Inteligência artificial avança nas seguradoras, mas executivos divergem sobre resultados, revela BlackRock

Pesquisa global mostra que 73% dos executivos de alta direção relatam aplicações de IA em escala, ante 51% dos demais gestores; regulação, segurança cibernética e qualidade dos dados dificultam a expansão da tecnologia

A inteligência artificial já faz parte da operação das seguradoras, mas sua implementação não é percebida da mesma forma pelos diferentes níveis de gestão. Enquanto 73% dos executivos de alta direção afirmam que suas companhias possuem pelo menos uma aplicação de IA funcionando em escala, esse percentual cai para 51% entre diretores, vice-presidentes e outros executivos. A diferença de 22 pontos percentuais é um dos resultados da 15ª edição do Global Insurance Report, divulgado pela BlackRock em outubro de 2026.

O levantamento ouviu 463 executivos de seguradoras de 31 mercados, que representam mais de US$ 24 trilhões em ativos investíveis. A pesquisa revela que a tecnologia deixou de ser apenas uma promessa para começar a integrar atividades como subscrição, precificação, regulação de sinistros, prevenção a fraudes e conformidade regulatória. Entretanto, transformar experiências isoladas em processos permanentes ainda representa um desafio.

No conjunto da amostra, 60% dos participantes relatam pelo menos uma aplicação de inteligência artificial implementada em escala ou incorporada às operações. A diferença de percepção entre os níveis hierárquicos chama a atenção porque mostra que a avaliação sobre o estágio de adoção da tecnologia não é uniforme dentro da indústria.

O estudo não permite concluir que os presidentes das seguradoras estejam superestimando os resultados. Uma explicação possível é que os executivos de alta direção tenham uma visão mais abrangente dos projetos desenvolvidos em diferentes áreas, enquanto os gestores responsáveis pela operação acompanhem mais diretamente as dificuldades de implementação. A pesquisa também não compara necessariamente executivos de diferentes níveis dentro de uma mesma companhia.

Para Mark Erickson, estrategista global de seguros da BlackRock, o principal desafio agora é incorporar a tecnologia às atividades cotidianas. Na apresentação do relatório, ele observa que a discussão está deixando a fase de experimentação e passando para a implementação, o que exige integrar a IA aos processos e às decisões das seguradoras.

Subscrição e sinistros lideram a adoção

A pesquisa mostra que a inteligência artificial está mais avançada nas atividades diretamente relacionadas ao negócio de seguros. Entre os entrevistados, 54% relatam aplicações em escala ou operacionais em subscrição e precificação. Em sinistros, fraudes e atendimento, o percentual chega a 53%, enquanto conformidade regulatória e elaboração de relatórios aparecem com 52%.

Essas áreas concentram processos que dependem da análise de grandes volumes de informações, identificação de padrões e execução de tarefas repetitivas. Na subscrição, por exemplo, a tecnologia pode apoiar a avaliação de riscos e a definição de preços. Na regulação de sinistros, pode contribuir para organizar documentos, identificar inconsistências e apoiar a análise de pedidos de indenização.

A utilização da IA, entretanto, não significa necessariamente que as decisões sejam tomadas sem participação humana. A extensão da automação depende da natureza da atividade, das regras aplicáveis e dos mecanismos de supervisão adotados pelas companhias.

O contraste aparece quando a pesquisa examina a gestão dos investimentos. Embora 38% dos entrevistados relatem aplicações em escala na pesquisa de investimentos, o percentual cai para aproximadamente um terço na seleção de ativos e no monitoramento de crédito.

A diferença indica que o avanço da inteligência artificial não acontece na mesma velocidade em todas as funções das seguradoras. Atividades relacionadas à operação dos seguros apresentam maior disseminação, enquanto decisões financeiras que envolvem análise de crédito, seleção de investimentos e exposição a riscos ainda enfrentam barreiras para a adoção em escala.

Regulação e segurança são os principais obstáculos

Apesar do avanço da tecnologia, as seguradoras identificam dificuldades para ampliar sua utilização. A preocupação mais citada pelos participantes é a regulação e o cumprimento de exigências de conformidade, mencionada por 49% dos entrevistados.

