A CNP Assurances Latam chega à terceira fase do Conexão Amazônia com R$ 7,5 milhões em investimentos acumulados desde o início do projeto, em 2024. Depois de dois ciclos dedicados à estruturação das organizações e das cadeias produtivas, a nova etapa terá uma estratégia diferente: em vez de ampliar a presença territorial, o projeto permanecerá nas mesmas regiões e trabalhará com as oito associações já apoiadas, concentrando esforços em produção, comercialização, geração de renda e autonomia dos negócios da sociobioeconomia.
A terceira fase receberá R$ 2,5 milhões, como as duas anteriores, e terá duração de 12 meses. A área apoiada também permanece em 2,5 milhões de hectares. A meta é envolver 550 pessoas, fortalecer 15 cadeias produtivas — duas novas e 13 já existentes — e alcançar R$ 2,1 milhões em faturamento a partir das cadeias da sociobioeconomia amazônica. Desse total, R$ 400 mil correspondem à meta de faturamento da Inatú Amazônia.
O Sonho Seguro foi ao Amazonas acompanhar de perto algumas dessas iniciativas. No território, números como hectares conservados, famílias beneficiadas e renda gerada ganham rostos e histórias. São produtores de óleos essenciais, extrativistas, mulheres artesãs, jovens, viveiros de mudas, sistemas agroflorestais e associações que começam a administrar e comercializar a própria produção.
Mas a viagem também ajuda a compreender uma Amazônia muito distante daquela percebida por quem vive nos grandes centros urbanos. Há comunidades onde não existem carros e o deslocamento é feito de barco. Crianças dependem dos rios para chegar à escola. Pesca, extrativismo e pequenos cultivos sustentam famílias. O rio é estrada, fonte de alimento e parte inseparável da rotina.
É uma vida que pode parecer bucólica vista de longe, mas que, de perto, revela enormes dificuldades de infraestrutura, transporte, energia, comunicação, equipamentos e acesso aos mercados. Em determinados momentos, a sensação é de estar em uma espécie de “terra de ninguém”: uma região que concentra uma das maiores riquezas ambientais do planeta, mas onde quem ajuda a preservar essa riqueza nem sempre dispõe das condições mínimas para transformá-la em renda e perspectiva de futuro.
E é justamente nesse espaço que projetos como o Conexão Amazônia tentam atuar. Ainda são iniciativas pequenas diante da dimensão territorial da Amazônia e do poder econômico das atividades que exploram de forma predatória os recursos da região. Mas ajudam a demonstrar que existe uma alternativa: criar valor econômico mantendo a floresta em pé.
INVESTIMENTO DE LONGO PRAZO
Para a CNP Assurances Latam, a terceira renovação consolida uma decisão de investimento que ultrapassa ações ambientais pontuais e busca gerar impacto econômico e social de longo prazo. “Chegar ao terceiro ciclo e a R$ 7,5 milhões investidos mostra que estamos construindo uma iniciativa de longo prazo. Para a CNP Assurances Latam, investir na Amazônia significa apoiar um modelo no qual conservação ambiental, desenvolvimento econômico e inclusão social caminhem juntos. A continuidade é fundamental para que os projetos amadureçam e as comunidades conquistem cada vez mais autonomia”, afirma Gregoire Saint Gal De Pons, diretor de Relações Institucionais, Comunicação e ESG da CNP Assurances BU Latam.
Essa continuidade é especialmente importante em cadeias produtivas da Amazônia. Segundo estimativa do Idesam, começar uma cadeia produtiva do zero e preparar uma organização social pode exigir aproximadamente quatro anos e investimentos da ordem de R$ 10 milhões, considerando infraestrutura e recursos humanos especializados.
O Conexão Amazônia também materializa no Brasil diretrizes de sustentabilidade estabelecidas globalmente pela CNP Assurances, principal grupo segurador francês, com atuação destacada no Brasil, em parceria com o grupo Caixa Seguridade. A estruturação da estratégia de sustentabilidade da CNP Seguradora ocorreu durante a consolidação da marca própria da companhia no país. Com apoio do Boston Consulting Group (BCG), foram definidos pilares de atuação alinhados às diretrizes da matriz francesa. A proteção ambiental apareceu como uma das prioridades e levou ao mapeamento de iniciativas capazes de transformar esse direcionamento em ações concretas.
