Brasil volta ao radar de grandes grupos internacionais, mas entrada exige mais do que capital

Executivos da Fidelidade e da EY apontam que o novo ciclo de expansão no setor de seguros passa por tecnologia, dados, parcerias estratégicas e capacidade de inovação

O Brasil continua no radar dos grandes grupos internacionais de seguros, mas a entrada no país exige mais do que capital. O mercado é grande, promissor e passa por uma nova fase regulatória com o Marco Legal do Seguro, mas também é complexo, competitivo e demanda conhecimento local, tecnologia e capacidade de adaptação. A avaliação foi feita por Rogério Campos Henriques, CEO do Grupo Fidelidade, maior seguradora de Portugal, ao comentar os planos internacionais da companhia. O executivo negou que o Brasil seja uma prioridade imediata, mas deixou claro que o país segue no horizonte estratégico do grupo. “Devemos pensar no Brasil, mas não tem sido uma prioridade para nós. É um mercado grande, complexo e difícil. Costumamos dizer que o Brasil não é um mercado para amadores”, afirmou durante entrevista no coquetel do Fórum Brasil Portugal, realizado em Lisboa no início de junho deste ano.

A Fidelidade, que tem como principal acionista o grupo chinês Fosun, já atua em diversos países da América Latina, como Peru, Chile, Bolívia, Paraguai e Uruguai. Segundo Campos Henriques, a escolha dos mercados segue uma lógica seletiva, baseada na capacidade da companhia de fazer diferença em cada país. “Somos uma empresa portuguesa que tem um acionista chinês. As decisões de expansão não são determinadas pela nacionalidade do acionista, mas pelas nossas capacidades e por aquilo que entendemos fazer sentido em cada momento. Se fosse apenas por isso, já estaríamos no Brasil”, disse. Neste momento, o grupo olha com mais atenção para oportunidades na Colômbia e no México. Ainda assim, o executivo não fechou a porta para o mercado brasileiro. “Chegará o momento”, afirmou.

A declaração ocorre em um momento em que empresas brasileiras têm mantido conversas com grupos estrangeiros em busca de parcerias, investimentos e eventuais operações societárias. A modernização regulatória, a consolidação do setor e a busca por eficiência operacional têm recolocado o Brasil no mapa de seguradoras globais.

Houve um boom de negócios no setor de seguros do Brasil em 2022, 2023 e 2024, com 28, oito e 12. Em 2025, foram realizadas dez operações, revela pesquisa da KPMG. Entre outras significativas, podemos citar a compra da carteira de seguros de automóveis da SulAmérica pela Allianz; a venda da operação de saúde da Sompo para a SulAmérica e a transferência de linhas massificadas da Sompo para a HDI. A maior delas foi aquisição das operações da Liberty Brasil e América Latina pela HDI. Vale também citar a corretora Alper Seguros. Ao completar 15 anos de atividade, já fez mais de 70 aquisições.

O Bradesco apostou em outras formas de atrair investidores. Em fevereiro deste ano, o banco anunciou a criação da BradSaúde, um novo ecossistema integrado que consolida todos os ativos de saúde do grupo. A holding reúne operadoras de planos médico-hospitalares, rede odontológica, hospitais, clínicas, centros de diagnóstico e healthtechs, com um faturamento pro-forma de R$ 52 bilhões e mais de 13 milhões de beneficiários. A BradSaúde estreou na B3 sob o ticker SAUD3 através do maior processo de IPO reverso da história do mercado financeiro brasileiro.

Com a fusão, o Bradesco ficou com 91,35% das ações, deixando as ações em livre circulação (free float) com os minoritários em apenas 8,65%. Como as regras do segmento do Novo Mercado da B3 exigem um patamar mínimo de 25% de free float, o Bradesco informou que pretende realizar uma oferta subsequente de ações (follow-on) para diluir sua participação e atrair novos investidores institucionais. Esse movimento deve ocorrer nos próximos dois anos para recompor a liquidez do papel no mercado

Neste novo cenário mundial, a forma de entrada de novos playeres tende a ser diferente daquela observada em ciclos anteriores. Segundo vídeo de David Lambert, Global Insurance Transaction Advisory Leader da EY, fusões e aquisições no setor de seguros deixaram de ser apenas uma estratégia para ganhar escala. Cada vez mais, as transações buscam acelerar o acesso a novas competências, tecnologia, dados e talentos.

Na avaliação do executivo, as seguradoras precisam definir hoje quais capacidades serão necessárias para competir nos próximos três a cinco anos. O desafio está em construir a ponte entre a estrutura atual e o modelo de negócio que será exigido no futuro. Nesse contexto, grandes aquisições podem dividir espaço com participações minoritárias, joint ventures, parcerias com insurtechs, investimentos em inteligência artificial e construção de ecossistemas. O objetivo deixa de ser apenas comprar carteira ou participação de mercado e passa a ser incorporar inovação de forma mais rápida e eficiente.

A visão da EY conversa diretamente com o momento vivido pelo mercado brasileiro. A entrada em vigor do Marco Legal do Seguro aumenta a necessidade de revisão de contratos, produtos, processos e modelos de relacionamento com clientes e corretores. Ao mesmo tempo, temas como inteligência artificial, automação da subscrição, análise de dados, eficiência operacional e adaptação climática passam a ocupar espaço central na agenda das seguradoras.

