Resseguro mundial supera US$ 1,86 trilhão, com Munich Re na liderança e avanço de novos concorrentes

Estudo da Mapfre Economics mostra que as dez maiores resseguradoras concentraram 68,8% do mercado em 2025, ante 70,1% no ano anterior. Setor registra crescimento, enquanto a distribuição dos prêmios entre os principais grupos se torna mais diversificada

O mercado mundial de resseguros encerrou 2025 com US$ 1,864 trilhão em prêmios brutos, crescimento de 6,5% em relação ao ano anterior, em um cenário de expansão da capacidade financeira, maior concorrência e transformação dos riscos assumidos pelas companhias. A Munich Re e a Swiss Re mantiveram a liderança global, mas perderam participação relativa ao longo da última década, enquanto grupos especializados e resseguradoras sediadas nas Bermudas ampliaram sua presença.

Os dados fazem parte da segunda edição do estudo Ranking de Resseguradores 2025, divulgado em setembro pela Mapfre Economics, centro de pesquisas do grupo segurador espanhol. O levantamento analisa os 25 maiores grupos de resseguros do mundo, com base nos prêmios brutos aceitos, e apresenta uma série histórica de 2015 a 2025, incluindo classificações específicas para os segmentos de Vida e Não Vida.

A Munich Re permaneceu na primeira posição, com US$ 55,28 bilhões em prêmios e participação de 15,3% na amostra analisada. A Swiss Re ficou em segundo lugar, com US$ 43,16 bilhões e 11,9%. Na sequência aparecem Hannover Re, com US$ 33,48 bilhões, e Berkshire Hathaway Reinsurance Group, com US$ 24,57 bilhões.

A liderança das duas maiores resseguradoras permanece expressiva, mas a distribuição dos negócios está mudando. Em 2015, a Munich Re detinha 18,8% da amostra, percentual que caiu para 15,3% em 2025. No mesmo período, a participação da Swiss Re recuou de 13,9% para 11,9%.

O movimento não significa necessariamente redução dos negócios dessas empresas. Ambas ampliaram o volume de prêmios na última década, mas cresceram em ritmo inferior ao de alguns concorrentes, especialmente grupos especializados em determinadas linhas de riscos.

As maiores resseguradoras do mundo

O China Reinsurance Group subiu para a sexta posição, ultrapassando a norte-americana RGA. Já a Scor manteve o quinto lugar, apesar da redução de seus prêmios. A RenaissanceRe e a Arch Reinsurance conservaram a nona e a décima posições, respectivamente.

A Mapfre Re alcançou o 11º lugar, sua melhor colocação na série histórica, com US$ 9,47 bilhões em prêmios, crescimento de 4,5% sobre 2024. A Allianz Re avançou para a 13ª posição, enquanto a Pacific Life Re Global registrou o movimento mais expressivo do ano, saltando sete posições, para o 14º lugar, com crescimento de 75,4% nos prêmios.

Mercado cresce, mas concentração entre os líderes diminui

A transformação na estrutura competitiva fica mais evidente na análise da última década. As dez maiores resseguradoras representavam 69,5% da amostra em 2015. Em 2025, essa participação ficou em 68,8%, abaixo também dos 70,1% registrados em 2024.

Entre as 25 maiores, a participação conjunta passou de 91% para 92,2% entre 2015 e 2025, indicando relativa estabilidade do peso agregado dessas empresas. O índice Herfindahl, utilizado para medir a concentração de mercado, caiu 20,3% no período, de 833,6 para 664,1 pontos. A redução revela uma distribuição mais equilibrada dos negócios entre as companhias analisadas.

A Mapfre Economics observa que o setor se tornou mais diversificado em termos de empresas, embora continue geograficamente concentrado. Estados Unidos, Bermudas e Alemanha mantêm posições de destaque na atividade global.

A comparação dos prêmios totais também exige cautela. O estudo informa que a Associação Internacional de Supervisores de Seguros (IAIS) ampliou a cobertura estatística dos Estados Unidos, o que afeta a comparação com edições anteriores do levantamento.

Resseguro de Não Vida representa 75% do mercado mundial

O segmento de Não Vida continua concentrando a maior parte dos negócios de resseguros, com aproximadamente 75% dos prêmios globais, enquanto Vida responde pelos 25% restantes, segundo os dados setoriais utilizados pela Mapfre Economics.