“O Conexão Amazônia traduz para a realidade brasileira compromissos que fazem parte da estratégia de sustentabilidade da CNP Assurances. O diferencial é conseguirmos conectar esses direcionamentos globais às necessidades concretas do território, combinando proteção ambiental com desenvolvimento social e geração de oportunidades”, afirma Mirella Dota Sanches, diretora de Recursos Humanos, Comunicação Interna e ESG da CNP Seguradora e da holding da CNP Assurances na América Latina.
Mas transformar metas globais de sustentabilidade em realidade no meio da Amazônia exige muito mais do que destinar recursos. É preciso encontrar projetos, conhecer as comunidades, entender suas necessidades, estruturar cadeias produtivas, organizar associações, capacitar produtores, criar canais de comercialização e, muitas vezes, ajudar a resolver questões que parecem banais no mundo corporativo: CNPJ, conta bancária, emissão de notas fiscais, contabilidade, licenças e documentação para participar de editais e licitações.
É um trabalho feito por pessoas que precisam transformar compromissos ambientais escritos em estratégias corporativas em soluções possíveis para comunidades que vivem a horas — ou dias — de distância dos centros urbanos. Um dos principais aprendizados dos primeiros ciclos foi justamente perceber que a conservação da floresta não poderia ser dissociada das condições econômicas das pessoas que vivem nela.
“Um dos principais aprendizados foi perceber que não adianta falar em proteção ambiental sem olhar para as pessoas. Se uma família não encontra uma fonte de renda sustentável, a conservação não se sustenta no longo prazo. Por isso, acompanhamos não apenas indicadores ambientais, mas renda, produção, comercialização e desenvolvimento das organizações”, explica Manuela Cartani, especialista em ESG da CNP Seguradora.
Na terceira fase, essa lógica será aprofundada. A meta é envolver 550 pessoas e alcançar renda média geral de R$ 2,7 mil. Entre os participantes, o projeto pretende alcançar 80 mulheres e 50 jovens.
Mais do que ampliar o número de comunidades atendidas, a nova etapa procura consolidar o que foi construído nos ciclos anteriores. O projeto prevê R$ 2,1 milhões em faturamento a partir das cadeias da sociobioeconomia, 15 redes de valor, uma estratégia para investimentos em negócios da sociobioeconomia e um plano de expansão e estruturação comercial, com 20 novos pontos de venda ou clientes.
O DESAFIO DE FAZER O JOVEM FICAR
A atenção aos jovens toca em uma questão central para o futuro da floresta. Os mais velhos construíram suas vidas nessas comunidades e tendem a permanecer. Para as novas gerações, porém, a ausência de renda, estudo, trabalho e perspectivas pode significar a mudança para Manaus ou outros centros urbanos.
Quando o jovem deixa a comunidade, não se perde apenas mão de obra. Pode-se perder também conhecimento, continuidade das atividades produtivas e uma geração que poderia participar da construção de novas formas de explorar economicamente os recursos da floresta sem destruí-la.
É justamente aí que universidades, empresas, organizações sociais e governos poderiam ter participação ainda maior. A Amazônia tem potencial para funcionar como um enorme laboratório de conhecimento aplicado. Agronomia, engenharia florestal, biologia, química, administração, tecnologia e tantas outras áreas poderiam contribuir para desenvolver soluções adaptadas à realidade das comunidades.
Não se trata de simplesmente levar uma máquina para a floresta ou reproduzir ali o modelo das cidades. Trata-se de encontrar formas de melhorar a vida de quem pesca, planta, extrai produtos da floresta e trabalha em sistemas agroflorestais sem destruir o modo de vida e o ambiente dos quais essas pessoas dependem.
A DISTÂNCIA TAMBÉM É UM RISCO
Se a terceira fase não ampliará sua presença territorial, isso não significa que o desafio logístico tenha diminuído. Ao contrário: consolidar negócios nas mesmas regiões exige enfrentar um dos maiores obstáculos para transformar a sociobioeconomia em atividade economicamente sustentável na Amazônia — a distância entre quem produz e quem compra.
