O mercado segurador brasileiro está diante da maior transformação desde o surgimento das grandes seguradoras modernas. Essa é a principal conclusão do primeiro capítulo do relatório “Cognitive Insurance”, divulgado pela Distrito durante o AI Insurance Day 2026, realizado com apoio da filial brasileira do grupo japonês Sompo. O estudo inaugura uma série de quatro publicações que serão lançadas ao longo dos próximos meses e propõe uma mudança profunda na forma como o setor compreende, precifica e gerencia riscos.
A tese central do relatório é que a inteligência artificial não representa apenas mais uma etapa da digitalização dos seguros. Na avaliação da Distrito, a tecnologia inaugura uma nova infraestrutura econômica capaz de transformar o próprio conceito de seguro, permitindo que as companhias deixem de operar com base em estimativas estatísticas construídas a partir de dados históricos e passem a atuar sobre o risco real de cada cliente, em tempo quase contínuo.
O estudo parte de uma análise histórica para sustentar essa visão. Segundo o relatório, o setor atravessou quatro grandes eras ao longo de quase sete séculos. A primeira nasceu nas cidades mercantis do Mediterrâneo, entre os séculos XIV e XVIII, quando contratos eram firmados com base na confiança pessoal entre comerciantes e financiadores. Posteriormente, a industrialização deu origem às grandes seguradoras e consolidou a figura do corretor como elo entre companhias e consumidores. A terceira fase surgiu com a computação e a expansão dos modelos atuariais em larga escala, permitindo a segmentação massiva dos riscos.
Apesar das profundas transformações tecnológicas observadas ao longo desse período, a lógica central do seguro permaneceu praticamente inalterada. Em todas as eras, o setor continuou estimando o futuro a partir do comportamento passado de grupos de indivíduos. A chamada Cognitive Insurance seria a primeira ruptura efetiva desse paradigma.
“A Cognitive Insurance é a primeira era que quebra o denominador comum que acompanhou a indústria por séculos: operar sobre o risco estimado. Pela primeira vez torna-se tecnicamente viável trabalhar sobre o risco real de cada cliente e no momento em que ele acontece”, afirma o relatório.
A discussão ganha relevância especial no Brasil. O estudo destaca que o mercado nacional deverá arrecadar cerca de R$ 808 bilhões em 2026, equivalente a aproximadamente 5,8% do Produto Interno Bruto (PIB), mantendo a meta setorial de alcançar 10% do PIB até 2030. Ao mesmo tempo, o país convive com uma das maiores lacunas de proteção do mundo.
Dados citados pela Distrito mostram que apenas 7% das perdas econômicas registradas no Brasil são cobertas por seguros, o que coloca o país como o segundo pior resultado entre 14 mercados analisados pela Superintendência de Seguros Privados (Susep). Mais de 80% dos adultos brasileiros não possuem seguro de vida e menos de um quarto da frota de veículos conta com cobertura securitária.
Para os autores, esse paradoxo não decorre apenas de problemas de distribuição ou educação financeira. O diagnóstico é mais profundo: o modelo tradicional foi desenhado para atender consumidores que já conhecem seguros, possuem relacionamento com corretores e apresentam perfil econômico compatível com os produtos existentes. “A enorme população desprotegida não está fora do mercado por falta de necessidade, mas porque o modelo nunca foi estruturado para alcançá-la de forma economicamente viável”, sustenta o estudo.
É justamente nesse ponto que a inteligência artificial e as insurtechs ganham protagonismo. O relatório aponta que o avanço dos agentes autônomos de IA, combinado ao Open Insurance, à capacidade crescente de processamento de dados e ao desenvolvimento de modelos cognitivos, cria condições para uma nova geração de produtos mais personalizados, acessíveis e preventivos.
Em vez de interagir com o cliente apenas na contratação e no sinistro, as seguradoras passariam a acompanhar continuamente a evolução dos riscos. O conceito é chamado de “Continuous Insurance”, no qual a companhia lê, modela, precifica, previne e opera riscos de forma permanente.
Na prática, isso significa que a modelagem de risco se torna dinâmica, a subscrição passa a ser continuamente atualizada, os preços refletem o comportamento real dos segurados e a prevenção ganha protagonismo. O seguro deixa de ser apenas um instrumento de indenização e passa a atuar como uma plataforma ativa de gestão de riscos.
“A inteligência artificial marca uma mudança estrutural no setor de seguros, ao viabilizar a transição de modelos baseados em médias para uma gestão contínua, personalizada e orientada ao risco real. Essa evolução reposiciona o seguro como uma ferramenta estratégica de gestão e transferência de riscos, mais conectada às necessidades de cada cliente. Ao ampliar a capacidade de atuar já no suporte à prevenção, com base em dados e comportamentos de cada cliente, a indústria cria condições para contribuir mais efetivamente para que a sociedade esteja preparada para fazer frente aos impactos que os riscos emergentes devem trazer nos próximos anos”, afirma Alfredo Lalia Neto, CEO da Sompo.
O estudo também projeta mudanças significativas para a cadeia de distribuição. Ao contrário das previsões que apontam para a desintermediação, a Distrito argumenta que a inteligência artificial tende a fortalecer o papel do corretor. Com atividades operacionais sendo executadas por agentes digitais, os profissionais poderão concentrar esforços na consultoria, no relacionamento e na construção de confiança.
Essa visão dialoga diretamente com o ecossistema de insurtechs brasileiro, considerado um dos mais desenvolvidos da América Latina. Nos últimos anos, as startups de seguros concentraram esforços em digitalização, distribuição, embedded insurance, automação de sinistros e personalização de produtos. Agora, segundo o relatório, surge uma nova fronteira de inovação baseada na construção de infraestruturas cognitivas capazes de aprender continuamente com dados, clientes e operações.
Nesse cenário, a competição tende a se ampliar para além das seguradoras tradicionais. Empresas de saúde, montadoras, varejistas e companhias de telecomunicações já possuem acesso a dados comportamentais e relacionamentos permanentes com milhões de consumidores, ativos considerados estratégicos para o desenvolvimento dos novos modelos cognitivos.
Para a Distrito, a vantagem competitiva do futuro não estará simplesmente na posse dos dados, mas na capacidade de transformá-los em inteligência aplicada. O estudo cita ainda o avanço do Open Insurance como um fator acelerador dessa transformação, ao permitir que o cliente compartilhe suas informações entre diferentes instituições mediante consentimento.
Do ponto de vista prático, a Sompo já vem avançando na incorporação dessas tecnologias em sua operação. “Na Sompo, já incorporamos inteligência artificial e automação em processos-chave como subscrição, precificação e análise de riscos, sempre com foco em gerar valor concreto para o cliente. Nosso objetivo é evoluir para um modelo cada vez mais proativo e consultivo, em que tecnologia, corretores e especialistas atuem de forma integrada para oferecer soluções mais aderentes, eficientes e alinhadas à realidade de cada operação”, diz Lalia Neto.
O primeiro capítulo da série conclui que a indústria seguradora entrou em uma nova fase de desenvolvimento e que a questão deixou de ser se o setor irá mudar. O desafio agora é definir quais empresas liderarão essa transição e quais permanecerão apenas adicionando camadas de inteligência artificial sobre modelos concebidos para uma realidade anterior.





