Em 2025, o resseguro de Não Vida movimentou US$ 1,398 trilhão em prêmios, crescimento de 6,5%. A Munich Re liderou esse segmento com US$ 38,55 bilhões, seguida pela Swiss Re, com US$ 31,26 bilhões, e pela Hannover Re, com US$ 26,63 bilhões.

O levantamento mostra que, embora o mercado tenha crescido, as 25 maiores resseguradoras de Não Vida ampliaram seus prêmios conjuntos em apenas 1,7%, para US$ 239,07 bilhões. Essa diferença sugere que parte relevante da expansão ocorreu fora do grupo das maiores companhias analisadas. A Mapfre Re ocupa a décima posição nesse segmento, com US$ 8,83 bilhões em prêmios, seguida pela Allianz Re, na 11ª colocação, com US$ 7,15 bilhões.

O cenário também reflete uma mudança nas condições de precificação. Após o período de mercado mais restritivo observado em 2023 e 2024, o ano de 2025 foi marcado pelo aumento da competição. No seguro direto de propriedades, as tarifas recuaram 7,5% globalmente, enquanto os preços do resseguro permaneceram, em linhas gerais, mais firmes, embora sob pressão competitiva crescente.

RGA lidera resseguro de Vida, com expansão dos riscos de longevidade

No segmento de Vida, a liderança mundial pertence à Reinsurance Group of America (RGA), com US$ 17,77 bilhões em prêmios e participação de 15,5% na amostra analisada. A Munich Re aparece em segundo lugar, com US$ 16,73 bilhões, seguida pela Swiss Re, com US$ 11,91 bilhões. Scor e China Reinsurance Group completam as cinco primeiras posições.

O resseguro de Vida movimentou US$ 466,08 bilhões em 2025, crescimento de 6,5%. A expansão é impulsionada, entre outros fatores, pela transferência de riscos de longevidade, operações com carteiras de renda vitalícia e maior utilização do resseguro como ferramenta de otimização de capital pelas seguradoras.

O fenômeno é especialmente visível nos Estados Unidos e no Reino Unido, onde grandes operações envolvendo carteiras de aposentadoria e renda vitalícia têm contribuído para o crescimento do segmento.

A Pacific Life Re Global foi um dos principais destaques, com crescimento de 75,4% nos prêmios, para US$ 7,69 bilhões. A companhia avançou cinco posições no ranking de Vida, chegando ao sexto lugar.

O estudo ressalta, entretanto, que algumas operações desse segmento dependem da conclusão de contratos de grande porte, o que pode provocar oscilações expressivas no volume anual de prêmios.

Catrástrofes naturais, riscos cibernéticos e inteligência artificial exigem mais capacidade

A Mapfre Economics identifica uma transformação acelerada no perfil dos riscos assumidos pelo setor. Além das catástrofes naturais, que continuam representando uma das principais fontes de demanda por resseguro, ganham importância os riscos cibernéticos, a inteligência artificial, as interrupções nas cadeias de suprimentos, os distúrbios sociais e políticos e as dependências digitais.

Esses riscos apresentam características semelhantes às das catástrofes tradicionais, especialmente pelo potencial de provocar perdas simultâneas em diferentes empresas, setores e regiões. O relatório destaca que a crescente interconexão das atividades econômicas torna mais complexa a modelagem dos riscos e aumenta a necessidade de soluções capazes de absorver eventos de grande magnitude.

Ao mesmo tempo, a transição energética abre novas oportunidades para o resseguro, particularmente na proteção de projetos de energia renovável e tecnologias de descarbonização. A capacidade financeira do setor continua sólida. O estudo aponta crescimento anual composto de 5,6% do capital dedicado ao resseguro no período recente, impulsionado principalmente pela retenção de lucros e pelos resultados técnicos favoráveis das companhias.

O capital alternativo, que inclui títulos vinculados a seguros e bônus de catástrofe, apresentou expansão anual de 2,8%, permanecendo concentrado sobretudo em riscos catastróficos de maior exposição nos Estados Unidos e no Japão.

