Munich Re reforça alerta para aumento dos riscos climáticos e cibernéticos

Resseguradora destaca que perdas seguradas por catástrofes naturais na Europa crescem, em média, 5% ao ano desde 1980 e defende que capacidade financeira, conhecimento técnico e rapidez no pagamento de sinistros são essenciais diante de riscos cada vez mais complexos

O avanço das mudanças climáticas, a inflação dos custos de sinistros e a crescente exposição aos ataques cibernéticos estão tornando o ambiente de riscos mais complexo para as seguradoras. Nesse cenário, o resseguro tradicional continua sendo um dos principais pilares de sustentação do mercado, mesmo com o crescimento de fontes alternativas de capital. A avaliação é da Munich Re, que divulgou nesta quinta-feira, 15 de outubro, uma análise sobre os desafios enfrentados pelo setor e a importância de manter capacidade financeira para responder a grandes perdas.

Segundo a resseguradora alemã, períodos de menor ocorrência de catástrofes naturais não devem ser interpretados como uma redução estrutural dos riscos. Na Europa, as perdas seguradas provocadas por eventos climáticos extremos aumentaram, em média, 5% ao ano desde 1980, com aceleração desse crescimento na última década. A tendência é impulsionada tanto pela maior exposição de pessoas e ativos quanto pelos efeitos das mudanças climáticas.

“Períodos de menores perdas decorrentes de catástrofes naturais não podem levar à complacência em relação aos riscos futuros”, afirma Clarisse Kopff, integrante do Conselho de Administração da Munich Re e responsável pelas operações de resseguro de danos na Europa e na América Latina.

Para a executiva, as seguradoras precisam contar com parceiros capazes de oferecer proteção em diferentes momentos do ciclo de mercado, especialmente quando grandes eventos pressionam seus balanços. “Combinamos capacidade relevante com conhecimento técnico para compreender a evolução das exposições e responder quando as perdas ocorrem”, destaca.

Capital tradicional ganha relevância

A Munich Re chama a atenção para a evolução da relação entre o capital tradicional de resseguro e o capital alternativo, que inclui instrumentos de transferência de riscos para investidores do mercado financeiro.

Em 2017, o volume de capital tradicional era 3,5 vezes superior ao alternativo. Em 2026, essa relação se aproxima de quatro vezes, indicando que o resseguro tradicional continua sendo a principal fonte de capacidade para a proteção de carteiras diversificadas e riscos complexos.

A companhia argumenta que a capacidade de assumir riscos diretamente em seu balanço, sem depender necessariamente de operações de retrocessão, proporciona maior estabilidade na oferta de cobertura, inclusive em momentos de restrição de capital no mercado.

Um exemplo citado é o terremoto que atingiu a Turquia em 2023. Após a catástrofe, a Munich Re disponibilizou capital adicional para apoiar o mercado segurador. A companhia também destaca a velocidade no pagamento de indenizações após grandes eventos.

Nas enchentes provocadas pela tempestade Bernd, na Alemanha, alguns pagamentos às seguradoras cedentes foram realizados em poucas horas. O prazo médio foi de 4,4 dias, demonstrando a importância da liquidez oferecida pelo resseguro tradicional quando as companhias precisam honrar rapidamente seus compromissos.

Além das catástrofes naturais, a inflação dos custos de sinistros representa um desafio crescente para a rentabilidade das seguradoras. No seguro automóvel, por exemplo, os diferentes componentes de custos apresentam trajetórias bastante distintas, tornando insuficiente a utilização de índices gerais de inflação para ajustar preços.

Na Alemanha, entre 2017 e 2025, os custos de peças de reposição aumentaram, em média, 6,1% ao ano, enquanto as despesas médicas cresceram 4,4% anualmente. No mesmo período, o prêmio médio do seguro automóvel avançou apenas 2,2% ao ano.

Essa diferença evidencia o risco de deterioração das margens técnicas quando os preços dos seguros não acompanham a evolução efetiva dos custos de indenização.

Para enfrentar esse desafio, a Munich Re destaca o uso de ferramentas de análise avançada, como sua Insurance Analytics Platform, que utiliza inteligência artificial para enriquecer dados, analisar carteiras e apoiar decisões de precificação e gestão de riscos.

Segundo a companhia, a combinação de informações de diferentes mercados com análises específicas das carteiras permite identificar tendências e melhorar a qualidade das decisões de subscrição.

Riscos cibernéticos: 89% das empresas se consideram insuficientemente protegidas

O crescimento dos riscos cibernéticos é outro ponto central da análise. A Munich Re avalia que a inteligência artificial, as tensões geopolíticas e a crescente interdependência digital estão modificando tanto a frequência quanto a natureza dos ataques.

