Uma transformação estrutural nos sistemas deprevidência está redesenhando o mercado global de seguros de vida e criando novas oportunidades de negócios para seguradoras, bancos e consultores financeiros. Com a redução dos modelos tradicionais que garantem renda vitalícia, milhões de pessoas passam a assumir diretamente a responsabilidade pela administração de suas economias, pela geração de renda na aposentadoria e pelo planejamento da transferência de patrimônio aos herdeiros.
A mudança é analisada em um novo estudo sigma, divulgado nesta quinta-feira, 8 de outubro, pelo Swiss Re Institute. Segundo o relatório, a transição é particulamente evidente em mercados como Estados Unidos e Reino Unido, onde cresce o número de aposentados que optam por administrar seus próprios recursos, em vez de receber pagamentos garantidos ao longo da vida.
Embora amplie a liberdade de escolha, esse movimento também transfere para os indivíduos riscos financeiros que antes eram administrados por instituições. Entre os principais desafios estão determinar quanto dinheiro retirar das reservas, como preservar o patrimônio ao longo dos anos, de que forma proteger os familiares e como financiar despesas com cuidados de saúde e assistência na velhice.
Para o setor segurador, o novo cenário representa uma oportunidade de ampliar a oferta de produtos de proteção, previdência e planejamento financeiro. Ao mesmo tempo, intensifica a concorrência pela conquista dos consumidores, especialmente daqueles que estão nos anos imediatamente anteriores à aposentadoria.
“Os seguros de vida existem para ajudar as pessoas a enfrentar algumas das decisões financeiras mais importantes de suas vidas. Tornar os seguros mais fáceis de compreender e contratar pode ajudar na identificação das soluções adequadas”, afirma Velina Peneva, CEO de Resseguros de Vida e Saúde da Swiss Re.
Segundo a executiva, a combinação das competências de seguradoras, consultores, bancos e empresas de tecnologia pode ampliar o acesso à proteção e à segurança financeira no momento em que os consumidores mais precisam.
Mais liberdade para administrar recursos, mas também mais riscos
Os números apresentados pelo Swiss Re Institute ilustram a dimensão da transformação. Em um dos maiores planos de previdência dos Estados Unidos, mais da metade dos aposentados escolheu retirar os recursos e administrá-los por conta própria em 2018. Em 2000, apenas 10% haviam feito essa opção.
No Reino Unido, em 2024, 36% dos ativos previdenciários acessados pelos aposentados foram retirados em dinheiro, em vez de convertidos em renda vitalícia.
Estados Unidos — plano analisado
10%
Escolheram administrar os próprios recursos em 2000
Mais de 50%
Fizeram essa escolha em 2018
Reino Unido — 2024
36%
Dos ativos previdenciários acessados foram retirados em dinheiro, em vez de convertidos em renda vitalícia
Fonte: Swiss Re Institute, estudo sigma, outubro de 2026.
Essa mudança exige decisões cada vez mais complexas. O aposentado precisa avaliar quanto pode consumir sem comprometer sua segurança financeira, qual parcela deve permanecer investida, como organizar a sucessão patrimonial e de que maneira enfrentar possíveis gastos elevados com cuidados de longa duração.
Nesse contexto, cresce a importância do aconselhamento financeiro especializado, que deixa de se concentrar exclusivamente na acumulação de recursos e passa a abranger a gestão da renda, a proteção patrimonial e a longevidade.
“À medida que as pessoas assumem maior responsabilidade por sua aposentadoria, a orientação de profissionais de confiança torna-se mais valiosa. Isso está mudando a dinâmica econômica da comercialização de seguros de vida e aumentando a concorrência no setor”, afirma James Finucane, responsável pela pesquisa econômica de Vida e Saúde do Swiss Re Institute.
Para ele, a ampliação do acesso a seguros e soluções de aposentadoria pode fortalecer a resiliência financeira das famílias no longo prazo.
Disputa por clientes provoca onda de aquisições no mercado de seguros
A transformação dos sistemas previdenciários também está provocando mudanças na estrutura de distribuição de seguros de vida. Bancos, consultores financeiros e intermediários especializados passam a exercer um papel cada vez mais relevante na relação com os consumidores.
O movimento tem atraído investidores e estimulado a consolidação empresarial, especialmente nos Estados Unidos.
Segundo o estudo sigma, apenas três grupos norte-americanos de intermediação financeira apoiados por fundos de private equity realizaram, entre 2017 e 2025, mais de 300 aquisições anunciadas publicamente. As operações envolveram organizações independentes de distribuição e marketing de seguros, agências comerciais e empresas de consultoria.
