Riscos considerados secundários já causam mais de US$ 100 bilhões em perdas seguradas

Munich Re alerta em Monte Carlo que eventos antes associados a perdas menores estão mudando o perfil das catástrofes; cyber e inteligência artificial ampliam os desafios para o resseguro

Os grandes furacões, terremotos e outros eventos extremos deixaram de ser a única preocupação bilionária das resseguradoras. Em 2025, as perdas seguradas provocadas pelos chamados riscos não considerados de pico — como tempestades severas, granizo, enchentes e incêndios — chegaram a US$ 104 bilhões no mundo, superando pela primeira vez a marca de US$ 100 bilhões.

O dado é um dos principais alertas levados pela Munich Re ao Rendez-Vous de Septembre, em Monte Carlo, encontro que reúne nesta semana executivos de seguradoras, resseguradoras, corretoras e investidores e funciona como um dos principais termômetros para as negociações das renovações de resseguro, especialmente as de 1º de janeiro.

Segundo a resseguradora alemã, o aumento da frequência e da severidade de eventos de médio porte está transformando perdas antes vistas como secundárias em um componente estrutural da sinistralidade mundial.

Em 2025, as perdas seguradas globais decorrentes de catástrofes naturais ultrapassaram US$ 100 bilhões pelo sexto ano consecutivo. A novidade é que somente os chamados non-peak perils responderam por US$ 104 bilhões.

Eventos desse tipo foram historicamente considerados menos relevantes individualmente do que grandes furacões ou terremotos. O problema é a acumulação: a repetição de tempestades, granizo, enchentes e incêndios ao longo do ano já produz volumes de perdas anteriormente associados aos grandes desastres. Para a Munich Re, essa tendência está progressivamente se tornando o “novo normal” do mercado.

Calor também entra na conta

Além dos eventos mais facilmente identificáveis, a Munich Re chama atenção para um risco mais difícil de mensurar: o calor extremo. Ondas de calor têm provocado um número crescente de mortes e temperaturas excepcionalmente elevadas podem gerar impactos sobre infraestrutura, cadeias de abastecimento, agricultura, sistemas de saúde, imóveis e instalações técnicas.

A dificuldade para seguradoras e resseguradoras está também em estabelecer a relação direta entre o calor e determinados prejuízos. Ainda assim, a Munich Re avalia que fenômenos naturais desse tipo estão deixando de ser vistos predominantemente como riscos ambientais para se transformar também em riscos econômicos.

Os incêndios florestais reforçam essa tendência. Em 2025, os incêndios na Califórnia provocaram US$ 54 bilhões em perdas econômicas, o maior valor já registrado para esse tipo de evento. A Europa também vem registrando incêndios próximos de grandes centros urbanos, incluindo regiões de Bordeaux, Marselha, Madri e da Sicília. Até agora, porém, os maiores centros urbanos europeus foram poupados de eventos de grandes proporções.

Cyber: 89% das empresas não se sentem protegidas

A transformação do mapa de riscos não se limita às catástrofes naturais. Ataques cibernéticos e o avanço da inteligência artificial estão criando novas exposições e interdependências entre empresas. Embora o cyber já esteja entre os principais riscos corporativos, a Munich Re avalia que a contratação de seguros específicos ainda é baixa.

Estudos da própria resseguradora mostram que 89% das empresas afirmam não se considerar adequadamente protegidas contra riscos cibernéticos.

A profissionalização dos criminosos, combinada ao uso crescente de inteligência artificial, às tensões geopolíticas e às interdependências sistêmicas, tende a elevar ainda mais o custo do cibercrime.

Para a Munich Re, a complexidade exige modelos próprios de avaliação, conhecimento especializado e desenvolvimento de novas soluções de transferência de risco. No mercado de cyber, algumas práticas e padrões de cobertura já foram estabelecidos ao longo dos últimos anos. Nos riscos relacionados à inteligência artificial, esse processo ainda está começando.

A demanda por proteção está crescendo, mas a resseguradora considera necessário avançar na compreensão das exposições e, especialmente, na definição clara dos termos e condições dos contratos. A Munich Re afirma estar trabalhando com seguradoras cedentes e clientes no desenvolvimento desse mercado.

Resseguro como “sistema imunológico”

Ao apresentar sua visão para Monte Carlo, a Munich Re compara o papel do resseguro ao de um “sistema imunológico da sociedade”. A analogia parte de um cenário no qual mudanças climáticas, tensões geopolíticas e transformações tecnológicas acontecem simultaneamente e podem potencializar umas às outras.

“O valor do resseguro nunca foi tão evidente quanto hoje”, afirma Thomas Blunck, membro do conselho de administração da Munich Re. Segundo ele, um setor de resseguros resiliente é capaz de absorver riscos cada vez mais complexos e globalmente interconectados, oferecendo capacidade para viabilizar investimentos e apoiar a recuperação depois de grandes eventos.

A função das resseguradoras, nesse contexto, não estaria restrita a pagar sinistros. Conhecimento dos riscos, modelagem, prevenção e medidas de resiliência tornam-se instrumentos para manter riscos novos e tradicionais seguráveis.

Capital de resseguro cresce 5,8% ao ano

Apesar do aumento da volatilidade, não há indicação de escassez estrutural de capital. Segundo a Munich Re, o capital disponível para resseguro cresceu em média 5,8% ao ano nos últimos oito anos. A questão para as resseguradoras passa a ser como utilizar esse capital diante de riscos mais complexos sem abrir mão da rentabilidade.

A Munich Re afirma que sua estratégia combina diversificação global, disciplina de subscrição e gestão dos diferentes ciclos do mercado. Em períodos nos quais há excesso de capital e maior competição, a companhia diz priorizar qualidade da carteira e rentabilidade em vez de simplesmente buscar crescimento de prêmios.

Em momentos posteriores a grandes perdas, quando concorrentes podem reduzir capacidade, a estratégia é permanecer no mercado. “A volatilidade não é um fenômeno temporário”, afirma Stefan Golling, membro do conselho de administração da Munich Re.

A mensagem levada pela resseguradora a Monte Carlo reforça um dos temas que começam a marcar o Rendez-Vous deste ano: há capital disponível, mas a discussão está migrando cada vez mais para quais riscos podem ser assumidos, como mensurá-los e quanto deverá ser cobrado para absorver uma volatilidade que deixou de ser excepcional.

Denise Bueno
Denise Buenohttp://www.sonhoseguro.com.br/
Denise Bueno sempre atuou na área de jornalismo econômico. Desde agosto de 2008 atua como jornalista freelancer, escrevendo matérias sobre seguros, previdência, educação financeira, longevidade e saúde para o blog Sonho Seguro, do qual e fundadora, e para cadernos especiais produzidos pelo jornal Valor Econômico, bem como para revistas como Época, Veja, Você S/A, Valor Financeiro, Valor 1000, Revista de Seguros (CNSeg) entre outras publicações. É colunista do SindSeg-SP, entrevistadora em eventos e podcasts, bem como palestrante sobre temas diversos que envolvem o setor de seguros. Escreveu artigos diariamente sobre seguros, resseguros, previdência e capitalização entre 1992 até agosto de 2008 para o jornal econômico Gazeta Mercantil. Recebeu, por 17 vezes, o prêmio de melhor jornalista de seguro em concursos diversos do setor e da grande mídia.

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