A Rádio Eldorado está de volta. E o grupo Porto, um dos maiores conglomerados de seguros e serviços do Brasil, teve papel decisivo para que uma das emissoras mais queridas de São Paulo voltasse ao ar. Depois de anunciar, em maio, o encerramento de suas operações no FM, a rádio, conhecida por sua programação musical sofisticada, pelo jornalismo de qualidade e por conquistar gerações de ouvintes, encontrou na Porto uma parceira para continuar sua história. O retorno foi celebrado na noite de quarta-feira, 7 de outubro, em um coquetel na Casa Natura Musical, que reuniu executivos, jornalistas, artistas, apresentadores e ouvintes. Nesta quinta-feira, dia 8, a Eldorado inicia uma nova fase na frequência 107,9 FM.
A notícia do encerramento, depois de quase sete décadas de história, provocou uma reação que surpreendeu até mesmo os executivos do Grupo Estado. Mais de 10 mil pessoas assinaram um abaixo-assinado pela continuidade da emissora. Artistas, intelectuais, músicos, jornalistas e ouvintes se mobilizaram para impedir que desaparecesse uma rádio que sempre ocupou um espaço singular na cultura paulistana. Mais do que uma emissora, a Eldorado se tornou uma referência para um público fiel, que valoriza a boa música, a diversidade cultural e a informação.
Um dos momentos mais marcantes da noite foi quando Luiz Arruda, vice-presidente comercial e de marketing da Porto, revelou que o grupo poderia ter adquirido os naming rights da emissora, associando seu nome à rádio. Mas essa não era a intenção da companhia. O objetivo era preservar uma marca que faz parte da memória afetiva de gerações de paulistanos. “Todo mundo está me perguntando: tendo a opção de ter o naming rights da rádio, por que a gente abriu mão? Porque a rádio que renasce hoje chama Eldorado, não é Porto”, afirmou Arruda, arrancando aplausos dos convidados.
Arruda fez questão de dividir o protagonismo da retomada com os profissionais da emissora e seus ouvintes. Segundo o executivo, foram os talentos que construíram a credibilidade da Eldorado e estabeleceram uma conexão que ultrapassa a relação tradicional entre um veículo de comunicação e sua audiência. Trata-se, em suas palavras, de um vínculo emocional.
Para o executivo, o papel da Porto é apoiar a continuidade dessa história, sem substituir a identidade construída pela emissora ao longo de quase sete décadas. “A gente não quer ser chamado de patrocinador. A gente quer ser parceiro realmente”, disse. Segundo ele, a iniciativa traduz o compromisso da companhia com a cultura do cuidado, que, nesse caso, ganhou um significado especial. “Promovemos a cultura do cuidado e nos vimos numa situação de cuidar da cultura”. Ele acrescentou que espera que seu filho, hoje com quatro anos, também cresça ouvindo a Rádio Eldorado.
O CEO do Estadão, Erick Bretas, não escondeu a emoção ao recordar os meses de incerteza que antecederam o retorno. Segundo ele, a decisão de encerrar as operações foi tomada diante das circunstâncias que envolviam a perda da frequência anteriormente utilizada pela emissora. A reação do público, porém, mudou os rumos da história. Bretas lembrou as manifestações de ouvintes, inclusive na Avenida Paulista, e a mobilização que se formou em defesa da continuidade da Eldorado. “Os ouvintes não deixaram a Eldorado acabar”, afirmou ao reconhecer que a pressão da audiência ajudou a abrir caminho para a construção de uma alternativa.
Bretas agradeceu especialmente a Paulo Lima, um dos nomes ligados à história da rádio, pela articulação que aproximou o Estadão da Porto. O CEO também reconheceu a participação dos executivos do grupo segurador, entre eles Luiz Arruda, e de toda a equipe envolvida na negociação. Segundo Bretas, a Porto ofereceu mais do que um patrocínio: deu à emissora o apoio necessário para viabilizar seu retorno.
Para ele, a nova Eldorado preserva sua essência musical e seu jornalismo independente, mas ganha condições de ampliar a presença digital e desenvolver novos formatos de programação. Afirmou ainda que considera a retomada um dos projetos mais importantes de sua passagem pelo Estadão. A emoção, segundo ele, está justamente em participar de uma solução que permitiu preservar uma marca tão representativa para a cidade.
Uma parceria que nasceu da valorização da cultura

Emanuel Bomfim, diretor artístico da Rádio Eldorado, também atribuiu à Porto um papel fundamental na reconstrução do projeto. “Se estamos hoje aqui celebrando essa reinauguração, é porque a Porto nos abraçou no movimento de valorização de uma curadoria que promove a arte, a cultura e amplia nosso olhar para o mundo”, afirmou.
Para Bomfim, a aproximação entre as duas empresas aconteceu porque a Porto reconheceu na Eldorado valores semelhantes aos que procura cultivar em sua relação com a sociedade. O diretor também destacou a atuação de Paulo Lima na articulação da parceria.
A visão foi reforçada por Oliver Haider, diretor de marketing da Porto, que ressaltou a importância de respeitar a experiência editorial dos profissionais da emissora. Segundo ele, a companhia pretende aprender com quem sabe produzir conteúdo e participar dessa nova etapa sem interferir na identidade construída pela rádio. “Nosso papel como Porto vai ser aprender muito com quem sabe fazer conteúdo”, afirmou Haider, destacando que a intenção é fazer parte da conversa e contribuir com o cuidado, conceito central da atuação do grupo.
O reconhecimento à companhia também veio de quem está diante dos microfones. A apresentadora Roberta Martinelli associou o apoio da Porto à ideia de permanência e resgate de uma história que parecia interrompida. “O lema dessa empresa é cuidado. Um cuidado agora que fala também sobre permanência, sobre resgate, sobre estar ao lado”, declarou a radialista, antes de agradecer à companhia pela parceria. “Obrigada, Porto. Obrigada de coração”, disse Roberta, emocionada com o início de um novo capítulo da emissora.
Uma rádio de quase sete décadas que se reinventa
A Rádio Eldorado retorna ao FM depois de 68 anos de uma trajetória marcada pela valorização da música, da cultura e do jornalismo. Ao longo desse período, conquistou um público que não se identifica necessariamente com a programação das grandes emissoras comerciais e encontra na Eldorado uma curadoria diferenciada, com espaço para novos artistas, entrevistas e debates.
A nova fase combina essa tradição com uma estratégia de presença digital mais intensa. Os estúdios, instalados na sede do Estadão, no bairro do Limão, foram reformados e equipados com câmeras para permitir a produção de conteúdos audiovisuais. A programação jornalística e de entrevistas também terá transmissão por streaming e pelas plataformas digitais do grupo.
Entre os nomes que participam da nova programação estão Roberta Martinelli, Paula Lima, Baba Vacaro, Patrícia Ferraz, Marina Person, Michelle Trombelli, Maurício Pereira, Sarah Oliveira, Leandro Cacossi e Paulo Lima. Juliana Wallauer chega como uma das novidades, com um programa diário.
A celebração de quarta-feira contou ainda com uma transmissão especial ao vivo, reunindo apresentadores e convidados, além de uma participação musical de Tulipa Ruiz. Para a Porto, a parceria representa também uma forma de se aproximar da cidade onde construiu boa parte de sua trajetória empresarial. Para os ouvintes, o retorno significa reencontrar vozes, músicas e uma maneira particular de acompanhar o cotidiano de São Paulo. Para a Eldorado, representa a oportunidade de começar um novo capítulo sem abrir mão de sua identidade.



















