados durante o evento mostram uma mudança ainda mais expressiva: a taxa de empregabilidade teria passado de 15% para 55% entre os participantes acompanhados em parceria com o Ministério Público.
Agora, o Instituto pretende começar antes. O Broto da Cultura, primeiro projeto desenvolvido integralmente pela nova estrutura, é voltado a crianças de 4 a 12 anos e parte da leitura como ferramenta de desenvolvimento cognitivo, emocional e social. A primeira etapa prevê a distribuição de 2 mil livros para escolas públicas, instituições de acolhimento e organizações que atendem crianças com deficiência ou em tratamento de saúde, além de atividades de leitura, contação de histórias e produção de textos.
A expectativa apresentada pela Tokio Marine é alcançar mais de 30 mil crianças. “Às vezes, uma grande mudança acontece de forma muito simples: uma criança abre um livro, o livro desperta curiosidade, essa curiosidade cria sonhos e esse sonho pode mudar sua vida”, disse Itakura.
A seguradora já atuava na inclusão produtiva de jovens por meio do programa Sementes do Brasil. Segundo Itakura, cerca de 400 jovens foram capacitados nos últimos cinco anos, mais de 70% conseguiram emprego e mais de 100 acabaram contratados pela própria Tokio Marine.
Entre jovens oriundos do sistema de acolhimento, os resultados apresentados durante o evento mostram uma mudança ainda mais expressiva: a taxa de empregabilidade teria passado de 15% para 55% entre os participantes acompanhados em parceria com o Ministério Público.
José Adalberto Ferrara, CEO da Tokio Marine Seguradora, disse que a companhia pretende agora buscar o envolvimento de outras seguradoras para ampliar as oportunidades de contratação dos jovens formados pelo programa. Ferrara, que deixará a presidência da companhia no fim do ano, mas permanecerá no Conselho e representando a Tokio Marine na CNseg, afirmou já ter iniciado conversas com outros executivos do setor. “Nós não conseguimos contratar todos eles. Então estamos conversando com outros presidentes para que também comprem essa causa”, afirmou. A ideia, segundo ele, é aproveitar a formação proporcionada pelo Sementes do Brasil para criar uma porta de entrada desses jovens no próprio mercado segurador.
Agora, o Instituto pretende começar ainda antes.
O Broto da Cultura, primeiro projeto desenvolvido integralmente pela nova estrutura, é voltado a crianças de 4 a 12 anos e parte da leitura como ferramenta de desenvolvimento cognitivo, emocional e social.

O livro encontrado no caminho do futebol
As histórias dos escritores Jessé Andarilho e Otávio Júnior mostraram por que essa ideia pode ter consequências muito além da leitura. Nascido e criado no Complexo da Penha, no Rio de Janeiro, Otávio Júnior contou que sua relação com os livros começou quase por acaso. Em 1993, ainda criança, caminhava em meio ao lixo para chegar a um campo de futebol quando encontrou uma caixa com brinquedos usados. Dentro dela havia um livro.
Enquanto os outros meninos disputaram os brinquedos, ele ficou com o livro. Foi o início de uma relação que transformaria sua trajetória. Otávio passou a frequentar primeiro a biblioteca da escola e depois a biblioteca do bairro. Naquele período, contou, a casa vivia uma situação familiar difícil, com o pai enfrentando o alcoolismo. A biblioteca tornou-se também um lugar de proteção. Ele se lembra especialmente do relógio que marcava a hora de ir embora. Quando os ponteiros chegavam perto das cinco da tarde, a bibliotecária começava a avisar que era preciso terminar a leitura. “Meu desejo era quebrar o ponteiro daquele relógio para poder ficar eternamente dentro da biblioteca.”
Foi naquele espaço que nasceu o sonho de se tornar escritor. Anos depois, Otávio transformaria a própria experiência em ação comunitária, criando uma biblioteca no território onde cresceu e trabalhando na formação de novos leitores. Hoje é uma referência da literatura infantil e periférica. “Foi dentro daquela biblioteca que eu sonhei em me tornar escritor”, contou. “O livro é uma grande ferramenta de transformação.”
“O livro é a minha bola”
A história de Jessé Andarilho começa em outro ponto da periferia carioca e chega a uma conclusão parecida. Jessé contou que repetiu várias vezes anos escolares e, com pouca formação, acabou trabalhando em empregos informais e de baixa remuneração. Em determinado momento, montou um lava-jato na comunidade onde vivia. Quando faltavam carros, brincou, lavava bicicleta, tênis e até cachorro.
Foi ali que uma amiga lhe entregou um livro. Até então, ele não tinha hábito de leitura. A obra provocou identificação imediata com uma realidade que ele conhecia e abriu uma porta que até então não enxergava. Mais tarde, já trabalhando com carteira assinada, enfrentava diariamente cerca de duas horas de trem para chegar ao emprego e outras duas para voltar. Transformou esse tempo em escrita: começou a produzir seu primeiro livro no celular durante as viagens de trem.
