Valor 1000: Novos riscos abrem espaço para expansão dos seguros 

Mudanças climáticas, tecnologia e infraestrutura ampliam a demanda por proteção e estimulam investimentos em inovação

Quanto maior o risco, maior a necessidade de proteção. Essa equação ajuda a explicar por que seguradoras e resseguradoras brasileiras chegaram a 2026 otimistas com as possibilidades de expansão, mesmo diante de um ambiente econômico e regulatório desafiador. Mudanças climáticas, ataques cibernéticos, expansão de data centers, investimentos em infraestrutura, transição energética e novas tecnologias multiplicam as exposições de empresas e famílias e criam demanda por coberturas mais sofisticadas. Ao mesmo tempo, o Brasil continua subsegurado, abrindo uma avenida de crescimento para a indústria.

O paradoxo é que essa oportunidade surge quando a participação do setor na economia pode recuar. Em 2026, pela primeira vez desde o início da pandemia, o mercado segurador deverá ficar abaixo de 6% do Produto Interno Bruto (PIB), segundo a Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg), com projeção de 5,8%. Para o ano, a entidade estima crescimento da arrecadação de 2,9%, sem considerar saúde. O desempenho em 2025 e 2026 foi afetado pelo Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) sobre grandes aportes nos planos de previdência do tipo VGBL, tributação que deixa de existir em 2027.

“Estamos otimistas com 2027, pois a massa salarial tem ganho acima da inflação, os aspectos regulatórios já estarão absorvidos e o ganho de eficiência com o uso da tecnologia, especialmente da inteligência artificial, está num processo muito acelerado”, afirma Dyogo Oliveira, presidente da CNseg. O desafio continua sendo reduzir a lacuna de proteção, em um ambiente no qual educação financeira e endividamento das famílias também influenciam a capacidade de contratar seguros.

No conjunto, seguros, previdência, capitalização e saúde movimentaram R$ 764,5 bilhões em 2025, avanço de 1,8%, enquanto R$ 548,4 bilhões retornaram à sociedade na forma de indenizações, benefícios, resgates, sorteios e eventos indenizáveis, alta de 8,8%. Nos seguros de bens e responsabilidade, automóvel arrecadou R$ 61,5 bilhões, alta de 6,8%, e patrimoniais cresceram 12,8%, para R$ 35,7 bilhões. Transporte avançou 8,05%, para R$ 6,61 bilhões. Na contramão, o seguro rural recuou 8,8%, para R$ 12,9 bilhões.

No campo regulatório, Alessandro Octaviani, titular da Superintendência de Seguros Privados (Susep), afirma que a prioridade em 2026 é concluir a regulamentação administrativa da maior reforma legal do setor em seis décadas, envolvendo o novo Marco Legal do Seguro e a Lei Complementar nº 213/2025. A agenda inclui ainda seguro contra catástrofes, open insurance, sandbox regulatório e revisão das normas de capitalização. Entre as propostas em discussão está transformar municípios em segurados em larga escala, ampliando a proteção diante dos eventos extremos.

A autarquia também acompanhará os efeitos das novas regras sobre preços, oferta de coberturas, concorrência, capital e solvência. No resseguro, a Resolução nº 494/2026 do Conselho Nacional de Seguros Privados (CNSP), com vigência a partir de janeiro de 2027, atualiza as regras de resseguro e retrocessão, cosseguro, operações em moeda estrangeira e contratação de seguro no exterior.

Esse conjunto de oportunidades e desafios ajuda a explicar as estratégias de empresas como Bradesco Seguros, SulAmérica, Porto e Brasilseg. A escala continuará importante nesse setor, mas a tecnologia, a capacidade de precificar riscos e a qualidade da experiência do consumidor passam a determinar quem consegue crescer preservando rentabilidade.

Na Bradesco Seguros, que se manteve em primeiro lugar em 2025, os números de 2026 mostram continuidade do avanço. O grupo registrou lucro líquido de R$ 5,7 bilhões no primeiro semestre, alta de 20,4% sobre igual período de 2025, com retorno sobre o patrimônio líquido médio de 22,1%. Ney Dias, presidente da seguradora, atribui o desempenho à experiência do cliente, parceria com corretores, disciplina técnica, diversificação e inovação. Inteligência artificial (IA) e análise avançada de dados estão sendo incorporadas à subscrição e à precificação. Mudanças climáticas, economia digital, riscos cibernéticos e grandes projetos de infraestrutura deverão, segundo ele, exigir soluções mais especializadas e ampliar a demanda por capacidade técnica. O corretor permanece no centro da estratégia de distribuição, apoiado por automação, dados e IA.