CONSOLIDAÇÃO DO MERCADO AMERICANO
Mais de 300 aquisições
Realizadas por apenas três grupos de intermediação apoiados por fundos de private equity entre 2017 e 2025.Fonte: Swiss Re Institute.
A concentração está dando origem a grupos de distribuição de maior porte, com capacidade financeira para investir em tecnologia, treinamento de consultores e ferramentas de relacionamento com clientes. Essas empresas também podem conquistar maior influência sobre quais produtos de seguros e previdência chegam aos consumidores e como são comercializados.
Para as seguradoras de vida, o cenário aumenta a importância das parcerias com bancos, consultores e outros canais de distribuição. Além da competitividade dos produtos, tornam-se fundamentais a simplicidade das soluções, a facilidade de contratação e a capacidade de oferecer suporte ao profissional que atende o cliente.
O estudo também chama a atenção para o momento em que essas relações comerciais são estabelecidas. Os anos que antecedem a aposentadoria representam uma janela estratégica para a contratação de produtos destinados à geração de renda, à proteção do patrimônio e à cobertura de despesas futuras.
Um exemplo é o seguro para cuidados de longa duração, destinado a ajudar no financiamento de assistência pessoal e cuidados necessários em situações de dependência. Como a contratação geralmente precisa ocorrer muitos anos antes da utilização da cobertura, o relacionamento antecipado com os consumidores torna-se essencial.
Inteligência artificial ganha espaço, mas consumidor ainda prefere atendimento humano
A tecnologia é outro elemento central dessa transformação. O Swiss Re Institute analisou 197 iniciativas de inteligência artificial e outras tecnologias divulgadas publicamente por grandes seguradoras de vida e intermediários selecionados em diferentes mercados.
O levantamento identificou que aproximadamente 70% dessas iniciativas estão concentradas em atividades que envolvem diretamente a experiência do consumidor.
Entre as aplicações estão ferramentas para facilitar a compreensão dos produtos, comparar alternativas de cobertura, simplificar a contratação, melhorar o atendimento após a venda e tornar os processos de sinistros mais rápidos e eficientes.
A inteligência artificial também está sendo utilizada para apoiar consultores financeiros, automatizando tarefas administrativas, organizando informações e facilitando a comparação de soluções. O objetivo é reduzir o tempo dedicado à burocracia e ampliar a disponibilidade dos profissionais para orientar os clientes.
Apesar dos avanços tecnológicos, o estudo mostra que o atendimento humano continua sendo decisivo nas situações que envolvem escolhas financeiras mais complexas.
Uma pesquisa com quase 3 mil consumidores de sete países revelou que aproximadamente dois terços preferem interagir com pessoas em transações complexas, como os processos de sinistros.
Para o Swiss Re Institute, essa preferência demonstra que a digitalização não elimina a importância dos consultores e intermediários. Ao contrário, a tecnologia tende a modificar suas funções, permitindo que concentrem esforços nas atividades que exigem conhecimento especializado, confiança e relacionamento pessoal.
Oportunidade para ampliar a proteção financeira
A conclusão do estudo é que a transformação dos sistemas previdenciários deverá intensificar a competição entre instituições financeiras pela administração dos recursos acumulados pelos consumidores e pela oferta de soluções capazes de protegê-los durante a aposentadoria.
Para as seguradoras, a oportunidade não se limita à venda de produtos tradicionais de vida. Inclui soluções de renda vitalícia, proteção patrimonial, planejamento sucessório e coberturas destinadas a enfrentar os custos associados ao envelhecimento.
O desafio será combinar tecnologia, distribuição eficiente e orientação especializada para alcançar os consumidores antes que decisões importantes sobre o futuro financeiro já tenham sido tomadas.
Embora o levantamento esteja concentrado principalmente em mercados desenvolvidos, suas conclusões também oferecem elementos para o debate brasileiro sobre previdência complementar, longevidade e ampliação da cobertura do seguro de vida. No Brasil, onde a proteção financeira das famílias ainda apresenta espaço para expansão, o desenvolvimento de produtos mais acessíveis e a atuação dos corretores podem ganhar relevância diante do envelhecimento da população e da necessidade crescente de complementar a renda na aposentadoria.
Para o Swiss Re Institute, a principal mudança está na própria natureza da relação entre consumidores e instituições financeiras: em um cenário no qual as pessoas assumem mais riscos e responsabilidades sobre o futuro, a capacidade de oferecer proteção e orientação ao longo da vida tende a se tornar um diferencial competitivo.



















