A história da Emerson começou antes de existir aplicativo, startup ou plano de negócios. Começou com uma família que os irmãos Giancarlo e Gianlucca Gariglia conheciam de perto e com uma pergunta que, alguns anos depois, se transformaria em empreendimento: se era possível ajudar uma pessoa a enfrentar a dependência de álcool, cocaína e apostas, como levar esse cuidado para milhares de outros brasileiros que viviam situações semelhantes?
O homem que inspirou a empresa chama-se Emerson. Na época, era marido de Sandra, funcionária da família Garglia, descrita pelos irmãos como uma pessoa fundamental em suas vidas e dedicada também ao trabalho missionário em uma instituição voltada à dependência química. Emerson enfrentava transtornos relacionados ao uso de álcool e cocaína e também às apostas.
Ao acompanhar de perto o impacto do problema sobre ele e sua família, os irmãos começaram a enxergar algo maior. “Conseguimos ajudar o Emerson. Mas a pergunta passou a ser: e os outros Emerson do Brasil?”, conta Giancarlo.
E são muitos, como mostram estudos e pesquisas. Para mensurar esse efeito, o economista Guilherme Klein, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pesquisador do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades da Universidade de São Paulo (Made-USP), calculou o impacto das bets sobre o Produto Interno Bruto (PIB, soma de bens e serviços produzidos pelo país), a arrecadação do governo e a desigualdade.
Segundo o estudo divulgado nesta semana, as apostas retiraram entre R$ 120 bilhões e R$ 141 bilhões da atividade econômica brasileira em 2025, o que equivale a cerca de 0,9% a 1,1% do PIB daquele ano. “Para dimensionar essa magnitude, a perda estimada corresponde a algo entre 40% e 50% de todo o crescimento da economia em 2025 [que foi de 2,3%] e é cerca de cinco vezes maior que estimativas do impacto do tarifaço americano sobre o PIB brasileiro”, compara o autor no estudo.
Outro estudo – “Impactos das Apostas Online (Bets) no Endividamento e Inadimplência das Famílias Brasileiras”, traz dados também assustadores. Os gastos dos brasileiros com apostas online superaram R$ 30 bilhões por mês em março de 2026, crescimento de mais de 500% desde janeiro de 2023, quando os valores partiam de “praticamente zero”, revela estudo inédito da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) divulgado em abril. O volume mensal de gastos com apostas se aproxima das receitas mensais de todo o setor de planos de saúde privada do Brasil: segundo a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), as operadoras registraram receitas de R$ 391,6 bilhões em 2025, equivalente a R$ 32,6 bilhões por mês.
Já o Banco Central cita outros meios de endividamentos, que também precisam de cuidados e alguns deles podem também vir da compulsão, que precisa ser tratada. De acordo com o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, durante a abertura da Febraban Tech 2026, nesta semana, as causas do superendividamento das famílias brasileiras são cartão de crédito rotativo, consignado privado e linhas sem garantia. Ele não mencionou apostas esportivas, mas elas podem ser pagas com dinheiro proveniente dos meios de pagamentos que citou.
Diante deste cenário, a resposta dos irmãos para os “outros Emersons” acabou levando à criação de uma empresa de saúde digital especializada em transtornos relacionados ao uso de substâncias e a comportamentos compulsivos, especialmente apostas. O negócio reúne tratamento psicológico, acompanhamento frequente dos pacientes e um aplicativo com conteúdo de psicoeducação, ferramentas para momentos de fissura, trilhas de acompanhamento e indicadores sobre a evolução do usuário.
A proposta agora é levar o modelo principalmente para empresas, operadoras e seguradoras de saúde. O momento não poderia ser mais sensível. A disseminação das bets transformou o transtorno do jogo em uma preocupação crescente de saúde pública. Em agosto, o SUS ampliou para até 100 mil por mês a capacidade de teleatendimentos para pessoas com problemas relacionados a jogos e apostas. O Ministério da Saúde ressalta que o transtorno do jogo é reconhecido internacionalmente como transtorno de comportamento aditivo e pode provocar impactos sobre saúde mental, situação financeira, relações familiares e vida profissional.