Laboratório para impulsionar a adaptação climática recebe investimentos

A própria Fidelidade oferece um exemplo concreto dessa mudança de postura. Antes de olhar para novos mercados apenas pela ótica de distribuição ou escala, o grupo tem investido na construção de competências que podem diferenciar sua atuação internacional. Um dos projetos mais emblemáticos é o Impact Center for Climate Change, laboratório climático criado pela seguradora para transformar ciência, dados e conhecimento técnico em ações práticas de prevenção e adaptação às mudanças climáticas. A iniciativa foi apresentada por Rui Esteves, Head of Technical Division for Motor and Home Insurance da Fidelidade, durante o fórum organizado pela CNseg e pela Fidelidade.

Segundo Esteves, o projeto começou a ser pensado em 2021, ganhou forma em 2023 e foi lançado oficialmente em outubro de 2024. A ideia nasceu da percepção de que as alterações climáticas estavam cada vez mais evidentes e de que as seguradoras precisariam assumir um papel mais ativo diante dos novos riscos. “Nós não queríamos apenas fazer estudos que ficassem na prateleira. Queríamos criar conhecimento com implementação prática”, afirmou.

O centro combina competências internas da seguradora — atuários, cientistas de dados, especialistas em produtos, subscrição, gestão de riscos e regulação de sinistros — com universidades, centros de investigação, cientistas, resseguradores, distribuidores, governos locais e centrais.

A atuação foi organizada em três frentes. A primeira olha para o próprio negócio segurador, com foco em melhorar subscrição, tarifação, gestão de risco e regulação de sinistros. A segunda envolve clientes, corretores e agentes, com o objetivo de ampliar a resiliência dos segurados e contribuir para a redução do déficit de proteção. A terceira está relacionada à pesquisa, aos decisores políticos e à sociedade em geral.

Entre os projetos em andamento está um estudo aprofundado sobre o risco de incêndios florestais em Portugal, considerado um dos temas mais críticos para o país. A seguradora também desenvolve bolsas de estudo, protocolos com instituições públicas e iniciativas para ampliar o uso de dados climáticos na tomada de decisão.

Um dos pontos mais relevantes para o Brasil na criação de um laboratório como este é a discussão sobre compartilhamento de dados. Questionado sobre a resistência das seguradoras brasileiras em dividir informações, Esteves afirmou que é possível colaborar sem abrir mão de dados estratégicos. A proposta não é entregar bases de dados a concorrentes, mas compartilhar conhecimento, estudos e conclusões com universidades e órgãos públicos capazes de transformar informação em políticas de prevenção.

Na prática, isso significa usar o conhecimento acumulado pela seguradora para reduzir perdas antes que elas ocorram. Uma das ferramentas em desenvolvimento cruza previsões meteorológicas com a localização dos segurados para emitir alertas personalizados de risco de incêndio. Em vez de enviar avisos genéricos por região, a companhia pretende orientar diretamente clientes expostos a situações críticas.

O Impact Center reúne atualmente 24 iniciativas em diferentes estágios de desenvolvimento, selecionadas a partir de uma carteira inicial de cerca de 80 projetos. Embora tenha nascido em Portugal, o modelo pode ser levado às demais operações internacionais da Fidelidade na América Latina, incluindo Peru, Chile, Bolívia e Paraguai. O Brasil também poderia entrar nesse mapa caso o grupo avance no país no futuro.

Mais do que um projeto climático, a iniciativa mostra como a competição entre seguradoras globais está mudando. O diferencial já não está apenas em balanço, rede de distribuição ou capacidade de subscrição. Está também na habilidade de transformar dados em prevenção, conhecimento em produto, tecnologia em eficiência e parcerias em vantagem competitiva.

Ao ser questionado se esse tipo de iniciativa não seria papel de uma associação setorial, Rui Esteves afirmou que uma empresa pode ter mais agilidade para agir, testar soluções e mobilizar recursos. A ambição, segundo ele, é também influenciar outras seguradoras a desenvolver iniciativas semelhantes.

Para o Brasil, a provocação é direta. Se o país voltou ao radar de grandes grupos internacionais, também passa a exigir outro tipo de investidor. O novo ciclo de M&A em seguros tende a premiar companhias capazes de combinar capital, tecnologia, dados, talentos e visão de longo prazo. Nesse ambiente, o Brasil segue atrativo, mas seletivo. Como resumiu Rogério Campos Henriques, não é um mercado para amadores.

Denise Bueno
Denise Buenohttp://www.sonhoseguro.com.br/
Denise Bueno sempre atuou na área de jornalismo econômico. Desde agosto de 2008 atua como jornalista freelancer, escrevendo matérias sobre finanças para cadernos especiais produzidos pelo jornal Valor Econômico, bem como para revistas como Época, Veja, Você S/A, Valor Financeiro, Valor 1000, Fiesp, ACSP, Revista de Seguros (CNSeg) entre outras publicações. É colunista do InfoMoney e do SindSeg-SP. Foi articulista da Revista Apólice. Escreveu artigos diariamente sobre seguros, resseguros, previdência e capitalização entre 1992 até agosto de 2008 para o jornal econômico Gazeta Mercantil. Recebeu, por 12 vezes, o prêmio de melhor jornalista de seguro em concursos diversos do setor e da grande mídia.

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