O mercado brasileiro de resseguros começa a mostrar os primeiros sinais de uma nova fase do ciclo, marcada por maior competição por negócios e pressão sobre preços, comissões e condições de contratação. Mesmo nesse ambiente, as resseguradoras locais encerraram o primeiro semestre de 2026 com lucro líquido de R$ 882,7 milhões, segundo a 47ª edição do Austral Report, elaborado pela Austral Re com dados da Superintendência de Seguros Privados (Susep).
O estudo chama a atenção justamente para o início de um “soft market”, período em que a maior oferta de capacidade e a disputa entre resseguradores tendem a aumentar a pressão competitiva. O movimento acontece depois de anos em que eventos extremos, pandemia e perdas relevantes no agronegócio contribuíram para condições mais duras de subscrição.
Em prêmios emitidos, o mercado local movimentou R$ 17,75 bilhões no primeiro semestre, praticamente o mesmo volume dos R$ 17,74 bilhões registrados em igual período de 2025. A estabilidade, porém, esconde movimentos importantes entre as companhias.
O IRB(Re) permanece com folga na liderança, com R$ 5,1 bilhões em prêmios emitidos. O volume, entretanto, caiu 11% frente aos R$ 5,72 bilhões do primeiro semestre de 2025. Com isso, sua participação recuou de 32,3% para 28,7%. O Austral Report relaciona parte da redução dos prêmios das resseguradoras locais à estratégia do IRB de direcionar negócios para operações no exterior.
Na segunda posição, a Austral Re ampliou os prêmios em 7%, de R$ 2,47 bilhões para R$ 2,64 bilhões, elevando sua fatia de mercado de 13,9% para 14,9%. A companhia mantém a vice-liderança conquistada em 2024 e preservada em 2025.
Uma das mudanças mais relevantes aparece na terceira colocação. A Munich Re avançou 14%, para R$ 1,86 bilhão, e elevou o market share de 9,2% para 10,4%, ultrapassando a Allianz. Esta registrou R$ 1,83 bilhão em prêmios, queda de 4%, com sua participação recuando de 10,8% para 10,3%. A Mapfre completa as cinco primeiras, com R$ 1,63 bilhão e 9,2% do mercado.
A fotografia mostra também uma desconcentração gradual do mercado. O histórico reunido pela Austral mostra que o IRB chegou a representar 58% dos prêmios ganhos das dez maiores resseguradoras em 2017. Em 2026, essa participação aparece em 25% nessa métrica, evidenciando a transformação competitiva ocorrida desde a abertura do resseguro brasileiro.

Automóvel dispara no resseguro
Por linhas de negócio, um dos movimentos mais expressivos veio do automóvel. Os prêmios de seguros do segmento cresceram 6%, para R$ 30,72 bilhões, enquanto os valores cedidos pelas seguradoras ao resseguro avançaram 63%, de R$ 1,27 bilhão para R$ 2,06 bilhões. Entre as resseguradoras locais, os prêmios relacionados ao ramo aumentaram 35%, alcançando R$ 1,26 bilhão. Segundo a Austral, esse crescimento do resseguro de automóveis está majoritariamente associado à Allianz.
Riscos Financeiros também apresentou expansão relevante. Os prêmios das seguradoras cresceram 24%, para R$ 6,35 bilhões, enquanto a cessão avançou 14%, para R$ 1,41 bilhão. Já os prêmios contabilizados pelas resseguradoras locais ficaram praticamente estáveis, em R$ 1,01 bilhão, com queda de 2%.
No sentido contrário aparece o Rural, ainda marcado pela volatilidade dos últimos anos. Os prêmios de seguros caíram 5%, para R$ 5,94 bilhões, enquanto a cessão ao resseguro recuou 23%, para R$ 1,24 bilhão. Nas resseguradoras locais, a retração foi de 22%, para R$ 509 milhões.
O Patrimonial, principal fonte de negócios para o resseguro, movimentou R$ 18,11 bilhões em prêmios de seguros no semestre, alta de 4%. As cessões chegaram a R$ 4,94 bilhões, crescimento de apenas 1%, enquanto os prêmios registrados pelas resseguradoras locais recuaram 5%, para R$ 2,74 bilhões.
Considerando todas as linhas analisadas pelo relatório, os prêmios das seguradoras brasileiras avançaram 6%, para R$ 104,63 bilhões, e as cessões de resseguro cresceram 7%, para R$ 13,86 bilhões. Em contraste, os prêmios correspondentes emitidos pelas resseguradoras locais recuaram 3%, para R$ 7,69 bilhões. A Austral ressalva que existe descasamento temporal entre as informações prestadas pelas seguradoras e pelas resseguradoras, o que explica parte da diferença entre os volumes.
Rentabilidade continua positiva
Apesar do ambiente mais competitivo, a rentabilidade permanece positiva. O lucro líquido acumulado em 12 meses até junho chegou a R$ 882,7 milhões, com ROAE de 8,6%. O resultado é inferior aos R$ 1,42 bilhão e ROAE de 14,7% registrados em 2025, mas mantém uma sequência positiva depois dos prejuízos observados entre 2020 e 2022.
O resultado operacional alcançou R$ 987,3 milhões, enquanto o resultado financeiro contribuiu com outros R$ 892,4 milhões. O relatório aponta uma melhora de R$ 282 milhões no resultado operacional e de R$ 197 milhões no financeiro em relação ao período anterior.
Também houve melhora no índice combinado das resseguradoras locais. Apesar de a sinistralidade ter aumentado seis pontos percentuais, a redução de nove pontos percentuais no resultado com retrocessão ajudou o índice combinado a cair para 94%, mantendo a operação abaixo da marca de 100%, referência importante para avaliar o equilíbrio técnico do negócio.
A posição de capital permanece confortável. O relatório calcula índice de suficiência de 279% para as resseguradoras locais, ante 183% das seguradoras no mesmo período. O patrimônio líquido das resseguradoras alcançou R$ 10,4 bilhões, enquanto o patrimônio líquido ajustado ficou em R$ 8 bilhões.
O quadro desenhado pelo Austral Report é, portanto, de um mercado que permanece capitalizado e lucrativo, mas entra em uma etapa de competição mais intensa. Para as resseguradoras, a disputa tende a se deslocar cada vez mais para preço, comissão e condições oferecidas às cedentes — justamente quando novas regras e o crescimento de riscos ligados a clima, infraestrutura, energia e grandes projetos ampliam as oportunidades para o resseguro no país.





