Na cheia, uma mercadoria pode levar dias para chegar a determinados municípios em lanchas rápidas. Na seca, o percurso pode consumir semanas e exigir que moradores carreguem suprimentos em trechos nos quais a navegação deixa de ser possível.
A distância também multiplica o peso da burocracia. Para participar de um edital, receber investimento ou vender formalmente sua produção, uma associação precisa cumprir as mesmas exigências fiscais, contábeis e administrativas encontradas por organizações instaladas nos grandes centros.
Durante a viagem, um dos relatos mostrou como essa realidade pode colocar em risco meses de trabalho. Uma organização estava concluindo a documentação para participar de uma licitação pública, mas dependia da assinatura do presidente da associação, que estava viajando. A documentação acabou sendo entregue poucos minutos antes do encerramento do prazo. Um detalhe burocrático poderia ter colocado a perder praticamente um ano de preparação.
É nesse ponto que o trabalho de organizações como o Idesam ganha outra dimensão. Não basta identificar uma atividade sustentável. É necessário ajudar a construir a estrutura que permitirá que essa atividade exista dentro da economia formal.
A Fase III trabalhará com 15 cadeias de valor, com a manutenção de 13 já apoiadas e a incorporação de duas novas. Entre as atividades estão óleos essenciais de breu e pau-rosa, copaíba, andiroba, murumuru, buriti, manteigas vegetais, madeira manejada, objetos de madeira, artesanato e Sistemas Agroflorestais.
O trabalho não se resume à produção. As organizações recebem assistência para gestão administrativa e financeira, capacitação técnica, tecnologia, rastreabilidade, aquisição e utilização de equipamentos e apoio para acessar mercados.
“O projeto foi construindo uma jornada. Primeiro foi necessário fortalecer as organizações, estruturar as cadeias e oferecer assistência técnica. Agora avançamos para um estágio em que comercialização, tecnologia e autonomia ganham ainda mais importância. O objetivo é que essas redes se fortaleçam e consigam gerar renda de forma continuada, mantendo a floresta conservada”, afirma André Vianna, diretor técnico do Idesam.
MANEJAR A FLORESTA PARA MANTÊ-LA EM PÉ
Outra frente do Conexão Amazônia é o manejo florestal comunitário. Na Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Uatumã, o projeto apoia manejo, marcenaria familiar e outras atividades que buscam transformar recursos da floresta em renda sem substituir a floresta por outra atividade econômica.
A região conta com certificação FSC. Na terceira fase, uma das ações previstas é justamente manter essa certificação para o extrativismo, o manejo florestal e a marcenaria familiar. “O manejo florestal sustentável permite conciliar conservação e geração de renda. Existe planejamento, rastreabilidade e controle da origem da madeira. Quando conseguimos avançar também para a transformação dessa madeira em objetos, agregamos valor à cadeia e fazemos com que uma parcela maior da renda permaneça nas comunidades”, explica Marcus Biazatti, líder de Produção Sustentável do Idesam.
A diferença entre exploração e manejo aparece com clareza quando se conversa com quem vive da floresta. Para uma família que precisa colocar comida na mesa, retirar uma árvore pode ser uma questão de sobrevivência. A transformação começa quando conhecimento e assistência técnica mostram que é possível retirar recursos e, ao mesmo tempo, permitir que a floresta se recomponha.
Dividir áreas, estabelecer limites de exploração, respeitar ciclos e retornar somente quando determinada área estiver recuperada transforma a relação com o recurso natural. Quem antes retirava sem conhecer outra alternativa passa a entender que conservar significa também garantir que haverá floresta — e renda — no futuro.
Essa talvez seja uma das questões mais complexas da Amazônia: não basta dizer a uma população que ela não pode explorar a floresta da qual sempre dependeu. É preciso mostrar como explorar de outra maneira e garantir condições econômicas para que essa alternativa seja viável.
PAU-ROSA VOLTA A OCUPAR A FLORESTA
Uma das frentes que ganhará novo impulso na terceira fase são os Sistemas Agroflorestais. A nova etapa prevê 50 hectares de SAFs e 5 mil mudas de pau-rosa. Entre os personagens que ajudam a traduzir o Conexão Amazônia em histórias está Ademir, um dos primeiros produtores envolvidos na implantação de Sistemas Agroflorestais com pau-rosa na região. Sua relação com o projeto começou pela produção na própria terra, mas avançou para uma atividade que hoje ajuda a abastecer novos plantios: a produção de mudas.