A história é confirmada pela trajetória do escritor: Jessé escreveu seu primeiro romance no bloco de notas do celular nos deslocamentos entre Santa Cruz e a Central do Brasil e posteriormente publicou Fiel e Efetivo variável. Também criou o Marginow — Das Margens para o Agora, iniciativa de valorização da produção cultural das periferias.
Depois de se tornar escritor, decidiu voltar à comunidade e transformar um antigo posto policial desativado em biblioteca. A escolha chegou a ser questionada por um morador, que lembrou que o jogador Adriano Imperador, quando alcançou sucesso, voltou à comunidade e construiu um campo de futebol. Por que Jessé, então, havia construído uma biblioteca? A resposta sintetizou sua trajetória: “Porque o livro é a minha bola.”
O desafio de transformar projetos em política de longo prazo
As experiências individuais encontraram no debate uma questão maior: como transformar iniciativas isoladas em ações capazes de produzir mudanças duradouras. Adriana Alvarenga, chefe do escritório do UNICEF em São Paulo, trouxe para a discussão a necessidade de articulação entre empresas, poder público, organizações sociais, escolas, serviços de saúde, famílias e as próprias comunidades.
A atuação integrada é também um dos eixos do trabalho do UNICEF em São Paulo. A organização defende que educação, saúde, assistência social, proteção contra a violência e inclusão socioprodutiva precisam funcionar de maneira coordenada, especialmente nos territórios mais vulneráveis.
O mesmo princípio apareceu na discussão sobre investimento social privado: projetos precisam de continuidade, acompanhamento e alianças capazes de evitar que boas iniciativas desapareçam depois de poucos meses.
“Cuide do seu vaso”
André Nunes, diretor de Assuntos Corporativos e Relações Sindicais da CNseg, levou a discussão para o setor de seguros. A Confederação mantém projetos de educação e inclusão voltados a públicos vulneráveis, incluindo educação financeira e securitária, formação de jovens e iniciativas relacionadas à entrada no mercado de trabalho.
Nunes chamou atenção para uma cobrança frequente feita a projetos sociais: a falta de escala. Uma turma com 45 pessoas pode parecer pequena diante do tamanho dos problemas brasileiros. Mas, argumentou, isso não diminui o impacto produzido sobre aquelas vidas. “São só 45? São 45. Você transformou uma vida? Então o seu projeto já valeu.”
Para explicar a necessidade de perseverança, recorreu a duas imagens de sua infância. Uma delas foi a de vários vasos: em vez de desistir diante da impossibilidade de cuidar de tudo, é preciso regar bem aquele que está sob sua responsabilidade e permitir que os resultados transbordem para outros.
A outra veio da avó italiana que o criou no interior paulista e que, apesar de analfabeta, segundo ele, lhe ensinou boa parte do que sabe sobre educação financeira. Quando criança, André precisava buscar uma galinha no quintal e tentava correr atrás de todas ao mesmo tempo. A avó ensinou: escolha uma. “Se você vai atrás de todas as galinhas, não pega nenhuma.”
Décadas depois, ele transformou a lembrança em metáfora para o investimento social: diante de tantos problemas, empresas e instituições precisam definir prioridades, manter o foco e produzir resultados concretos.
Uma ponte entre gerações
Para Itakura, o novo Instituto pretende justamente criar essa continuidade — da criança que abre o primeiro livro ao jovem que precisa encontrar espaço no mercado de trabalho. O executivo japonês encerrou sua participação falando da relação construída com o Brasil ao longo dos anos. Disse que, quando perguntam se torce pelo Japão ou pelo Brasil, sua resposta é Brasil.
Desta vez, porém, a camisa brasileira ganhou outro significado. “Eu visto esta camisa pelas crianças brasileiras, pelos jovens brasileiros e pelo futuro do Brasil.” A proposta do Instituto Tokio Marine Gerações Futuras parte de uma premissa simples: nenhuma empresa conseguirá resolver sozinha os problemas sociais do País. Mas empresas, governos, organizações sociais, comunidades e famílias podem ampliar o alcance das iniciativas quando trabalham de forma coordenada.
E talvez a dimensão desse impacto possa ser entendida justamente pelas histórias contadas no lançamento. Para uma criança, a porta de entrada pode ser um livro encontrado numa caixa perto de um campo de futebol. Para outra, um livro entregue na escola, em um hospital ou numa instituição de acolhimento. O que acontece depois depende das oportunidades que estarão disponíveis quando ela terminar a primeira página.






















