Do risco ao planejamento: como seguros, ciência e municípios estão moldando a resiliência climática 

Conhecer o risco é o primeiro passo para evitá-lo. E o Brasil não pode mais caminhar às cegas diante dos eventos climáticos extremos. Essa foi a mensagem central de Dyogo Oliveira, presidente da CNseg (Confederação Nacional das Seguradoras), na abertura do “Fórum Cidades Resilientes na COP30”, realizado na tarde desta quarta-feira (19), na Casa do Seguro, em Belém (PA), durante a Conferência do Clima. 
 

O evento, promovido pela CNseg em parceria com a Confederação Nacional de Municípios (CNM), reuniu lideranças para discutir como a cooperação entre governos, mercado segurador e sociedade pode transformar os desafios climáticos em oportunidades, promovendo cidades mais preparadas e adaptadas para a transição climática.
 

Na abertura, Dyogo Oliveira anunciou o lançamento da Ferramenta de Avaliação de Riscos Climáticos, uma solução digital desenvolvida pela CNseg para calcular o risco de inundação de qualquer endereço do país a partir do CEP. A ferramenta, que futuramente estará aberta ao público, cruza dados de diversas bases oficiais e gera um score de risco. “É uma contribuição concreta para que as pessoas entendam a exposição em que vivem e possam agir preventivamente”, destacou. Ele também reforçou a proposta da CNseg de criação de um seguro social de catástrofe, que pode garantir indenizações emergenciais para famílias afetadas por enchentes e deslizamentos.
 

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Nélio Aguiar, diretor da CNM

Em sua fala, Dyogo reforçou que, entre 2022 e 2024, o Brasil sofreu mais de R$ 200 bilhões em perdas econômicas decorrentes de eventos climáticos extremos. O número de ocorrências quase dobrou em uma década, passando de 2.500 para 4.500 por ano. Para o representante da CNseg, enfrentar riscos dessa magnitude exigirá cooperação contínua entre governo, setor segurador e sociedade. “Não se trata de infraestrutura. Trata-se de proteger vidas”, afirmou.
 

O alerta dos municípios

Representando a CNM, Nélio Aguiar trouxe a perspectiva urgente de quem vive o impacto das mudanças climáticas no cotidiano das cidades. Ele destacou que, nos últimos 12 anos, os municípios acumularam R$ 700 bilhões em prejuízos com desastres naturais. 
 

Apenas nos primeiros quatro meses de 2025, já são R$ 28,5 bilhões, com 115 mortes, milhares de desabrigados e desalojados em todo o país. Aguiar defendeu mais estrutura, tecnologia e autonomia para os municípios, além da criação de instâncias nacionais de coordenação, como a PEC 31/2024, que institui o Conselho Nacional de Gestão Climática e Prevenção de Desastres. Ao elogiar o lançamento da ferramenta da CNseg, Aguiar reforçou: “Gestores precisam de indicadores na palma da mão para tomar decisões certas, especialmente em emergências”.​
 

A visão do Ministério das Cidades

O ministro das Cidades, Jader Barbalho Filho, destacou a urgência de inserir gestores municipais, prefeitos e lideranças comunitárias no centro das decisões climáticas. Para ele, nenhum plano será efetivo se aqueles que executam as políticas na ponta não estiverem envolvidos desde o início. “Sem os líderes locais, não há implementação possível”, afirmou, lembrando que 87% da população brasileira vive em áreas urbanas e que a crise climática exige tanto a redução do desmatamento quanto a diminuição das emissões que partem das cidades. 
 

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Jader Barbalho Filho, ministro de Estado do Ministério das Cidades


O ministro reforçou as ações do Governo Federal em prevenção, como obras de macrodrenagem e contenção de encostas, e defendeu que a COP30 seja simultaneamente a “COP das florestas” e a “COP das cidades”. Ele destacou experiências internacionais e o papel crescente de governadores e prefeitos no combate à crise climática, afirmando que o Brasil também precisa fortalecer esse protagonismo. “O planeta pede urgência”, concluiu.​
 

Do planejamento à prática: resiliência, seguros e soluções inteligentes

No painel “Para inspirar: do planejamento à prática – resiliência, seguros e soluções inteligentes”, o moderador Paulo Nobre, climatologista do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), abriu a discussão lembrando que a ciência já aponta um futuro de extremos mais intensos e frequentes. Ele sintetizou o desafio em uma frase que guiou o debate. “A adaptação é local, cidade a cidade, bacia hidrográfica a bacia hidrográfica.”​
 