Da educação para a saúde
O caminho dos irmãos até a Emerson, porém, é pouco convencional. Filhos de um empresário do mercado imobiliário, os dois cursaram Direito, mas desde muito jovens se interessavam por filosofia, literatura, economia e psicologia. Ainda durante a pandemia criaram a TP Educação, inicialmente uma escola de aulas particulares online para universitários.
Com a retomada das atividades presenciais, transformaram a iniciativa em um negócio físico voltado a estudantes e, posteriormente, também ao vestibular. Foi ali que perceberam que seu principal diferencial talvez não estivesse apenas no conteúdo acadêmico.
Além das aulas, desenvolveram um sistema de acompanhamento individual dos alunos. A proposta era ajudá-los a lidar com ansiedade, insegurança, pressão e outras dificuldades que interferiam no desempenho. “Fomos percebendo que nossos principais interesses estavam muito mais ligados à superação individual e à superação do sofrimento”, afirma Giancarlo.
Por um período, os dois se afastaram parcialmente do negócio para ajudar o pai em um empreendimento imobiliário. Giancarlo assumiu a gestão financeira e Gianlucca ficou mais ligado às áreas comercial e de comunicação. A experiência trouxe conhecimento de gestão, mas a psicologia voltou ao centro do projeto dos irmãos. O problema das apostas apareceu por dois caminhos quase simultaneamente. Além do caso de Emerson, um dos melhores alunos da TP recebeu uma herança da avó e perdeu o dinheiro apostando. A reação inicial dos irmãos foi a mesma de muitas famílias diante do jogo compulsivo: como alguém inteligente poderia tomar sucessivamente decisões capazes de provocar tamanho prejuízo?
A pergunta mudou quando começaram a estudar os mecanismos da compulsão. “Percebemos que não era uma questão de inteligência. Existe uma série de distorções cognitivas. Depois de perder, a pessoa passa a acreditar que justamente o jogo será o lugar onde conseguirá recuperar aquilo que perdeu”, explica Gianlucca.
Vieram então estudos, conversas com psicólogos, visitas a instituições de tratamento e a decisão de desenvolver um modelo que pudesse acompanhar o paciente sem retirá-lo automaticamente de sua rotina familiar e profissional.
A internação, sustentam os fundadores, deve ser considerada quando clinicamente necessária, mas não deveria funcionar como resposta automática para todos os casos. A Emerson quer atuar justamente antes dessa etapa e também no acompanhamento de longo prazo.
Essa abordagem está alinhada à própria complexidade do tratamento. O Ministério da Saúde afirma que pessoas com transtorno do jogo devem receber acompanhamento profissional e que o tratamento pode envolver equipe multiprofissional, atendimentos individuais e em grupo e, em determinados casos, medicamentos.
Tecnologia com gente do outro lado
A Emerson foi concebida em duas frentes. Uma delas é o aplicativo, lançado em agosto, que permite escalar o atendimento. Nele, o usuário encontra trilhas educacionais sobre diferentes dependências, recursos para enfrentar momentos de fissura, acompanhamento do tempo sem consumo ou apostas e ferramentas destinadas a episódios de ansiedade.
A segunda é o tratamento acompanhado por profissionais, com sessões individuais, encontros em grupo e contato frequente entre paciente e equipe. Os irmãos defendem justamente essa combinação entre tecnologia e presença humana. “Nós não queremos ser tecnologia antes de sermos saúde. A tecnologia é a maneira de chegar às pessoas”, diz Giancarlo.
O método adotado pela empresa combina princípios de terapia cognitivo-comportamental com logoterapia, abordagem desenvolvida pelo psiquiatra Viktor Frankl e centrada, entre outros conceitos, na busca de sentido.
