Juliana Alves, da Swiss Re, conecta capital, risco e disciplina técnica no resseguro

CEO da Swiss Re no Brasil, executiva defende rigor na subscrição, uso responsável de IA e patrocínio ativo para ampliar a presença feminina na alta liderança

Chegar ao cargo de CEO em um setor historicamente dominado por homens representa, para Juliana Alves, mais do que uma conquista individual. “Foi, ao mesmo tempo, um marco pessoal e uma afirmação coletiva”, afirma. No plano pessoal, a posição consolida anos de trabalho consistente, aprendizado contínuo, resiliência e construção de networking corporativo. No âmbito profissional, reflete uma trajetória pautada por credibilidade técnica, consistência nas entregas e capacidade de liderar times diversos em momentos de transformação — uma competência central em seguros e resseguros.

A experiência como mulher, esposa e mãe moldou profundamente seu estilo de liderança. “Isso aguçou minha capacidade de priorizar, ouvir e tomar decisões com uma visão de longo prazo”, diz. Juliana lidera com senso de responsabilidade, empatia e clareza, combinando disciplina e adaptabilidade — qualidades que considera inestimáveis em ambientes complexos e voláteis. Ao longo do caminho, também fez as pazes com uma constatação pragmática: “Não existe um equilíbrio romântico entre vida pessoal e profissional. O que existe é priorizar e aceitar que, para entregar algo, será necessário renunciar a outras coisas.”

Apesar dos avanços na agenda de diversidade, Juliana identifica que o principal gargalo permanece na progressão de carreira. “As barreiras mais evidentes surgem nos níveis intermediário e sênior”, afirma, quando exposição, participação em projetos estratégicos e presença em fóruns decisórios passam a ser determinantes. Os vieses, segundo ela, continuam aparecendo de forma sutil — na avaliação de potencial, na percepção sobre disposição ao risco e na interpretação de disponibilidade.

Para acelerar o progresso, a executiva defende uma virada estrutural. “As empresas precisam ir além de iniciativas simbólicas”, diz. Isso inclui desempenho orientado a resultados, flexibilidade real e patrocínio intencional de talentos femininos. Em nível setorial, transparência nos pipelines de liderança, responsabilização por metas de diversidade e a presença visível de mulheres como referências são essenciais. “Diversidade não acontece por acaso — exige estrutura, métricas e comprometimento da liderança.”

O networking corporativo aparece como um fator decisivo — e desigual. “Grande parte dessas redes exige dedicação fora do horário de trabalho”, observa, lembrando que, sem uma rede de apoio, a participação se torna inviável para muitas mães. Juliana amplia o debate para o desenho institucional: “Enquanto a licença parental for desbalanceada, a expectativa cultural de interrupção da carreira seguirá recaindo sobre as mulheres.” Para ela, a mudança precisa envolver todo o ecossistema — empresas, políticas públicas e cultura organizacional.

Olhando para 2026, Juliana vê riscos climáticos e riscos secundários remodelando subscrição e gestão de portfólios. Ela cita estudo recente do Swiss Re Institute que aponta que furacões severos e terremotos podem levar as perdas seguradas globais a US$ 300 bilhões ou mais em um ano de pico, reforçando a necessidade de o capital de resseguro acompanhar o crescimento das exposições. “É essencial manter disciplina técnica para que o setor continue cumprindo seu papel de transferência de riscos.”

No Brasil, o primeiro ano sob a nova Lei de Seguros e regras revisadas da Susep deve trazer desafios operacionais, com prazos mais rigorosos em subscrição, emissão e regulação de sinistros — pressionando margens e exigindo ajustes de sistemas e processos. Em paralelo, a inteligência artificial e as análises avançadas deixam a fase de experimentação para se integrar à tomada de decisão em subscrição, sinistros e relacionamento com clientes. “Os primeiros adotantes definirão o ritmo de um mercado mais sofisticado e orientado por dados”, afirma.

A estratégia, segundo Juliana, é combinar tecnologia com julgamento humano. “Investimos em dados, analytics e ferramentas de IA, ao mesmo tempo em que fortalecemos governança, cultura de riscos e desenvolvimento de talentos.” Em 2024, a Swiss Re adotou o Copilot® e passou a incorporar capacidades do OpenAI® em processos selecionados, com padrões rigorosos de proteção de dados e conformidade com a LGPD, ampliando agilidade e transparência nas decisões.

Para mulheres que aspiram a cargos executivos, Juliana é direta: excelência técnica é necessária, mas não suficiente. Pensamento estratégico, letramento financeiro e capacidade de influenciar transversalmente serão críticos. “Busquem posições com responsabilidade por P&L, proximidade com o risco e exposição a tomadores de decisão — mesmo quando parecer desconfortável.” O conselho central é protagonismo. “Não espere estar pronta o suficiente. Poucos líderes se sentem.”

Se pudesse voltar ao início da carreira, deixaria uma mensagem clara: “Você não precisa se encaixar em um molde para liderar; pode redefini-lo.” Construir confiança por meio da competência, declarar ambições, buscar mentores e preparar-se para o próximo passo — mesmo sem saber quando ele virá — são, para ela, estratégias decisivas. “Liderança não é sobre perfeição, mas sobre impacto.”

Denise Bueno
Denise Buenohttp://www.sonhoseguro.com.br/
Denise Bueno sempre atuou na área de jornalismo econômico. Desde agosto de 2008 atua como jornalista freelancer, escrevendo matérias sobre finanças para cadernos especiais produzidos pelo jornal Valor Econômico, bem como para revistas como Época, Veja, Você S/A, Valor Financeiro, Valor 1000, Fiesp, ACSP, Revista de Seguros (CNSeg) entre outras publicações. É colunista do InfoMoney e do SindSeg-SP. Foi articulista da Revista Apólice. Escreveu artigos diariamente sobre seguros, resseguros, previdência e capitalização entre 1992 até agosto de 2008 para o jornal econômico Gazeta Mercantil. Recebeu, por 12 vezes, o prêmio de melhor jornalista de seguro em concursos diversos do setor e da grande mídia.

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