S&P prevê nova queda nos preços do resseguro em 2027

Agência mantém perspectiva estável para o setor global, mas alerta que excesso de capacidade deve pressionar preços, condições contratuais e margens; cyber, renováveis e data centers despontam como oportunidades de crescimento

A S&P Global Ratings mantém uma perspectiva estável para o setor global de resseguros em 2026 e 2027, apesar da expectativa de nova redução dos preços em 2027. A agência avalia que a elevada capacidade disponível, tanto das resseguradoras tradicionais quanto do capital alternativo, deverá continuar pressionando os preços e as condições dos contratos. Ainda assim, os fundamentos financeiros permanecem sólidos: 85% das empresas que compõem o grupo de referência da S&P têm perspectiva estável, 10% positiva e apenas 5% negativa, enquanto a classificação de crédito média está na faixa superior da categoria “A”.

A pressão deverá aparecer principalmente nas margens técnicas. A S&P prevê que o ROE (retorno sobre o patrimônio) global das resseguradoras fique entre 12% e 15% em 2026, recuando para 10% a 13% em 2027. O índice combinado de P&C (seguros de danos e responsabilidades) deverá passar de 92%-95% neste ano para 94%-97% em 2027, indicando uma deterioração gradual da rentabilidade da subscrição.

Apesar disso, a agência estima que os retornos continuem acima do custo de capital, sustentados por um retorno líquido dos investimentos de 3,5% a 4% e por liberações positivas de reservas equivalentes a cerca de 1 a 2 pontos percentuais. O cenário pressupõe, contudo, que as perdas anuais decorrentes de catástrofes naturais e grandes eventos causados pelo homem permaneçam dentro dos orçamentos previstos pelas companhias.

Para o setor, segundo a S&P, o principal desafio será crescer em um mercado com excesso de capacidade sem sacrificar a disciplina técnica. A combinação de preços mais baixos, pressão pela flexibilização das condições contratuais e inflação social poderá reduzir progressivamente as margens, enquanto a instabilidade geopolítica e o aumento da frequência e da severidade dos eventos climáticos continuam representando riscos relevantes.

Por outro lado, a forte capitalização das resseguradoras, os bons resultados dos investimentos e a capacidade de absorção de perdas permitem enfrentar o ciclo de queda dos preços com maior resistência do que em períodos anteriores de soft market — fase caracterizada por maior oferta de capacidade, preços mais baixos e condições mais favoráveis para as seguradoras.

A oportunidade estará também em utilizar capital e capacidade para ganhar participação em segmentos nos quais o risco seja adequadamente remunerado, em vez de competir apenas por preço.

A S&P identifica ainda importantes oportunidades de crescimento estrutural associadas à elevada lacuna de proteção, ou insurance gap, especialmente em riscos cibernéticos, energias renováveis e data centers. Esses segmentos deverão se beneficiar do aumento dos investimentos em digitalização, inteligência artificial, infraestrutura energética e transição climática, criando necessidades de cobertura que ainda não são plenamente atendidas pelo mercado.

Para as resseguradoras, a oportunidade está no desenvolvimento de modelos de risco e produtos especializados para exposições emergentes, combinando capacidade tradicional, capital alternativo e soluções paramétricas.

Em um mercado global no qual as margens deverão ficar mais apertadas em 2027, especialização, inovação e capacidade de avaliar riscos complexos poderão se tornar mais importantes do que simplesmente ampliar a oferta de capacidade, conclui a S&P.

A S&P participa do Rendez-Vous de Septembre (RVS) em Monte Carlo, Mônaco. É o maior e mais importante encontro anual do setor global de seguros e resseguros. Criado em 1957, o evento reúne milhares de profissionais de dezenas de países no Fairmont Monte-Carlo para negociações e reuniões bilaterais antes das renovações de contratos de fim de ano

Denise Bueno
Denise Buenohttp://www.sonhoseguro.com.br/
Denise Bueno sempre atuou na área de jornalismo econômico. Desde agosto de 2008 atua como jornalista freelancer, escrevendo matérias sobre seguros, previdência, educação financeira, longevidade e saúde para o blog Sonho Seguro, do qual e fundadora, e para cadernos especiais produzidos pelo jornal Valor Econômico, bem como para revistas como Época, Veja, Você S/A, Valor Financeiro, Valor 1000, Revista de Seguros (CNSeg) entre outras publicações. É colunista do SindSeg-SP, entrevistadora em eventos e podcasts, bem como palestrante sobre temas diversos que envolvem o setor de seguros. Escreveu artigos diariamente sobre seguros, resseguros, previdência e capitalização entre 1992 até agosto de 2008 para o jornal econômico Gazeta Mercantil. Recebeu, por 17 vezes, o prêmio de melhor jornalista de seguro em concursos diversos do setor e da grande mídia.

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