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Painel 1- Para Inspirar: Do Planejamento à Prática – Resiliência, Seguros e Soluções Inteligentes no Contexto das Mudanças Climáticas

A prefeita Elisângela Paiva Celestino, de Concórdia do Pará (PA), destacou a dificuldade de municípios de pequeno porte em acessar financiamento, estruturar equipes técnicas e realizar ações preventivas. Ela apresentou iniciativas de seu município, como a criação de uma unidade de conservação, o projeto do primeiro bairro sustentável da Amazônia e programas de reaproveitamento de resíduos, exemplos que conectam preservação ambiental, gestão urbana e resiliência climática.​
 

O prefeito Luiz Carlos de Aguiar Leite, de Anapu (PA), enfatizou o uso do mapeamento georreferenciado para identificar áreas vulneráveis e planejar a realocação de famílias expostas a enchentes. Também apresentou o modelo local de desenvolvimento baseado em pequenas indústrias do cacau, energia solar e fundos comunitários, combinando geração de renda, conservação da floresta e adaptação às mudanças climáticas.​
 

Na sequência, a diretora Inamara Santos Mélo, do Departamento de Políticas para Adaptação e Resiliência do Ministério do Meio Ambiente (MMA), detalhou a estratégia federal por meio do programa Adapta Cidades, que já envolve 581 municípios e tem como meta alcançar 2 mil até 2035. Ela defendeu a inclusão do seguro como instrumento essencial na agenda de adaptação. “Precisamos incorporar o seguro às políticas públicas para ampliar a capacidade adaptativa das cidades”, disse.
 

Encerrando a perspectiva internacional, Swenja Surminski, diretora de Clima e Sustentabilidade da Marsh McLennan, reforçou que resiliência deixou de ser escolha e passou a ser necessidade. Ela destacou que 22% da população urbana da América Latina já vive sob risco de enchentes, uma porcentagem que pode chegar a 30% com o aquecimento global. Swenja também mostrou como dados, modelagem de risco e seguros paramétricos estão permitindo soluções mais eficientes e acessíveis. Para ela, “não se trata mais de risco, mas de realidade”, e países que não tratarem a resiliência como investimento arcarão com custos muito maiores no futuro.​
 

Estratégias municipais para infraestruturas resilientes

Mediado por Pedro Werneck, gerente de Sustentabilidade da CNseg, o painel “Planejar, construir e cuidar: estratégias municipais para infraestruturas resilientes” reuniu especialistas para discutir como transformar planejamento urbano, governança e engenharia em respostas concretas diante do avanço dos eventos climáticos extremos. 
 

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Painel 2- Planejar, Construir e Cuidar: Estratégias Municipais Para a Promoção de Infraestruturas Resilientes

Pedro abriu o debate destacando a importância dos dados preditivos para políticas públicas mais eficazes e lembrou que a nova ferramenta de avaliação de riscos climáticos da CNseg amplia o acesso à informação. “Dados preditivos deixaram de ser opção. São condição para qualquer estratégia séria de adaptação.” ​
 

A gerente de Sustentabilidade e Resiliência da CNM, Cláudia Lins, enfatizou que o maior desafio dos municípios é estruturar diagnósticos consistentes em meio à falta de dados locais, equipes técnicas reduzidas e ausência de financiamento estável. Ela lembrou que muitos gestores ainda dependem de séries históricas que já não refletem o clima atual. “Não existe planejamento sem diagnóstico e não existe diagnóstico sem dados que dialoguem com a realidade de cada território”, afirmou, reforçando a importância do federalismo climático e da inclusão dos municípios na formulação das políticas nacionais.

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Já Karla França, analista de Planejamento Territorial e Habitação da CNM, destacou que apenas 50% dos municípios brasileiros possuem plano diretor e, mesmo entre esse grupo, poucos incorporam diretrizes climáticas. Ela citou a fragilidade dos códigos de obras, a ausência de governança urbana qualificada e a dificuldade das cidades pequenas e médias em adaptar normas e instrumentos para a lente climática. Karla trouxe exemplos de municípios que avançaram ao integrar soluções baseadas na natureza, revisar instrumentos urbanísticos e atuar em consórcios. “Sem planejamento, não há resiliência; e sem financiamento, planejamento não sai do papel”, sintetizou.​
 

Encerrando o painel, Haiany Cristina Ribeiro de Miranda, especialista em Engenharia Ambiental da Nippon Koei (Tokio), apresentou tecnologias promissoras para o contexto brasileiro, como modelagens hidrológicas de alta resolução, integração de GIS e BIM, sensores IoT e sistemas de alerta precoce. 
 