De acordo com a pesquisa Global Cyber Risk and Insurance Survey 2026, realizada pela resseguradora, 89% das empresas consideram que não estão adequadamente protegidas contra ameaças cibernéticas.

“A inteligência artificial, as tensões geopolíticas e as crescentes interdependências digitais estão transformando a frequência e a natureza dos riscos cibernéticos”, afirma Patrice Michellon, executivo-chefe da Munich Re para a Europa Continental.

O executivo observa que os custos econômicos do crime cibernético continuam aumentando, enquanto permanece expressiva a parcela de riscos sem cobertura securitária, inclusive nos mercados europeus.

A Munich Re considera que o desenvolvimento sustentável do seguro cibernético depende de investimentos contínuos em dados, modelagem e conhecimento técnico, especialmente diante das novas exposições relacionadas à inteligência artificial.

A aquisição da At-Bay é apresentada como exemplo dessa estratégia, ao combinar transferência de riscos, prevenção e serviços tecnológicos para ampliar o acesso à proteção cibernética.

Mudanças climáticas ampliam riscos para agricultura, energia e infraestrutura

Os riscos climáticos também ganham novas dimensões na Europa. Segundo a Munich Re, os chamados non-peak perils— eventos como tempestades severas, granizo, enchentes e outros fenômenos que, individualmente, podem ter menor intensidade do que grandes catástrofes — responderam por aproximadamente 70% das perdas seguradas por catástrofes naturais no continente nos últimos 20 anos.

A resseguradora cita como sinais do agravamento das condições climáticas as temperaturas registradas na França durante o verão de 2026, que ficaram 3,6 graus Celsius acima da média, e os incêndios florestais que atingiram uma área acumulada superior a 10 mil quilômetros quadrados na Europa em 2025.

Para Tobias Grimm, climatologista-chefe da Munich Re, a elevação das temperaturas provoca impactos que vão muito além das ondas de calor. “O aumento das temperaturas na Europa não apenas intensifica os riscos de calor e seca, mas também afeta as condições para incêndios florestais, a agricultura, a produção de energia e a infraestrutura de transportes”, explica.

O aquecimento da atmosfera também pode intensificar episódios de chuvas extremas e enchentes, enquanto alterações nas condições que favorecem tempestades convectivas severas podem influenciar a ocorrência de granizo.

A companhia destaca que o aumento da exposição econômica continua sendo um dos principais fatores por trás do crescimento das perdas. Por isso, defende maior investimento em prevenção, adaptação climática e precificação adequada dos riscos.

Na avaliação da Munich Re, o papel do ressegurador está deixando de ser associado apenas à disponibilização de capital para assumir uma função cada vez mais ampla na gestão dos riscos das seguradoras.

A combinação de capacidade financeira, conhecimento técnico, inovação, análise de dados e rapidez no pagamento de sinistros torna-se especialmente relevante em um ambiente no qual eventos climáticos, riscos tecnológicos e pressões econômicas podem produzir impactos simultâneos e interconectados.

“O mundo enfrenta riscos cada vez maiores. O resseguro tradicional combina capital confiável com profundo conhecimento técnico, soluções inovadoras para um cenário de riscos cada vez mais complexo e solidez financeira para pagar grandes sinistros quando eles ocorrem. Poucos conseguem oferecer essa combinação. A Munich Re consegue”, afirma Clarisse Kopff.

Para a companhia, a tendência de longo prazo de crescimento dos riscos permanece inalterada, independentemente de anos pontuais com perdas mais moderadas. A mensagem é que a estabilidade do mercado segurador dependerá cada vez mais da capacidade de antecipar exposições, investir em prevenção e garantir recursos para responder às grandes catástrofes.

Denise Bueno
Denise Buenohttp://www.sonhoseguro.com.br/
Denise Bueno sempre atuou na área de jornalismo econômico. Desde agosto de 2008 atua como jornalista freelancer, escrevendo matérias sobre seguros, previdência, educação financeira, longevidade e saúde para o blog Sonho Seguro, do qual e fundadora, e para cadernos especiais produzidos pelo jornal Valor Econômico, bem como para revistas como Época, Veja, Você S/A, Valor Financeiro, Valor 1000, Revista de Seguros (CNSeg) entre outras publicações. É colunista do SindSeg-SP, entrevistadora em eventos e podcasts, bem como palestrante sobre temas diversos que envolvem o setor de seguros. Escreveu artigos diariamente sobre seguros, resseguros, previdência e capitalização entre 1992 até agosto de 2008 para o jornal econômico Gazeta Mercantil. Recebeu, por 17 vezes, o prêmio de melhor jornalista de seguro em concursos diversos do setor e da grande mídia.

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