Ademir mantém viveiros onde produz espécies utilizadas nos sistemas agroflorestais. Além do pau-rosa, aparecem mudas de açaí, laranja e outras espécies que ajudam a compor os SAFs implantados nas comunidades. “Eu fui pegando gosto pelo trabalho. Hoje a gente produz as mudas e vê essas plantas indo para outras áreas. É um trabalho que vai crescendo e ajudando outras famílias também”, conta.
O modelo dos SAFs combina diferentes espécies agrícolas e florestais em uma mesma área. A proposta é recuperar áreas desflorestadas e, ao mesmo tempo, criar uma atividade produtiva capaz de gerar renda. No caso do pau-rosa, a cadeia não termina no plantio. As mudas produzidas nos viveiros seguem para os sistemas agroflorestais e, no futuro, poderão alimentar a cadeia de produção de óleo essencial.
A experiência de Ademir ajuda a mostrar como essa lógica começa a se retroalimentar. O produtor que recebeu apoio para implantar seu sistema passa também a produzir parte das mudas necessárias para os próprios SAFs.
O objetivo vai além da recuperação ambiental. A intenção é transformar o SAF em uma unidade produtiva que reúna conservação, diversificação da produção e geração de renda. Para Ademir, o significado do trabalho aparece de maneira simples: aquilo que começa como uma muda pode se transformar em floresta, produto e fonte de renda para outras famílias. A floresta não é apenas recuperada. Ela volta a produzir futuro.
MULHERES QUE LEVANTAM MULHERES
É também na RDS Uatumã que uma das prioridades da terceira fase já pode ser vista na prática: o protagonismo feminino. Elizângela Cavalcante, liderança comunitária e extrativista, está à frente de um coletivo que hoje reúne 65 mulheres de 11 das 22 comunidades da reserva.
Os encontros nasceram de uma iniciativa da própria comunidade e combinam acolhimento, troca de experiências e oficinas destinadas a criar alternativas de geração de renda. “O empoderamento da mulher, para acontecer realmente, precisa de autonomia financeira. Por isso nossas oficinas são de alternativas de geração de renda”, conta Elizângela.
Já foram realizadas atividades de crochê, pintura, biojoias e outras formas de produção artesanal. Algumas mulheres começaram a comercializar o que produzem em feiras e eventos. Elizângela ajuda pessoalmente a abrir esses mercados. “Qualquer evento para o qual me convidarem, não importa se o tema é financeiro ou administrativo, não se assustem: eu vou levar uma mochila com biojoias e objetos de madeira”, brinca. O movimento também está tornando visível um trabalho feminino que sempre existiu na floresta, mas que nem sempre aparecia nas estatísticas ou nas relações comerciais.
“A extração do breu era vista como trabalho dos homens, mas isso não era verdade. As mulheres iam junto e muitas vezes faziam até mais. Só que, na hora de aparecer, elas não apareciam. Hoje eu olho a planilha de fornecedores e já encontro equipes com nomes de mulheres. Há três anos isso não existia.”
Elizângela cita como exemplo uma das comunidades onde a produção de breu se destaca e é liderada por uma mulher. Para ela, a presença feminina na produção e na comercialização começa a modificar relações estabelecidas havia muito tempo. “Eu vejo as meninas produzindo biojoias e conseguindo comercializar. Essas coisas nos dão muito orgulho, muito prazer e muita vontade de fazer ainda mais.” Markdown colado
A trajetória de Elizângela também se cruza com a cadeia da madeira manejada. A madeira utilizada pela marcenaria vem de uma área submetida a plano de manejo. Segundo ela, as árvores são inventariadas e catalogadas e a exploração depende de autorização. “A marcenaria é cliente do plano de manejo. A madeira vem dessa área inventariada, onde as árvores são catalogadas e existe autorização para saber qual árvore pode ser retirada e qual não pode.”