Ela destacou a importância de adaptar soluções internacionais às realidades locais e lembrou que o Brasil ainda investe muito mais em reconstrução do que em prevenção. “O país dedica 70% dos recursos ao pós-desastre e apenas 2% à prevenção. Precisamos inverter essa equação.”​
 

Capacitação e governança para lidar com extremos climáticos

O último painel do dia, “A capacidade municipal de enfrentamento de desastres e o desafio dos extremos climáticos”, trouxe uma discussão pragmática sobre a pergunta que norteou toda a tarde: como preparar municípios para enfrentar desastres que já não são exceção, mas rotina?
 

Sob a mediação de Luciana Dall’Agnol, superintendente de Sustentabilidade da CNseg, o painel debateu estratégias reais de reforço institucional. Luciana destacou a mudança de paradigma do setor de seguros, afirmando que “o setor de seguros tem trazido para si a responsabilidade de se colocar em um posicionamento estratégico nessa agenda de clima”.​
 

A analista de Defesa Civil da CNM, Ingrid Ferreira Lima, trouxe à mesa números que revelam o tamanho do desafio. Estudo recente da Confederação mostrou que 12% dos municípios não executam nenhuma ação exclusiva de Defesa Civil, enquanto 70% contam com orçamento de até R$ 50 mil para prevenção e resposta, valor insuficiente para cumprir as 18 obrigações previstas na Política Nacional de Proteção e Defesa Civil. 
 

Para agravar o quadro, 43% das Defesas Civis municipais têm apenas três servidores para gerir todas as etapas, da prevenção à reconstrução. “Um Brasil só será resiliente quando os municípios forem resilientes”, afirmou Ingrid, reforçando a urgência de mais recursos, capacitação e protagonismo local.​
 

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Painel 3 – A Capacidade Municipal de Enfrentamento de Desastres e o Desafio dos Extremos Climáticos

A urbanista Leticia Sabino, diretora-presidente do Instituto Caminhabilidade, focou na relação entre planejamento urbano, desigualdade e vulnerabilidade climática. Ela criticou o modelo urbano centrado no automóvel e defendeu a caminhabilidade como eixo de mitigação e adaptação. “O planejamento que fizemos até agora não funciona. Adaptar as cidades significa colocar as pessoas no centro e reduzir distâncias”, disse, apresentando exemplos de Paris, Seul e iniciativas brasileiras em Fortaleza e Sobral. Para Leticia, soluções descentralizadas, de escala de bairro, são fundamentais para proteger mulheres, crianças, idosos e moradores das periferias, grupos que mais caminham e os que mais sofrem com calor extremo, enchentes e infraestrutura precária.​
 

Na perspectiva institucional e financeira, Larissa Menescal, especialista em Políticas Públicas da InREDE, e Jardel Luís Carpes, diretor de Riscos da Caixa Econômica Federal, convergiram na mesma conclusão: sem integração e governança, nenhuma estratégia se sustenta. 
 

Larissa destacou os gargalos de fragmentação e descontinuidade, defendendo institutos de planejamento capazes de articular diferentes áreas e transformar dados em ação concreta. “Nunca tivemos tantos dados — o desafio agora é fazer com que eles orientem decisões no território.” Jardel, por sua vez, apresentou instrumentos como o FEP e o novo Fundo Garantidor de Crédito para PPPs (FGC 3P), lançado na COP30, que ampliam a capacidade dos municípios de acessar financiamentos de resiliência. Para ele, o futuro depende de coordenação econômica: “Precisamos equilibrar os incentivos para que a adaptação seja viável para todos.”

Denise Bueno
Denise Buenohttp://www.sonhoseguro.com.br/
Denise Bueno sempre atuou na área de jornalismo econômico. Desde agosto de 2008 atua como jornalista freelancer, escrevendo matérias sobre finanças para cadernos especiais produzidos pelo jornal Valor Econômico, bem como para revistas como Época, Veja, Você S/A, Valor Financeiro, Valor 1000, Fiesp, ACSP, Revista de Seguros (CNSeg) entre outras publicações. É colunista do InfoMoney e do SindSeg-SP. Foi articulista da Revista Apólice. Escreveu artigos diariamente sobre seguros, resseguros, previdência e capitalização entre 1992 até agosto de 2008 para o jornal econômico Gazeta Mercantil. Recebeu, por 12 vezes, o prêmio de melhor jornalista de seguro em concursos diversos do setor e da grande mídia.

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