Em seguida aparecem os riscos de segurança cibernética e operacionais, com 46%, a qualidade dos dados, com 45%, e a integração com os sistemas existentes, com 40%. O custo de implementação é citado por 24%, enquanto apenas 5% apontam a falta de apoio da alta administração ou dos conselhos como obstáculo.

Os resultados mostram que a resistência da liderança não figura entre os principais entraves. As dificuldades estão relacionadas à capacidade de utilizar informações confiáveis, proteger dados, integrar sistemas e assegurar que as aplicações atendam às exigências regulatórias.

O tamanho das companhias também influencia os desafios. Entre as seguradoras com ativos entre US$ 1 bilhão e US$ 10 bilhões, 46% apontam dificuldades de integração com os sistemas existentes. Nas empresas com mais de US$ 100 bilhões, esse percentual é de 24%. Por outro lado, as maiores companhias demonstram maior preocupação com segurança cibernética. O tema é citado por 57% delas, ante 38% entre as seguradoras de menor porte consideradas nessa comparação.

Investimentos em tecnologia devem continuar crescendo

A inteligência artificial permanece como a principal prioridade de investimento tecnológico das seguradoras pelo segundo ano consecutivo. Segundo a pesquisa, 62% dos participantes esperam que suas equipes de investimentos ampliem os gastos com IA nos próximos 12 meses.

A disposição para investir ocorre em um momento em que as companhias também estão revendo seus modelos operacionais. O relatório mostra que 84% das seguradoras adotam estruturas híbridas de gestão de ativos, combinando equipes internas e parceiros externos, enquanto 82% mantêm parcerias em pelo menos duas funções de negócios.

Nesse ambiente, a inteligência artificial passa a integrar uma discussão mais ampla sobre quais atividades devem permanecer dentro das seguradoras, quais podem ser executadas com parceiros especializados e como conectar diferentes sistemas e processos.

A mudança também exige avaliar os resultados dos investimentos tecnológicos. A existência de ferramentas de IA não significa, necessariamente, ganhos de produtividade ou redução de custos. Para que esses benefícios sejam demonstrados, é preciso acompanhar indicadores operacionais e financeiros, além da qualidade das decisões produzidas com apoio da tecnologia.

O desafio é transformar projetos em resultados

A diferença de percepção identificada pela BlackRock levanta uma questão para a gestão das seguradoras: como avaliar se uma aplicação de inteligência artificial realmente deixou a fase experimental e passou a produzir resultados consistentes?

O relatório sugere que o próximo estágio de desenvolvimento dependerá menos do anúncio de novas iniciativas e mais da capacidade de incorporar a tecnologia aos processos cotidianos. Para as seguradoras brasileiras, os resultados oferecem referências para discussões sobre modernização dos sistemas, gestão de dados, produtividade, atendimento aos segurados e relacionamento com corretores. O levantamento, porém, não apresenta resultados específicos para o Brasil que permitam medir o estágio de adoção da tecnologia no mercado nacional.

A pesquisa mostra que a inteligência artificial já está presente nas operações de parte relevante da indústria global de seguros. O desafio agora é assegurar que sua utilização avance de forma consistente, com controles adequados e resultados mensuráveis. A diferença entre a percepção da alta direção e a dos demais executivos reforça a importância de estabelecer critérios comuns para avaliar a implementação. Afinal, ter projetos de inteligência artificial em funcionamento é diferente de demonstrar que eles transformaram a operação de uma seguradora.

Denise Bueno
Denise Buenohttp://www.sonhoseguro.com.br/
Denise Bueno sempre atuou na área de jornalismo econômico. Desde agosto de 2008 atua como jornalista freelancer, escrevendo matérias sobre seguros, previdência, educação financeira, longevidade e saúde para o blog Sonho Seguro, do qual e fundadora, e para cadernos especiais produzidos pelo jornal Valor Econômico, bem como para revistas como Época, Veja, Você S/A, Valor Financeiro, Valor 1000, Revista de Seguros (CNSeg) entre outras publicações. É colunista do SindSeg-SP, entrevistadora em eventos e podcasts, bem como palestrante sobre temas diversos que envolvem o setor de seguros. Escreveu artigos diariamente sobre seguros, resseguros, previdência e capitalização entre 1992 até agosto de 2008 para o jornal econômico Gazeta Mercantil. Recebeu, por 17 vezes, o prêmio de melhor jornalista de seguro em concursos diversos do setor e da grande mídia.

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