Apesar dos desafios, o setor global de seguros entra nessa nova fase a partir de uma posição robusta. Vetores estruturais — como juros longos elevados, transformação demográfica e inovação tecnológica — continuarão sustentando a rentabilidade. O setor permanece bem capitalizado e resiliente, com índices de solvência acima de 200% e forte liquidez.
Os prêmios globais de seguros devem crescer 2,3% em termos reais em 2026 e 2027. No ramo não-vida, o crescimento real deve desacelerar para 1,7% e depois se recuperar para 2,5% em 2027. A rentabilidade continuará sólida, com ROE em torno de 10,5%, apoiado por retornos de investimento estruturalmente elevados (4,3%) e disciplina de underwriting.
No setor de vida, os prêmios globais crescerão 2,5% ao ano, acima dos 2,2% de 2025. Juros longos maiores sustentarão a renda de investimentos e reforçarão a rentabilidade, com o retorno sobre investimentos do setor chegando a 4% em 2027. O volume global de prêmios de vida deve atingir US$ 4,1 trilhões até 2027, representando 44% do mercado total.

A economia global entra em uma nova fase de expansão fiscal e predominância da política industrial. Embora políticas fiscais e monetárias acomodatícias suavizem o impacto das tarifas comerciais sobre o crescimento, o Swiss Re Institute aponta que isso ocorre ao custo de uma inflação estruturalmente mais elevada e de uma crescente carga de endividamento. Segundo o relatório sigma “Shifting Sands”, o crescimento real do PIB global deve permanecer estável a partir de 2025, porém abaixo da média de 3,1% registrada na década pré-pandemia.
“A política industrial está reescrevendo as regras da economia, a IA está acelerando, o crescimento parece sólido, mas o ciclo de crédito mostrará quão firme ele realmente é. O movimento de reindustrialização e a transformação tecnológica impulsionam a atividade e sustentam o núcleo do underwriting, mas os números de crescimento mascaram fragilidades estruturais que virão à tona quando o ciclo de crédito virar. No curto prazo, esperamos que a economia atravesse um período mais fraco, com tarifas ainda pressionando preços nos EUA e exportações no mundo”, disse Jérôme Jean Haegeli, economista-chefe do Grupo Swiss Re e diretor do Swiss Re Institute.
O fortalecimento da política industrial entre as prioridades de governos é uma das mudanças estruturais de longo prazo em curso. O risco crescente de “dominância fiscal” — quando bancos centrais priorizam a estabilidade da dívida em detrimento da estabilidade de preços —, somado a gastos industriais persistentes, manterá a inflação acima dos níveis anteriores a 2020, sustentando juros longos mais elevados.
Nos EUA, o crescimento real do PIB deve moderar para 2% em 2026 e 1,9% em 2027. Na zona do euro, estímulos fiscais — especialmente o programa de investimentos de 1 trilhão de euros da Alemanha — devem impulsionar o crescimento (2026: 1,3%; 2027: 1,5%). Na China, o PIB deve desacelerar para 4,5% em 2026 e 4,2% em 2027, com consumo doméstico fraco, desafios no setor imobiliário e, ainda assim, um posicionamento de política econômica mais acomodatício. A Ásia emergente seguirá resiliente, apoiada por regimes monetários mais flexíveis e pelo redirecionamento de fluxos comerciais em um mundo mais fragmentado.
Mudanças estruturais redesenham o mercado de seguros
A política industrial voltou ao centro das estratégias econômicas nacionais. O número de intervenções governamentais em setores industriais triplicou desde 2012, alimentando uma corrida global por liderança tecnológica e manufatureira.
Embora essa reorganização política e econômica estimule investimentos domésticos — especialmente em semicondutores, infraestrutura de IA e defesa —, ela também aumenta os riscos de fragmentação e de concentração. A política industrial busca resiliência, mas pode gerar ineficiências à medida que empresas aceleram a regionalização de cadeias de suprimentos, operações produtivas e fontes de fornecimento. Para seguradoras, isso significa maior demanda em linhas de engenharia, property e responsabilidade civil, mas também exposições mais correlacionadas quando ocorrem choques.
O envelhecimento populacional está transformando mercados de trabalho, padrões de consumo e necessidades de proteção. A demanda migra de produtos de proteção familiar para soluções de longevidade, renda de aposentadoria e saúde — pressionando seguradoras a inovar e ampliar coberturas ao longo de ciclos de vida mais longos. O envelhecimento também altera a gestão de ativos e passivos, exigindo maior duration e reforçando a importância do planejamento de solvência de longo prazo.
IA: oportunidade e desafio
A inteligência artificial está gerando mudanças diretas nas operações ao longo de toda a cadeia de valor dos seguros de vida e não-vida. O Swiss Re Institute estima que, em 2025, entre 3% e 8% dos orçamentos de TI do setor já estejam destinados ao desenvolvimento de capacidades em IA — em busca de ganhos de eficiência, economia de tempo e melhorias nos fluxos de trabalho. Porém, menos de 5% das seguradoras (em uma amostra de 187 grandes grupos) divulgaram qualquer impacto financeiro mensurável.
No curto prazo, os autores do sigma não esperam disrupções significativas no mercado de trabalho, já que a maioria das seguradoras busca aumentar a produtividade da força humana, e não substituir totalmente processos por automação. Um dos principais desafios será modelar e precificar riscos sem precedentes históricos, ao mesmo tempo em que aproveitam o potencial da IA para melhorar underwriting, sinistros e produtividade.


