Mas retirar a madeira dentro das regras do manejo é apenas o início. O passo seguinte foi aprender a transformar a matéria-prima em produtos com maior valor agregado. Quando a marcenaria começou, lembra Elizângela, havia muito mais vontade do que conhecimento técnico. “A única coisa que a gente tinha certeza era a vontade. A vontade de fazer funcionar e de se tornar uma referência. Eu sei que somos pequenininhos aqui, mas, para nossas comunidades e para o nosso município, somos grandes.”
Vieram então as capacitações. Os participantes aprenderam desde a preparação da madeira até o desenvolvimento das peças. Designers passaram uma semana na comunidade ajudando a transformar o material em produtos. Durante a pandemia, parte do aprendizado precisou acontecer por meio de vídeos gravados. “A gente tinha uma televisão pequena em casa, colocava lá fora e chamava o pessoal para assistir. Era para aprender a fazer os produtos e ver quem dizia: ‘Isso aí eu consigo fazer, eu quero fazer’. Foi assim que aconteceu.”
Entre os primeiros produtos desenvolvidos estavam pilões, tábuas, espátulas, cabides e outros objetos. A marcenaria passou a fornecer também para a Inatú Amazônia, empresa de base comunitária que conecta produtos da sociobiodiversidade ao mercado.
A melhoria da infraestrutura ajudou a ampliar a produção. A substituição de parte da geração a diesel por um sistema fotovoltaico permitiu utilizar as máquinas com maior regularidade e reduziu a dependência de combustível. Para Elizângela, entretanto, a transformação vai além da produção. “Para melhorar, a gente sabe que precisa continuar. É isso que estamos fazendo a cada dia.”
DA FLORESTA PARA O MERCADO
É na miniusina de óleos que outra parte dessa estratégia pode ser vista funcionando. Vanderlei, gestor da unidade, nasceu na região e começou a acompanhar o pai na floresta ainda criança. Antes de assumir a gestão da usina, também trabalhou como extrativista. “Eu vivo aqui e vivo da natureza. Desde os nove anos acompanhava meu pai na floresta. Hoje tenho a oportunidade de estar à frente de uma usina, como gerente de um empreendimento”, conta.
Quando começaram os primeiros testes com o breu, em 2020, apenas cinco famílias participavam da atividade. Hoje, segundo Vanderlei, cerca de 150 pessoas estão envolvidas na cadeia produtiva dos óleos, entre extrativistas e trabalhadores ligados à produção.
“Começamos com cinco famílias. Hoje temos cerca de 150 pessoas envolvidas. É geração de renda para famílias que passam a ter um recurso para levar alimentação para casa.” A valorização dos produtos da floresta também mudou. Vanderlei viveu isso pessoalmente com a copaíba. “Eu era extrativista. Passava o dia inteiro na floresta caminhando e procurando copaíba. Vendia o litro por R$ 14, R$ 15. Hoje conseguimos vender por cerca de R$ 70.”
Os investimentos também modificaram a estrutura da miniusina. Antes, a produção dependia de gerador a diesel. Uma falha durante a destilação poderia comprometer o trabalho. O resfriamento da água era improvisado e o processo exigia longas horas de funcionamento do gerador.
A instalação de energia solar e de novos equipamentos trouxe maior estabilidade à produção e ajudou a melhorar a qualidade dos óleos. Também foi estruturado um alojamento para trabalhadores que chegam de comunidades distantes.
Vanderlei lembra que saía de casa por volta das quatro horas da manhã e, quando não conseguia retornar depois da produção, precisava dormir de maneira improvisada próximo à usina. Hoje há alojamento, água de poço e estrutura para descanso. Talvez a mudança mais importante seja menos visível do que os painéis solares, as máquinas e as novas instalações. A associação aprendeu a administrar o próprio negócio.
“Antes, outras pessoas precisavam fazer essas coisas por nós. Hoje a própria associação emite nota e vende. Estamos tomando a frente do negócio”, conta Vanderlei. Os integrantes também passaram a controlar quanto da receita pode ser gasto, quanto precisa permanecer no caixa e qual parcela deve retornar para novos investimentos.
