Os mercados brasileiros de previdência privada aberta e de seguros de pessoas caminham para 2027 com expectativas distintas. Enquanto o primeiro espera recuperar o terreno perdido, o segundo está mais otimista com as perspectivas trazidas pelo avanço das coberturas em vida, com o rejuvenescimento da base de clientes e com o maior interesse de corretores e assessores financeiros por produtos de proteção.
Na previdência aberta, espera-se recuperar o ritmo de crescimento interrompido pela cobrança de 5% de Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) sobre aportes nos planos VGBL que superassem R$ 300 mil ao ano (em 2025), valor que subiu para R$ 600 mil neste ano. Essa cobrança fez a captação líquida (aplicações menos resgates) do setor recuar 93,5% no ano passado, totalizando R$ 4 bilhões, segundo dados da Federação Nacional de Previdência Privada e Vida (FenaPrevi). Em condições normais, a FenaPrevi estima que o mercado deveria estar crescendo perto de 30% neste ano em relação ao nível alcançado antes da tributação, em vez de apresentar queda. O cálculo é que, em 2025 e neste ano, cerca de R$ 130 bilhões deixaram de ser direcionados à previdência aberta.
No primeiro semestre de 2026, foram aplicados R$ 77,4 bilhões em planos do segmento, queda de 5,6 % em relação ao mesmo período do ano anterior. Quem mais sofreu foi o VGBL, responsável pela maior parcela do mercado, que recebeu R$ 69,6 bilhões no semestre, 7,2% menos do que um ano antes.
Mas uma mudança esperada para 2027 traz alento ao setor: a tributação dos seguros será alterada com a reforma tributária e o IOF seguros será extinto. “A FenaPrevi espera que a retirada da distorção tributária permita à previdência retomar gradualmente sua trajetória de crescimento”, diz Edson Franco, presidente da entidade.
Entre as maiores empresas do segmento, a capacidade de distribuição e a diversificação ajudaram a enfrentar o ambiente mais adverso. A Brasilprev alcançou R$ 500 bilhões em ativos sob gestão no primeiro semestre. A captação líquida ficou positiva em R$ 2,8 bilhões, revertendo resgate líquido de R$ 5,2 bilhões registrado no mesmo período de 2025. As contribuições cresceram 7%.
“A estratégia tem sido diminuir a dependência dos grandes aportes pontuais e estimular maior recorrência das contribuições. A BB Seguridade também aposta na integração entre atendimento presencial, canais digitais, aplicativos e uso de dados para identificar as necessidades dos clientes”, afirma Delano Valentim de Andrade, presidente da BB Seguridade, que detém o controle da Brasilprev. Ele diz que consumidores entre 18 e 50 anos já representam cerca de 40% da carteira de previdência do grupo.
Na Bradesco Vida e Previdência, a diversificação entre vida e previdência também ganhou importância. Entre os lançamentos estão o Proteção a Dois, que permite reunir na mesma apólice duas pessoas que compartilham responsabilidades financeiras, e o seguro educacional individual, criado para garantir recursos para a continuidade dos estudos diante de imprevistos. No mercado empresarial, o grupo ampliou a oferta de soluções de vida para públicos que vão de microempreendedores individuais a grandes companhias.
A estratégia de vendas foi reforçada. Segundo o diretor-presidente, Bernardo Castello, o grupo, que tinha uma captação focada dentro do banco e empresas do conglomerado, passou a atuar em “mar aberto”. A seguradora qualificou os parceiros comerciais de seguros de bens e com isso triplicou nos últimos anos a base de corretores especializados em vida e previdência. Para 2027, a expectativa é de integração ainda maior entre corretores, assessorias, parceiros e plataformas digitais, mantendo o componente “consultor especializado” em produtos que envolvem decisões de longo prazo.
Na Caixa Vida e Previdência, uma das mudanças mais evidentes está na idade dos clientes. Entre 2024 e junho de 2026, a participação da faixa de 36 a 45 anos na carteira de previdência passou de 11,7% para 18%. Em seguro de vida, clientes entre 16 e 36 anos aumentaram sua participação de 31,1% para 39,1%, enquanto a idade média dos segurados caiu de 49,4 para 46,1 anos. A companhia também procura ampliar a distribuição para além das agências bancárias. Lotéricas e correspondentes Caixa Aqui ajudaram a impulsionar microsseguros em localidades sem agências, enquanto produtos de vida e previdência já podem ser contratados por canais digitais de autoatendimento.
Rogério Calabria, superintendente de produtos de investimento do Itaú Unibanco, afirma que a instituição conseguiu enfrentar a desaceleração do VGBL com uma estratégia apoiada em portabilidade e no avanço do PGBL. O Itaú lidera atualmente a portabilidade líquida, com R$ 3,1 bilhões em 2026, depois de registrar R$ 7,5 bilhões em 2025, e detém participação de 27,1% no PGBL entre clientes pessoa física. “A decisão está cada vez menos centrada no produto em si e cada vez mais na solução que ele oferece dentro de um planejamento financeiro e patrimonial mais amplo”, afirma Calabria. Embora a previdência ainda esteja mais concentrada entre clientes de meia idade, o banco busca aproximar as novas gerações por meio da digitalização e da educação financeira e já oferece mais de 150 produtos de previdência para menores.
