A discussão sobre os efeitos dos novos medicamentos contra a obesidade começa a ultrapassar as fronteiras da medicina e chegar ao mercado de seguros. Durante o ITC Vegas, o CEO da Azos, Rafael Cló, chamou a atenção para um tema ainda pouco debatido no Brasil: como a popularização de tratamentos como Ozempic, Wegovy e Mounjaro poderá afetar a longevidade, a mortalidade e, consequentemente, a precificação do seguro de vida.
A partir daquela provocação, o Sonho Seguro convidou a Azos a aprofundar o assunto. A companhia acompanha estudos internacionais que projetam redução da mortalidade associada ao avanço desses tratamentos e acredita que, no longo prazo, a melhora dos indicadores de saúde poderá influenciar desde a análise individual do risco até o preço das apólices e a aceitação de novos segurados. A transformação, porém, será gradual e dependerá de evidências sobre a manutenção dos benefícios ao longo dos anos.
Leia os principais trechos da entrevista:
No ITC Vegas, você trouxe para o debate um tema ainda pouco explorado pelo mercado brasileiro: o impacto das novas terapias contra a obesidade sobre o seguro de vida. A popularização de medicamentos como Ozempic, Wegovy e Mounjaro pode efetivamente alterar as projeções de mortalidade e longevidade? Como isso poderá chegar à sinistralidade e à precificação das apólices?
Na Azos, acompanhamos os efeitos desses tratamentos com otimismo: acreditamos que eles vão gerar um impacto demográfico muito positivo para a saúde da população brasileira. Estudos de resseguradoras globais que atuam diretamente na precificação de seguros de vida já projetam uma redução de mortalidade acumulada nos EUA de até 6,4% até 2045 em decorrência do uso disseminado desses medicamentos, com um ganho de mortalidade anual estimado entre 0,2% e 0,5% ao longo de 20 anos. Estudos clínicos também mostram redução de 20% em eventos cardiovasculares em pacientes com doença cardiovascular estabelecida e de cerca de 12% nos eventos cardiovasculares em pessoas com diabetes tipo 2. O Brasil vai colher, na próxima década, uma melhora estrutural de longevidade da população. Para quem busca contratar uma apólice hoje, ter hábitos saudáveis e realizar tratamentos preventivos contínuos é o melhor caminho para garantir amplas coberturas com mensalidades mais acessíveis. A popularização desses medicamentos representa uma das maiores revoluções na medicina preventiva e na saúde pública das últimas décadas.
Na prática, essa evolução da medicina pode chegar ao bolso do segurado? Uma pessoa com histórico de obesidade que, com o tratamento, apresente perda de peso e melhora consistente de indicadores metabólicos poderá ser reclassificada como um risco menor e, consequentemente, pagar menos pelo seguro de vida?
Uma pessoa que usa a medicação e apresenta melhora real nos indicadores de saúde pode, sim, pagar menos pelo seguro de vida. Dito isso, de fato é importante avaliar o histórico por trás desse resultado, e ainda existem incertezas — como o tempo de uso ainda é curto, não temos todas as respostas sobre a durabilidade desses efeitos no longo prazo. Com o tempo, à medida que mais dados forem publicados, vamos aprender mais e ganhar mais precisão para considerar cada vez mais isso na contratação.
Essa mudança pode ir além do preço e transformar a própria subscrição do seguro de vida? Há espaço para reduzir o peso do IMC isoladamente e incorporar indicadores de saúde metabólica, criando faixas de risco mais individualizadas e ampliando o acesso de pessoas que hoje podem ser penalizadas pela obesidade? Em quanto tempo isso deve aparecer de forma relevante nas estatísticas das seguradoras?
Relatórios de resseguradoras globais tratam esse tema com uma janela de tempo longa, projetando efeitos populacionais de mortalidade até 2045, com ganhos anuais estimados entre 0,2% e 0,5%. Isso indica um efeito gradual, que deve se tornar mais perceptível nas estatísticas do setor ao longo da próxima década, e não uma mudança imediata. Existem discussões no mercado sobre subscrição mais flexível, considerando métricas de saúde metabólica além do IMC isolado, e sobre a possibilidade de faixas de risco ajustadas para quem apresenta resposta clínica sustentada ao tratamento. São caminhos que podem, com o tempo, ampliar a aceitação de clientes e tornar o seguro de vida mais acessível para parte do público hoje penalizado por condições associadas à obesidade. Ainda assim, isso depende de fatores como adesão ao tratamento em escala e confirmação dos benefícios em prazos mais longos, então tratamos essa transformação como uma tendência em construção, e não como algo já consolidado no mercado brasileiro.



