Agora surge outro gargalo: vender mais. É justamente aí que a terceira fase pretende avançar. Em vez de expandir territorialmente, o projeto concentrará esforços em transformar a estrutura construída nos primeiros ciclos em negócios mais maduros. A meta é alcançar R$ 2,1 milhões em faturamento a partir das cadeias da sociobioeconomia, estruturar 20 novos pontos de venda ou clientes e desenvolver uma estratégia para investimentos nos negócios. A Inatú Amazônia tem meta de R$ 400 mil em faturamento comercial.
Vanderlei já olha além. “Queremos expandir, produzir mais e chegar a exportar nosso produto.” Entre as cinco famílias que começaram a trabalhar com o breu em 2020 e as cerca de 150 pessoas hoje envolvidas na cadeia dos óleos existe mais do que crescimento de produção. Existe uma comunidade que começa a dominar a própria cadeia: extrair, produzir, administrar, emitir nota, vender e reinvestir.
IDESAM: É PRECISO AGIR RÁPIDO E ASSIM EVITAR OS EFEITOS CLIMÁTICOS
A mudança do clima acrescenta uma camada de urgência a esse desafio, reforçam os técnicos do Idesam. Na Amazônia, adaptação climática já faz parte da rotina: secas e cheias extremas afetam a navegação, a pesca, o extrativismo, a produção e o escoamento dos produtos. Fenômenos como o El Niño podem agravar períodos de calor e redução das chuvas, aumentando a vulnerabilidade de comunidades que dependem diretamente dos rios para transporte, alimentação e geração de renda.
“Nesse contexto, diversificar fontes de renda e fortalecer a infraestrutura local também são formas de adaptação. Sistemas agroflorestais, manejo sustentável, diferentes cadeias da sociobiodiversidade, energia solar e associações mais estruturadas ajudam as comunidades a enfrentar períodos de adversidade. Preservar a floresta passa, portanto, também por preparar quem vive nela para um clima mais extremo”, destaca Marcos.
A FLORESTA PRECISA VALER PARA QUEM VIVE NELA
Conhecer essas comunidades também coloca em perspectiva a vida de quem está do outro lado do país. Nas cidades, água, energia, transporte, escola, supermercado, internet e serviços parecem parte natural da rotina. Mesmo assim, frequentemente reclamamos da dificuldade de viver. Na Amazônia, há famílias para as quais quase tudo depende do rio, do clima, de horas de deslocamento e da capacidade de resolver problemas com os recursos disponíveis.
E há uma constatação ainda mais desconcertante: mesmo quando essas pessoas conseguem aumentar sua renda, o dinheiro sozinho não resolve tudo. É preciso que existam infraestrutura, serviços, mercados, transporte e oportunidades onde elas vivem. Por isso, conservar a Amazônia é muito mais complexo do que impedir que uma árvore seja derrubada.
É preciso criar condições para que as pessoas possam viver da floresta sem precisar destruí-la e para que os jovens tenham motivos para permanecer nas comunidades. É preciso conhecimento para que o extrativista compreenda o manejo; equipamentos para que a produção ganhe escala e qualidade; energia para que uma usina funcione; capacitação para que uma associação emita uma nota fiscal; mercado para que uma mulher consiga vender uma biojoia; e renda para que uma família não precise abandonar seu território em busca de sobrevivência.
É nesse ponto que os R$ 7,5 milhões investidos pela CNP deixam de ser apenas um número. Na floresta, o investimento aparece na energia que mantém uma usina funcionando, nas mudas que formarão novos sistemas agroflorestais, no produtor que aprende a manejar uma área, nas mulheres que começam a comercializar seus produtos e nas associações que passam a controlar o próprio negócio.
Na terceira fase, o desafio será dar mais um passo: fazer com que estruturas e cadeias construídas ao longo dos primeiros ciclos consigam vender mais, gerar renda e caminhar com autonomia cada vez maior.
São ações ainda pequenas diante da escala da Amazônia e dos interesses econômicos envolvidos na exploração de suas riquezas. Mas são experiências que ajudam a responder a uma pergunta fundamental: como conservar uma das regiões mais importantes para o futuro do planeta sem esquecer das pessoas que vivem nela?
Talvez a resposta comece justamente aí.
A floresta em pé precisa ter valor também para quem vive nela.





















