O setor global de seguros está passando por uma transformação que envolve muito mais do que a oferta de produtos e a administração de riscos. As seguradoras estão modificando a forma de investir, administrar capital, contratar parceiros e utilizar tecnologia. É o que revela a 15ª edição do Global Insurance Report, divulgado pela BlackRock em 27 de outubro. A pesquisa ouviu 463 executivos de seguradoras de 31 mercados, responsáveis por mais de US$ 24 trilhões em ativos investíveis.
Um dos principais resultados mostra que 76% das seguradoras pretendem ampliar seus investimentos em mercados privados nos próximos 12 meses, enquanto 84% já adotam modelos híbridos de gestão de ativos, combinando equipes próprias e gestores externos. Ao mesmo tempo, 60% dos entrevistados afirmam que suas companhias possuem pelo menos uma aplicação de inteligência artificial em escala ou integrada às operações.
A pesquisa foi realizada entre junho e setembro de 2026 e revela uma indústria que procura novas fontes de retorno, mas mantém cautela diante das incertezas econômicas. A inflação continua sendo a principal preocupação macroeconômica, mencionada por 62% dos participantes. Já o receio de recessão caiu de 35%, em 2025, para 18% neste ano.
Apesar das preocupações, 61% dos executivos esperam uma desaceleração suave da economia global nos próximos 12 meses, cenário conhecido como soft landing, no qual a inflação recua sem provocar uma recessão significativa. A percepção, entretanto, varia entre as regiões. Na Europa, Oriente Médio e África, 75% acreditam nesse cenário, percentual que cai para 63% na América do Norte, 47% na Ásia-Pacífico e 40% na América Latina.
A disposição para assumir riscos permanece relativamente estável. Segundo a BlackRock, 82% das seguradoras pretendem manter o atual perfil de risco de seus investimentos. Entre essas companhias, 57% consideram que não existem oportunidades suficientes para justificar uma exposição maior, enquanto 50% buscam diversificar suas carteiras dentro dos limites de risco já estabelecidos.
Mercados privados ganham espaço nas carteiras
O avanço dos investimentos em mercados privados é uma das principais mudanças identificadas pela pesquisa ao longo dos últimos dez anos. Atualmente, 92% das seguradoras destinam pelo menos 5% de suas carteiras a esses ativos, enquanto mais de 40% já possuem alocações superiores a 15%.
Esses investimentos incluem modalidades negociadas fora dos mercados públicos tradicionais, como crédito privado, infraestrutura e participações em empresas. Para as seguradoras, podem representar alternativas de diversificação e geração de receitas de longo prazo, embora envolvam riscos de crédito, liquidez e avaliação dos ativos.
O crédito privado aparece como o segmento de maior interesse para novas alocações, citado por 41% dos entrevistados. Embora o percentual de seguradoras que pretendem ampliar investimentos privados tenha recuado de 94%, em 2025, para 76%, em 2026, a BlackRock interpreta o movimento como um sinal de amadurecimento. Em vez de simplesmente aumentar a exposição, as companhias estão mais seletivas na escolha dos ativos e na avaliação de sua compatibilidade com as obrigações futuras.
“Os mercados privados são uma parte consolidada das estratégias de investimento das seguradoras, mas o compromisso estratégico não significa comprar indiscriminadamente”, afirma Charles Hatami, diretor global do Financial & Strategic Investors Group e codiretor do Global Partners Office da BlackRock, em tradução livre de declaração divulgada pela gestora. Segundo ele, a questão deixou de ser apenas quanto investir e passou a envolver quais ativos e estruturas atendem melhor aos objetivos de receita, liquidez e capital de cada seguradora.
Seguradoras deixam de concentrar todas as atividades internamente
Outra transformação identificada pelo levantamento é a reorganização dos modelos operacionais. Em vez de concentrar todas as competências dentro da própria estrutura, as seguradoras estão ampliando a utilização de parceiros especializados.
Atualmente, 84% dos entrevistados descrevem sua gestão de ativos como híbrida, combinando capacidades internas e externas. Quase metade, 49%, pretende ampliar a utilização de gestores externos nos próximos 12 meses.
