A corrida global por inteligência artificial, data centers e novas fontes de energia deve abrir uma oportunidade de cerca de US$ 200 bilhões em prêmios acumulados de seguros comerciais entre 2026 e 2030, segundo estimativa do Swiss Re Institute. O crescimento, porém, vem acompanhado de um desafio para seguradoras e resseguradoras: ativos cada vez mais caros estão concentrados geograficamente e dependem das mesmas redes de energia, telecomunicações e cadeias de fornecedores.
A estimativa faz parte do novo relatório sigma, “Time to build: Expanding the frontier of insurability for the capex super-cycle”, divulgado pela Swiss Re neste sábado, 5 de setembro, em Monte Carlo, às vésperas do Rendez-Vous de Septembre, tradicional encontro anual do mercado mundial de resseguros.
Realizado no Principado de Mônaco, o Rendez-Vous reúne executivos de seguradoras, resseguradoras, corretoras e investidores de diferentes países para discutir tendências, capacidade, preços e condições do mercado antes das principais renovações de contratos de resseguro do ano seguinte, especialmente as de 1º de janeiro. Mais do que uma conferência tradicional, é uma semana marcada por reuniões e negociações que ajudam a antecipar os rumos do mercado global.
Uma nova onda de investimentos
Segundo o Swiss Re Institute, a economia mundial entrou em um novo superciclo de investimentos em capital, ou capex super-cycle, impulsionado principalmente por inteligência artificial e infraestrutura energética.
O investimento global em energia deverá atingir US$ 3,4 trilhões em 2026. Desse total, cerca de US$ 2,2 trilhões serão destinados a fontes renováveis, energia nuclear, redes elétricas, armazenamento, combustíveis de baixa emissão, eficiência energética e eletrificação.
A corrida pela inteligência artificial acrescenta outra dimensão. As cinco maiores empresas de tecnologia dos Estados Unidos que operam grandes infraestruturas de nuvem — as chamadas hyperscalers — deverão investir quase US$ 800 bilhões em 2026 em projetos relacionados à IA. As estimativas para investimentos globais em data centers superam US$ 1 trilhão.
É justamente a combinação entre data centers de IA e infraestrutura de energia renovável que poderá gerar os cerca de US$ 200 bilhões em prêmios de seguros comerciais até 2030 calculados pelo instituto.
“Estamos vendo a economia digital se transformar em economia real. A IA precisa de data centers, redes elétricas e infraestrutura cada vez mais complexa — e tudo isso precisa de seguro”, afirma Gianfranco Lot, diretor global de subscrição de P&C Re da Swiss Re.
Segundo ele, a expansão cria oportunidades em diferentes linhas de negócios, mas também concentrações relevantes de risco. A disponibilidade de capacidade, acrescenta, dependerá da capacidade do mercado de compreender e administrar essas exposições e de precificar adequadamente os riscos de cauda.
Data centers de até US$ 50 bilhões
Um dos pontos centrais do estudo é que os data centers deixaram de ser apenas ativos de tecnologia da informação e passaram a funcionar como infraestrutura estratégica. Alguns complexos voltados à inteligência artificial, incluindo os equipamentos de computação, podem ter custo de reposição de até US$ 50 bilhões.
Além do valor individual elevado, esses empreendimentos demandam enorme quantidade de energia e dependem simultaneamente de eletricidade, telecomunicações, sistemas de refrigeração, água e infraestrutura de nuvem.
Para o seguro, isso significa que uma interrupção pode produzir perdas que vão muito além do dano físico ao imóvel ou aos equipamentos.
O relatório identifica quatro fatores principais de acumulação de riscos: aumento do valor individual dos ativos, concentração geográfica, dependência de cadeias de suprimentos e utilização compartilhada de redes físicas e digitais.
Esses elementos podem se combinar. Um único evento, portanto, pode atingir simultaneamente diferentes segurados, setores econômicos e carteiras de seguros.
Texas e Virgínia concentram mais de 40% da capacidade
Nos Estados Unidos, Texas e Virgínia concentram juntos mais de 40% da capacidade atual e planejada de data centers. A localização traz consigo exposição relevante a eventos naturais.
Mais de um quarto da capacidade americana está em regiões que podem registrar pelo menos três dias de granizo intenso por ano. Cerca de 40% encontra-se em áreas que podem enfrentar pelo menos três dias anuais com ocorrência de tornados.
Na Ásia, a concentração aparece de outra maneira. Em Taiwan, aproximadamente 88% das fábricas de semicondutores estão localizadas em zonas classificadas como de risco sísmico extremo ou muito extremo.
A preocupação não se restringe aos danos às instalações. Taiwan ocupa posição central na cadeia mundial de semicondutores, o que significa que um grande evento poderia provocar efeitos em cascata sobre empresas e indústrias em vários países.
Outro ponto de vulnerabilidade está nos fornecedores especializados. Equipamentos críticos, como transformadores de alta tensão, podem ter prazos de entrega de vários anos. A indisponibilidade desses componentes pode prolongar atrasos de projetos e, principalmente, perdas por interrupção de negócios.
O desafio não é falta de capital
Para o Swiss Re Institute, a principal limitação para o crescimento desse mercado não está necessariamente na quantidade de capital disponível para assumir riscos, mas na capacidade de seguradoras e resseguradoras de mensurar e administrar exposições cada vez mais complexas.
Como muitos desses projetos são novos e têm pouco histórico operacional, ainda é difícil estimar com precisão a frequência e a severidade dos sinistros. A possibilidade de grandes perdas simultâneas também dificulta a diversificação das carteiras.
A fase operacional dos projetos é apontada pelo estudo como a próxima fronteira para a segurabilidade. Os riscos de construção são relativamente conhecidos pelo mercado, mas a entrada em operação de equipamentos de altíssimo valor amplia as exposições em property, responsabilidade civil, lucros cessantes e interrupção contingente de negócios.
Em determinadas situações, alerta o instituto, a perda financeira provocada pela paralisação pode superar o próprio dano físico. Para Jérôme Haegeli, economista-chefe do grupo e responsável pelo Swiss Re Institute, uma nova era de investimentos está se formando, com volumes inéditos de capital direcionados à infraestrutura necessária ao crescimento econômico futuro.
“Isso também concentra mais valor e cria novas dependências entre sistemas de energia, cadeias de suprimentos e redes digitais”, afirma. “O seguro é essencial para tornar esses investimentos resilientes e financiáveis.”
A Swiss Re avalia que o setor terá de avançar em subscrição apoiada por engenharia, modelagem de riscos e gestão de acumulações. Ao mesmo tempo, a distribuição das exposições entre seguradoras, resseguradoras e mercado de capitais será fundamental para evitar que projetos bilionários se tornem difíceis — ou caros demais — de segurar.
A discussão chega a Monte Carlo em um momento particularmente oportuno. Se a inteligência artificial está criando uma nova infraestrutura para a economia mundial, o desafio para o mercado de seguros será descobrir quanto risco pode assumir, onde ele está concentrado e a que preço.






