Retrocessão absorve aproximadamente 31% dos prêmios

Outro indicador relevante é o nível de retenção dos riscos pelas resseguradoras. Segundo os dados de 2024 da IAIS utilizados no relatório, a taxa de retenção do mercado ressegurador ficou em aproximadamente 69%. Isso significa que as companhias mantiveram sob sua responsabilidade a maior parte dos prêmios aceitos, transferindo uma parcela estimada de 31% por meio de operações de resseguro ou retrocessão.

A estabilidade desse indicador demonstra que, apesar do aumento da complexidade dos riscos, as resseguradoras continuam sustentando uma parcela elevada das exposições assumidas, apoiadas em capital próprio e instrumentos de transferência de riscos.

A utilização de retrocessão varia entre regiões. A América apresenta maior utilização desses mecanismos, enquanto a Ásia e a Oceania registram menor dependência relativa. O relatório também destaca a importância crescente dos instrumentos alternativos de transferência de riscos, como os títulos vinculados a seguros (ILS), que permitem acessar investidores do mercado de capitais e ampliar a capacidade disponível para coberturas de grandes perdas.

Estados Unidos e Bermudas concentram o mercado internacional

A distribuição geográfica é outra característica marcante do setor. Com base nos dados de 2024 da IAIS, Estados Unidos e Bermudas concentraram, conjuntamente, aproximadamente 73% dos prêmios brutos reportados. As Bermudas consolidaram sua posição como um dos principais centros internacionais de resseguros e transferência de riscos, especialmente por meio da combinação de capital tradicional, investidores institucionais e instrumentos vinculados a catástrofes.

O relatório observa, contudo, que os indicadores geográficos devem ser interpretados com cautela, pois a incorporação mais ampla dos dados norte-americanos alterou significativamente a composição da base estatística internacional.

Brasil permanece fora do grupo das 25 maiores resseguradoras globais

O levantamento também permite observar a distância entre a dimensão dos maiores grupos internacionais e a das resseguradoras brasileiras. O IRB(Re), principal resseguradora local do Brasil, e a Austral Re não aparecem entre as 25 maiores companhias classificadas pela Mapfre Economics, tanto no ranking global quanto no segmento de Não Vida.

A ausência deve ser analisada considerando a metodologia do levantamento, que utiliza os prêmios brutos aceitos e informações financeiras consolidadas, ajustadas para permitir a comparação entre grupos de diferentes países. O ranking também evidencia a importância de grupos internacionais que atuam no mercado brasileiro, como Munich Re, Swiss Re, Hannover Re, Scor, Mapfre Re e Allianz Re.

Para o Brasil, os resultados oferecem um panorama das transformações que influenciam diretamente a oferta internacional de capacidade, a precificação das coberturas e as condições de renovação dos contratos de resseguro. O crescimento dos riscos climáticos, a necessidade de proteção de grandes projetos de infraestrutura e energia e a expansão dos seguros de Vida e longevidade são temas que conectam o mercado brasileiro às tendências identificadas pelo estudo.

A conclusão da Mapfre Economics é que o resseguro mundial continua apresentando solidez financeira e capacidade de expansão, mas enfrenta um ambiente de riscos mais complexos e competição crescente. Nesse cenário, o tamanho das companhias permanece importante, embora especialização, eficiência na gestão de capital e capacidade

Screenshot

Denise Bueno
Denise Buenohttp://www.sonhoseguro.com.br/
Denise Bueno sempre atuou na área de jornalismo econômico. Desde agosto de 2008 atua como jornalista freelancer, escrevendo matérias sobre seguros, previdência, educação financeira, longevidade e saúde para o blog Sonho Seguro, do qual e fundadora, e para cadernos especiais produzidos pelo jornal Valor Econômico, bem como para revistas como Época, Veja, Você S/A, Valor Financeiro, Valor 1000, Revista de Seguros (CNSeg) entre outras publicações. É colunista do SindSeg-SP, entrevistadora em eventos e podcasts, bem como palestrante sobre temas diversos que envolvem o setor de seguros. Escreveu artigos diariamente sobre seguros, resseguros, previdência e capitalização entre 1992 até agosto de 2008 para o jornal econômico Gazeta Mercantil. Recebeu, por 17 vezes, o prêmio de melhor jornalista de seguro em concursos diversos do setor e da grande mídia.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Ouça nosso podcast

ARTIGOS RELACIONADOS