A digitalização também avança na distribuição: mais de 10% do volume captado já chega pelo canal digital e cerca de 80% das transações são realizadas pelo aplicativo. O IOF, porém, teve impacto relevante em 2026, com redução de 23% na captação bruta de VGBL, excluídas as portabilidades, na comparação anual. Para 2027, Calabria prevê retomada.
John Liu, diretor de previdência e investimentos da Zurich Santander, afirma que a companhia reforçou a atuação comercial e consultiva em 2026 para enfrentar a retração dos aportes em VGBL, com capacitação dos assessores de alta renda, incentivo à portabilidade para PGBL, ampliação da oferta de fundos e aprimoramento das jornadas digitais. Para 2027, a estratégia passa por ampliar a base de clientes, estimular contribuições recorrentes e intensificar a educação financeira.
A companhia também aposta na aproximação entre seguro de vida e previdência dentro do planejamento financeiro. Um exemplo é o seguro proteção vitalícia e temporária, que combina proteção patrimonial e acumulação e permite o resgate dos valores destinados à formação de reserva em caso de imprevistos em vida. “O objetivo é combinar o atendimento especializado, a rede de agências do banco Santander e os canais digitais para oferecer soluções mais completas de proteção, investimentos e planejamento patrimonial”, diz Liu.
O mercado brasileiro de seguros de pessoas registrou um desempenho robusto nos primeiros seis meses de 2026. De acordo com dados divulgados pela Superintendência de Seguros Privados (Susep), a arrecadação de prêmios somou R$ 41,3 bilhões, impulsionada pelo avanço expressivo dos seguros individuais. Os seguros de vida coletivos seguem como o principal motor dos seguros de pessoas, seguidos pelos seguros prestamista e de acidentes pessoais. Em termos de expansão, os maiores destaques percentuais ficaram com as modalidades de doenças graves (+19,4%), educacional (+18,0%) e o próprio prestamista (+16,2%).
A Icatu Seguros anunciou em junho deste ano que o capital segurado máximo foi ampliado para R$ 150 milhões e a idade máxima para contratação passou de 75 para 80 anos. A seguradora encerrou 2025 com R$ 6,1 bilhões em prêmios retidos em vida, crescimento de 19%, puxado pelo avanço de 67,1% no vida individual. Em previdência, chegou a R$ 60 bilhões em reservas em agosto de 2026. “Os jovens também demonstram interesse pelas coberturas utilizadas durante a vida”, diz Luciano Soares, CEO da Icatu. Entre os clientes millennials da Icatu, 72% possuem proteção para doenças graves e 81% para invalidez parcial por acidente. Na geração Z, os percentuais chegam a 81% e 88%, respectivamente.
Movimento semelhante aparece no grupo MAG. Em 2025, as coberturas para cirurgias cresceram 65%, as de doenças graves avançaram 34% e as de incapacidade temporária, 18%. O CEO da MAG, Helder Molina, atribui parte desse desempenho à procura por produtos que combinem formação de reserva, proteção de renda e benefícios que possam ser utilizados durante a vida. “Entendemos que a jornada financeira não se resume à construção de uma reserva, ela envolve proteção da renda e segurança para a família em diferentes momentos da vida.” Por isso, o grupo integra previdência, seguro de vida e benefícios em vida. A estratégia vem dando resultados, diz o CEO: no último ano, o grupo teve avanço de 20% nas vendas novas.
a Prudential, 92% dos benefícios são pagos em vida. A CEO da empresa, Patricia Freitas, destaca que em 2026 houve uma expansão concreta das diferentes frentes de distribuição. O número de vidas protegidas foi de 5,9 milhões no terceiro trimestre de 2025 para mais de 6,6 milhões no primeiro semestre de 2026 (avanço de 12%). Os prêmios emitidos subiram 16% no primeiro semestre em relação ao mesmo período do ano passado. “O seguro que cobre doenças graves tem sido um sucesso.”
Ao mesmo tempo, corretores e assessores financeiros passaram a incorporar proteção às conversas sobre investimentos e patrimônio, como mostra a XP. Entre maio de 2025 e maio de 2026, o saldo de clientes em PGBL da XP Seguridade passou de R$ 19 bilhões para R$ 28 bilhões, crescimento de 47%. No VGBL, avançou 33%, de R$ 51 bilhões para R$ 68 bilhões. O CEO da XP Seguridade, André Lauzana, afirma que a estratégia é integrar investimentos, previdência, seguro e sucessão dentro do planejamento financeiro. “A lógica é que acumular patrimônio sem protegê-lo deixa uma lacuna na estratégia do cliente, abrindo espaço para que assessores financeiros passem a discutir seguro de vida ao lado da carteira de investimentos”, diz.
E o mercado de vida também poderá ganhar uma nova frente de expansão no ano que vem com o Universal Life — que combina proteção securitária e formação de reserva. “Ainda são necessárias definições infralegais, inclusive sobre o tratamento tributário, mas a expectativa é de que a regulamentação seja concluída neste segundo semestre. Dependemos apenas da Receita [Federal]”, informa o titular da Susep, Alessandro Octaviani.






