As parcerias também ultrapassam a administração de investimentos. Segundo o estudo, 82% das seguradoras mantêm relacionamentos com empresas externas em pelo menos duas funções de negócios, incluindo capital, estruturação de produtos, gestão de obrigações e distribuição.
Para Mark Erickson, estrategista global de seguros da BlackRock, as seguradoras procuram parceiros capazes de oferecer soluções que vão além da gestão de investimentos. “Para alcançar seus objetivos de longo prazo, as seguradoras estão analisando investimentos, capital e tecnologia de maneira integrada, para navegar em um ambiente operacional cada vez mais complexo”, afirma o executivo, em tradução livre.
A mudança indica que a competitividade das seguradoras dependerá não apenas da capacidade de assumir e administrar riscos, mas também da forma como combinam recursos próprios, tecnologia e parceiros de negócios.
Inteligência artificial avança, mas executivos discordam sobre resultados
A inteligência artificial ocupa posição central nas prioridades tecnológicas das seguradoras. De acordo com a BlackRock, 60% dos participantes relatam pelo menos uma aplicação de IA funcionando em escala ou incorporada aos processos de suas companhias.
O levantamento, entretanto, identifica uma diferença na avaliação do estágio de implementação. Entre os executivos que ocupam cargos de alta direção, conhecidos como C-level, 73% afirmam que suas empresas já possuem aplicações de IA em escala. Entre os demais executivos entrevistados, o percentual cai para 51%. A diferença sugere que a percepção sobre a maturidade tecnológica varia conforme a posição ocupada dentro das organizações.
As aplicações mais avançadas estão concentradas em atividades diretamente relacionadas à operação dos seguros, como subscrição, precificação, regulação de sinistros, prevenção a fraudes e conformidade regulatória. Na gestão de investimentos, a utilização ainda é menos disseminada. A BlackRock informa que apenas 3% dos entrevistados relatam aplicações de IA em escala ou incorporadas especificamente à seleção de investimentos e ao monitoramento de crédito.
O resultado mostra que a adoção da tecnologia não ocorre de maneira uniforme. Embora a IA já esteja presente em diferentes áreas das seguradoras, transformar projetos experimentais em processos permanentes e mensuráveis continua sendo um desafio.
Cada segmento enfrenta pressões diferentes
O estudo também destaca que não existe uma estratégia única para todas as seguradoras. As necessidades de investimento e capital variam conforme os produtos comercializados e a natureza das obrigações assumidas. Nas companhias de seguros de vida e anuidades, uma das prioridades é administrar compromissos financeiros de longo prazo e adequar a duração dos investimentos à dos passivos.
Nas seguradoras de danos e responsabilidades, a inflação e o aumento do custo dos sinistros exercem maior pressão sobre os resultados. Já as operadoras de saúde enfrentam desafios relacionados à utilização dos serviços e à evolução das despesas médicas.
No resseguro, ganham relevância os riscos de eventos extremos e perdas de baixa frequência, mas de elevado impacto financeiro. Essas diferenças ajudam a explicar por que seguradoras expostas ao mesmo cenário econômico podem adotar políticas distintas de investimento, capital e contratação de parceiros.
O que a pesquisa sinaliza para o setor
O relatório da BlackRock mostra uma indústria que procura equilibrar rentabilidade, gestão de riscos e eficiência operacional em um ambiente de maior complexidade. A ampliação dos investimentos em mercados privados exige atenção à liquidez e à compatibilidade entre ativos e obrigações. A expansão das parcerias altera a organização das companhias e aumenta a importância da integração entre diferentes fornecedores. Já a inteligência artificial começa a influenciar decisões que vão da aceitação de riscos ao pagamento de indenizações.
Para o mercado brasileiro, os resultados oferecem referências para discussões sobre gestão de capital, diversificação de investimentos, digitalização e relacionamento com parceiros e canais de distribuição. A pesquisa, porém, não apresenta uma amostra brasileira individualizada que permita afirmar que as seguradoras nacionais seguem as mesmas tendências na mesma intensidade.
A principal conclusão da BlackRock é que o setor está se tornando mais conectado, mas não necessariamente mais uniforme. As seguradoras estão construindo estratégias diferentes para enfrentar desafios comuns, combinando investimentos, capital, tecnologia e distribuição de acordo com suas necessidades.



