A SulAmérica encerrou 2025 com receita operacional líquida de R$ 33,2 bilhões, alta de 10,5%, e Ebitda de R$ 2,3 bilhões, avanço de 75,7%. A trajetória continuou em 2026: no segundo trimestre, a companhia alcançou 6,61 milhões de beneficiários, crescimento de 9,7% em 12 meses, e receita líquida de R$ 8,7 bilhões. O Ebitda trimestral avançou 53,4%, para R$ 612,1 milhões. “Seguiremos priorizando o uso de tecnologia e dados para qualificar decisões, aprimorar a experiência dos clientes e tornar a operação cada vez mais eficiente, sempre preservando a qualidade assistencial e o acolhimento”, afirma Jefferson Klock, vice-presidente de operações da SulAmérica Saúde e Odonto.

Para os próximos anos, a SulAmérica vê na alta dos custos assistenciais um dos principais desafios e aposta em gestão de sinistros, combate a fraudes, coordenação do cuidado e produtos mais adequados aos diferentes perfis de clientes. Pequenas e médias empresas e a expansão regional estão entre as oportunidades de crescimento. Tecnologia, IA e uso de dados também ganham espaço na gestão de riscos, eficiência operacional e personalização do atendimento.

Na Porto, tecnologia de precificação tornou-se uma das principais apostas para crescer sem entrar em guerra de preços. A companhia começou a testar novos modelos em grupos de controle e ampliou sua utilização diante dos resultados. A ferramenta permite identificar com maior precisão o preço adequado ao risco e também as coberturas e serviços mais aderentes ao perfil do consumidor, elevando as taxas de conversão.

Paulo Kakinoff, presidente da Porto, ressalta que a recuperação de participação não está sendo obtida por meio de descontos agressivos. Para ele, a manutenção de retornos elevados sobre o patrimônio indica que a expansão ocorre preservando a disciplina de precificação. Vida está entre as carteiras com maior potencial. A Porto concluiu uma mudança de sistemas e processos para melhorar operação, qualidade dos serviços, prazos e jornada do cliente. Automóvel também tem espaço para avançar com segmentação das marcas e novas ofertas. Em residencial, Kakinoff considera que a maior percepção dos riscos, inclusive climáticos, tende a estimular a procura por proteção. Para 2027, mantém uma visão positiva para o mercado.

Felipe Nascimento, presidente da Mapfre no Brasil, vê oportunidades em automóvel, rural e seguros empresariais, mas pretende preservar a disciplina de subscrição diante do aumento da frequência e severidade dos sinistros. “Crescer não significa assumir risco a qualquer preço”, afirma. Ele cita aumento da demanda por seguros em transmissão e distribuição de energia, mobilidade urbana, aeroportos e saneamento, além dos investimentos em data centers associados à IA. Os eventos climáticos, porém, tornam essas exposições mais complexas — por isso a seguradora vem apostando em equipes especializadas em gerenciamento de riscos, modelagem catastrófica e capacidade de resseguro do próprio grupo para suportar exposições de maior porte.

Na BB Seguridade, o resultado de 2025 foi recorde. A companhia encerrou o ano com lucro de R$ 9,1 bilhões (sendo R$ 5 bilhões da Brasilseg), avanço de 11,4%, e registrou R$ 4,4 bilhões no primeiro semestre de 2026, crescimento de 3%. Delano Valentim de Andrade, presidente da seguradora, aponta como vetores para os próximos anos aprofundar o relacionamento com a base atual, integrar canais digitais e uso de dados e alcançar segmentos da população ainda pouco protegidos. A combinação da rede física com aplicativos e jornadas digitais deverá sustentar a estratégia de distribuição.

