Os seguros de danos e pessoas seguem como principal motor do mercado segurador brasileiro em 2026. Entre janeiro e maio, os prêmios desses segmentos somaram R$ 93,69 bilhões, crescimento nominal de 6,37% em relação ao mesmo período do ano passado, impulsionados principalmente pelos seguros de vida, automóvel e pelas linhas voltadas ao mercado corporativo. Os dados são do boletim divulgado pela Superintendência de Seguros Privados (Susep).
Mesmo com esse desempenho, o resultado consolidado da indústria continua negativo. As receitas totais do setor supervisionado pela autarquia atingiram R$ 172,89 bilhões, queda nominal de 1,7% frente aos cinco primeiros meses de 2025. O principal fator continua sendo a retração dos produtos de acumulação, especialmente do Vida Gerador de Benefício Livre (VGBL), cujas contribuições recuaram 12,23% no período.

O comportamento dos números evidencia um mercado operando em duas velocidades. Enquanto os seguros ligados à proteção patrimonial e financeira seguem crescendo de forma consistente, impulsionados pelo aumento da percepção de riscos, pela inovação de produtos e pela ampliação da distribuição, a previdência aberta continua perdendo espaço diante do ambiente de juros elevados e das mudanças tributárias implementadas no ano passado.
O seguro de vida permanece como o principal destaque entre os produtos de proteção. Os prêmios cresceram 10,51%, alcançando R$ 16,53 bilhões até maio e respondendo por praticamente metade de toda a arrecadação dos seguros de pessoas. O desempenho reforça uma tendência observada desde a pandemia: o seguro de vida passou a ser visto não apenas como proteção para morte, mas também como instrumento de planejamento financeiro, sucessão patrimonial e proteção em vida.

No segmento de danos, o seguro automóvel continua liderando o mercado, com arrecadação de R$ 25,41 bilhões, alta de 5,82%, equivalente a 43% de toda a produção dos seguros de danos. Embora permaneça em trajetória positiva, o ritmo de crescimento mostra desaceleração em relação aos últimos anos, refletindo um mercado mais maduro após os fortes reajustes de preços registrados no pós-pandemia.
As maiores taxas de expansão aparecem justamente em alguns ramos corporativos. O seguro financeiro avançou 23,71%, beneficiado pelo aumento das operações de crédito, financiamentos e garantias contratuais. A fiança locatícia cresceu 32,48%, acompanhando o aquecimento do mercado de locação de imóveis, enquanto os seguros habitacional e patrimonial registraram altas de 11,41% e 14,23%, respectivamente.
Na direção oposta, segmentos ligados ao agronegócio e aos grandes riscos continuam enfrentando dificuldades. O seguro rural recuou 5,32%, refletindo um ambiente ainda desafiador para o setor agropecuário, enquanto os seguros de riscos especiais voltados ao segmento de energia caíram mais de 30%.
IOF amplia pressão sobre a previdência
A retração da previdência aberta, porém, vai além do ambiente de juros elevados. Para o setor, parte importante da desaceleração decorre da incidência do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) sobre grandes aportes em planos VGBL, medida adotada pelo governo no ano passado.
Em entrevista recente ao Valor Econômico, o presidente da Federação Nacional de Previdência Privada e Vida (Fenaprevi), Edson Franco, afirmou que a mudança tributária reduziu em aproximadamente R$ 80 bilhões a captação da previdência aberta entre a implantação da medida e maio deste ano. Para o segundo semestre, a expectativa é de uma perda adicional de R$ 50 bilhões, totalizando cerca de R$ 130 bilhões em recursos que deixariam de ser direcionados à formação de poupança de longo prazo.
Segundo Franco, o impacto extrapola o mercado segurador. Dos cerca de R$ 1,8 trilhão administrados pela previdência aberta, aproximadamente 64% estão investidos em títulos públicos, tornando o segmento responsável por cerca de 13% do financiamento da dívida pública brasileira. Na avaliação do executivo, a tributação acabou deslocando recursos para aplicações financeiras incentivadas, produzindo efeito contrário ao esperado pelo governo.
A discussão ganha relevância justamente em um momento em que o Tesouro Nacional enfrenta maior dificuldade para a colocação de títulos públicos e busca ampliar a base de investidores de longo prazo.
Apesar da desaceleração da previdência, o setor continua ampliando sua capacidade financeira. O estoque de provisões técnicas alcançou R$ 2,16 trilhões em maio, equivalente a 16,45% do Produto Interno Bruto (PIB), novo recorde para o mercado supervisionado pela Susep. O indicador demonstra o crescimento contínuo dos recursos administrados pelas seguradoras e reforça seu papel como um dos maiores investidores institucionais do País.
No resseguro, as seguradoras cederam R$ 12,19 bilhões em prêmios entre janeiro e maio, montante equivalente a aproximadamente 13% dos prêmios emitidos nos seguros de danos e pessoas. O percentual permanece relativamente estável, indicando que, mesmo diante do aumento da frequência e da severidade dos eventos climáticos, o mercado continua encontrando capacidade para distribuir riscos entre resseguradores locais e internacionais.
Os números de maio mostram que o mercado segurador brasileiro vive uma mudança estrutural. O crescimento deixou de depender da previdência aberta e passou a ser sustentado quase exclusivamente pelos seguros de proteção, em especial vida, automóvel e ramos corporativos.
Essa mudança reflete tanto uma transformação no comportamento dos consumidores — cada vez mais atentos à proteção financeira e patrimonial — quanto o ambiente macroeconômico, marcado por juros elevados e alterações na tributação dos investimentos de longo prazo.
Para o setor, a retomada do crescimento consolidado dependerá não apenas da continuidade da expansão dos seguros, mas também da recuperação da previdência aberta. Nesse cenário, a trajetória da taxa básica de juros e uma eventual revisão da tributação sobre os grandes aportes em VGBL passam a ser fatores decisivos para que o segmento volte a exercer seu tradicional papel de financiador de longo prazo da economia brasileira.






















