A participação da Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg) na London Climate Action Week, encerrada nesta quinta-feira (25), marcou um novo avanço da estratégia brasileira de inserção do setor segurador nas principais discussões internacionais sobre mudanças climáticas, infraestrutura, inovação e desenvolvimento sustentável. Ao longo de quatro dias de agendas em Londres, executivos brasileiros participaram de fóruns com representantes do governo britânico, organismos multilaterais, seguradoras globais, resseguradoras, investidores e especialistas em clima, consolidando a percepção de que o seguro deixou de ser apenas um mecanismo de indenização para se tornar um instrumento estratégico de desenvolvimento econômico e adaptação às mudanças climáticas.
A missão ocorre em um momento de crescente protagonismo internacional do Brasil na agenda climática. Como lembrou o presidente da CNseg, Dyogo Oliveira, durante um dos eventos, as recentes temperaturas superiores a 35°C registradas em Londres mostram que os efeitos das mudanças climáticas já não são uma preocupação restrita aos países tropicais. Em tom descontraído, ele observou que “o mundo está se transformando em um grande Brasil: quente e úmido”, reforçando que os eventos extremos vêm alterando a percepção dos governos sobre a urgência da adaptação climática.
O principal compromisso institucional foi o 2º Fórum Brasil-Reino Unido de Seguros, realizado em parceria com a Association of British Insurers (ABI), resultado do memorando de entendimento firmado entre as duas entidades em 2024. O encontro reuniu autoridades dos dois países para discutir como o mercado segurador pode apoiar investimentos em infraestrutura, enfrentar os riscos digitais e ampliar a resiliência frente aos eventos climáticos extremos.
Na abertura, o embaixador brasileiro no Reino Unido, Antonio Patriota, resumiu o papel que o seguro vem assumindo na economia moderna. Segundo ele, seguros e resseguros são essenciais para reduzir incertezas e permitir investimentos em infraestrutura, energia, transporte, agronegócio e transformação digital. A presidente da ABI, Hannah Gurga, destacou que Brasil e Reino Unido enfrentam desafios semelhantes diante da transição climática e da transformação tecnológica, tornando a cooperação entre os mercados cada vez mais relevante. Já Dyogo Oliveira ressaltou que o Reino Unido continua sendo uma das principais referências para o mercado segurador brasileiro, tanto pelo desenvolvimento do setor quanto pela importância como fornecedor de capacidade de resseguro e investimentos.
Um dos temas centrais do fórum foi a necessidade de ampliar a participação do seguro nos projetos de infraestrutura. Os debates mostraram que o Brasil investe cerca de R$ 280 bilhões por ano em infraestrutura — aproximadamente 2,3% do PIB —, mas precisaria elevar esse volume em cerca de R$ 220 bilhões anuais para atender às necessidades de desenvolvimento. Nesse contexto, especialistas defenderam que o seguro desempenha papel decisivo ao oferecer previsibilidade para investidores de longo prazo, reduzir riscos de execução e viabilizar concessões e parcerias público-privadas. Também foi destacada a evolução do seguro garantia com cláusula de retomada, mecanismo considerado importante para reduzir o número de obras públicas paralisadas e aumentar a confiança do mercado.
As mudanças climáticas dominaram boa parte das discussões. No painel dedicado ao gerenciamento dos riscos climáticos, houve consenso de que governos, seguradoras e investidores precisarão atuar de forma muito mais integrada para enfrentar a crescente frequência de enchentes, secas, ondas de calor e outras catástrofes naturais. Executivos lembraram que apenas cerca de 10% das perdas provocadas por desastres naturais no Brasil são atualmente cobertas por seguros, o que amplia significativamente o chamado “gap de proteção”, obrigando famílias, empresas e o poder público a absorverem grande parte dos prejuízos.