Outro grupo que chegou a 2026 após uma profunda transformação é a HDI. Depois das aquisições e da integração das operações, a companhia superou R$ 15 bilhões em vendas em 2025. Vida e ramos elementares, que representavam cerca de 10% das vendas em 2022, passaram a responder por mais de 30%, enquanto grandes riscos representam aproximadamente 19% dos prêmios emitidos. “A primeira fase foi integrar; a próxima é potencializar os ganhos dessa escala”, afirma o presidente da seguradora, Eduardo Dal Ri.

A Tokio Marine também projeta expansão, mas ressalta que o desafio é crescer com resultado. A seguradora encerrou 2025 com faturamento de R$ 14,6 bilhões e lucro líquido de R$ 1,5 bilhão. No primeiro semestre deste ano, alcançou R$ 7,4 bilhões em prêmios emitidos e índice combinado de 92,9%. Para 2026, a expectativa é terminar o ano com crescimento entre 5% e 10%.

José Adalberto Ferrara, presidente da Tokio Marine, aponta pessoas, garantia, riscos de engenharia e habitacional entre as frentes de expansão. Infraestrutura e transformação digital também deverão estimular seguros empresariais especializados. O aumento da frequência e severidade dos eventos climáticos, as ameaças cibernéticas e a maior complexidade das operações reforçam, segundo ele, a necessidade de rigor na subscrição e precificação. Dados, tecnologia e modelos analíticos baseados em IA estão sendo usados para seleção dos riscos e gestão da carteira.

O aumento da complexidade dos riscos amplia a importância do resseguro. O IRB(Re) se prepara para uma nova fase. Marcos Falcão, presidente da companhia, afirma que a estratégia é transformar o grupo em um ecossistema de proteção e soluções de risco, reunindo resseguro, seguros, gestão de ativos, acesso a capital e tecnologia. A expansão inclui projetos internacionais, mas Falcão ressalta que a companhia continuará priorizando disciplina de subscrição e rigor na alocação de capital.

Na Austral Re, Bruno Freire, presidente da resseguradora, destaca mudanças climáticas, transformação tecnológica, regulação e riscos geopolíticos entre os desafios. “Estamos empenhados em uma transformação com inteligência artificial na companhia”, afirma. Para Rafaela Barreda, presidente da Federação Nacional das Empresas de Resseguros (Fenaber), a maior frequência e severidade dos eventos climáticos exigirá mais capacidade e conhecimento técnico. A oferta internacional continuará relevante para riscos complexos e concentrados, mas o desenvolvimento do mercado dependerá também do fortalecimento da capacidade das próprias seguradoras.

Já no setor de capitalização, a expectativa é crescer por meio da ampliação do uso dos títulos para além do varejo. Alguns dos usos seriam a garantia em contratos, concessões, infraestrutura e crédito. Estudo da Federação Nacional de Capitalização (FenaCap) estima que a arrecadação possa chegar a R$ 91 bilhões nos próximos anos e as reservas técnicas, a R$ 111,4 bilhões. As maiores do setor são a Bradesco Capitalização e a Brasilcap — esta mantém a liderança de mercado em reservas, com R$ 11,5 bilhões em maio, equivalentes a 25,7% do total. O negócio de capitalização da BB Seguridade registrou lucro líquido de R$ 179,3 milhões no primeiro semestre de 2026, crescimento de 40,5% sobre igual período do ano anterior.

Denise Bueno
Denise Buenohttp://www.sonhoseguro.com.br/
Denise Bueno sempre atuou na área de jornalismo econômico. Desde agosto de 2008 atua como jornalista freelancer, escrevendo matérias sobre seguros, previdência, educação financeira, longevidade e saúde para o blog Sonho Seguro, do qual e fundadora, e para cadernos especiais produzidos pelo jornal Valor Econômico, bem como para revistas como Época, Veja, Você S/A, Valor Financeiro, Valor 1000, Revista de Seguros (CNSeg) entre outras publicações. É colunista do SindSeg-SP, entrevistadora em eventos e podcasts, bem como palestrante sobre temas diversos que envolvem o setor de seguros. Escreveu artigos diariamente sobre seguros, resseguros, previdência e capitalização entre 1992 até agosto de 2008 para o jornal econômico Gazeta Mercantil. Recebeu, por 17 vezes, o prêmio de melhor jornalista de seguro em concursos diversos do setor e da grande mídia.

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