Os participantes defenderam que o setor segurador pode contribuir muito além do pagamento de indenizações, fornecendo dados, modelos de risco, ferramentas de prevenção e instrumentos financeiros capazes de orientar políticas públicas. Entre as soluções debatidas estiveram títulos de catástrofe, seguros paramétricos, mecanismos de financiamento pré-desastre, compartilhamento de riscos entre setor público e privado e investimentos em infraestrutura resiliente. A experiência internacional demonstrou que esses instrumentos não apenas reduzem perdas futuras, mas também melhoram a classificação de risco dos países e facilitam o acesso ao financiamento.
Outro eixo relevante da missão foi o Insurance, Climate & Nature Dialogue, promovido pela CNseg em parceria com o Instituto Clima e Sociedade (iCS), reunindo representantes da OCDE, PNUD, instituições financeiras, consultorias e seguradoras globais. O encontro aprofundou a discussão sobre adaptação climática e destacou que os riscos associados ao clima já influenciam decisões de crédito, investimentos e precificação de ativos financeiros. Especialistas defenderam maior integração entre seguradoras, bancos, investidores e reguladores para transformar informações climáticas em métricas econômicas capazes de orientar investimentos e fortalecer a resiliência.
A agricultura apareceu como um dos setores mais vulneráveis às mudanças climáticas. Pesquisadores apresentaram estudos mostrando que práticas como agricultura regenerativa, conservação do solo e proteção da biodiversidade precisam ser incorporadas aos modelos de seguro, crédito e financiamento rural. Também ganhou destaque a ideia de que ativos naturais, como manguezais, áreas úmidas e florestas, devem ser reconhecidos como parte da infraestrutura de proteção econômica por sua capacidade de reduzir enchentes, ondas de calor e outros eventos extremos.
O diálogo também abordou mecanismos para ampliar os investimentos em adaptação climática. A avaliação predominante foi de que existe capital disponível no mercado internacional, mas faltam instrumentos capazes de reduzir a percepção de risco dos investidores. Nesse cenário, seguros, garantias, estruturas de compartilhamento de riscos e modelos híbridos de financiamento foram apontados como elementos fundamentais para destravar projetos de restauração ambiental, infraestrutura resiliente e soluções baseadas na natureza.
A transformação digital foi outro tema prioritário. No painel dedicado aos riscos cibernéticos, especialistas destacaram que a inteligência artificial vem ampliando tanto a produtividade quanto a exposição a novas ameaças digitais. O mercado brasileiro foi apresentado como um dos que mais evoluíram nos últimos anos em seguros cibernéticos, oferecendo atualmente coberturas comparáveis às dos mercados mais desenvolvidos. Os debatedores defenderam que o seguro cibernético deve ser entendido como um serviço permanente de gestão de riscos, incorporando prevenção, treinamento, monitoramento de ameaças e apoio especializado às empresas, especialmente pequenas e médias, mais vulneráveis aos ataques.
Ao longo da missão, um conceito apareceu de forma recorrente em praticamente todos os encontros: adaptação. Se durante muitos anos o foco das discussões internacionais esteve concentrado na redução das emissões de carbono, agora cresce o entendimento de que governos, empresas e instituições financeiras também precisam investir na capacidade de adaptação das economias aos impactos já inevitáveis das mudanças climáticas. Nesse novo cenário, o seguro passa a ser visto como um dos principais instrumentos para reduzir riscos, ampliar investimentos e acelerar a construção de economias mais resilientes.
Para a CNseg, a semana em Londres consolidou uma estratégia iniciada em 2023, com a participação brasileira nas conferências internacionais do clima, e que vem ampliando o espaço do mercado segurador nacional nos debates globais sobre desenvolvimento sustentável. A expectativa da entidade é aprofundar essa cooperação internacional nos próximos encontros multilaterais e levar para o Brasil experiências que contribuam para ampliar a cultura do seguro, reduzir o gap de proteção e fortalecer a capacidade do país de enfrentar os desafios impostos pelas mudanças climáticas.





