Para os fundadores, esse componente ganhou relevância ao perceberem que, em vários pacientes, drogas ou apostas funcionavam como resposta a uma vida marcada por vazio, ansiedade, frustração ou falta de propósito. “Não basta simplesmente tirar o jogo ou a substância. É preciso ajudar aquela pessoa a encontrar alguma coisa para colocar no lugar”, afirma Giancarlo.
A companhia iniciou os atendimentos clínicos em abril. Segundo os fundadores, já acompanha cerca de 50 pacientes e a operação conseguiu atingir equilíbrio financeiro com recursos próprios, sem rodada externa de investimento.
Os resultados iniciais divulgados pela própria Emerson indicam que 90% dos pacientes acompanhados há pelo menos três meses permanecem sem apostar ou consumir a substância que motivou o tratamento. A startup também relata redução de ansiedade e melhora das relações familiares entre os pacientes. São dados da própria companhia e ainda não correspondem a um estudo clínico independente. É justamente a validação desses resultados que deverá se tornar uma das próximas etapas do negócio.
A conta que pode interessar às seguradoras
Se o primeiro passo foi testar o modelo diretamente com o consumidor, a ambição da Emerson sempre esteve no mercado B2B. A tese é simples: os efeitos de uma dependência não aparecem somente na vida do paciente. Chegam à empresa na forma de absenteísmo, atrasos, queda de produtividade, endividamento e conflitos. E podem chegar ao plano de saúde como pronto-socorro, consultas psiquiátricas, medicamentos, afastamentos e, nos casos mais graves, internações.
“Quando alguém tem uma relação problemática com substâncias ou apostas, falta mais, atrasa mais e, mesmo quando está presente, muitas vezes produz menos”, afirma Gianlucca. No caso das apostas, os irmãos dizem ter encontrado situações extremas durante os primeiros meses de atendimento: pacientes que perderam milhões de reais, famílias que tiveram suas economias consumidas e trabalhadores que passaram a utilizar recursos de terceiros na tentativa de recuperar no jogo perdas anteriores.
É justamente nesse ponto que a startup pretende encontrar espaço dentro das operadoras. Em vez de competir com seguradoras ou substituir sua rede assistencial, a Emerson quer funcionar como um serviço especializado dentro do ecossistema de saúde. Para a operadora, a possibilidade está em identificar e acompanhar pacientes antes que o quadro se agrave, além de oferecer continuidade de tratamento após episódios de maior complexidade.
Para as empresas, a proposta envolve ainda acompanhamento dos trabalhadores e apoio aos departamentos de recursos humanos diante de problemas relacionados a dependências e apostas. A companhia também estuda aplicações relacionadas ao gerenciamento de riscos psicossociais no ambiente de trabalho.
O mercado potencial cresce justamente porque os danos das apostas começam a aparecer além do orçamento doméstico. Autoridades de saúde relacionam o transtorno a endividamento, conflitos familiares e prejuízos na atividade profissional.
Giancarlo e Gianlucca afirmam que a maior surpresa desde a criação da Emerson foi descobrir a dimensão humana do problema. Há pacientes que começaram a apostar procurando renda extra. Outros buscavam entretenimento. Alguns acreditavam que poderiam conseguir no jogo o dinheiro necessário para resolver dificuldades da própria família.
Há também quem tenha chegado às apostas para escapar de solidão, frustrações ou problemas financeiros e terminado em situação muito pior. Não se trata apenas de quem joga. Pais, mães, filhos, companheiros e colegas de trabalho acabam envolvidos. Pesquisa divulgada neste mês sobre mulheres e apostas mostrou impactos sobre endividamento, saúde mental e organização familiar, inclusive entre mulheres que não apostam, mas convivem com familiares que o fazem.
É por isso que os irmãos consideram que o valor econômico da Emerson não pode ser separado de seu impacto social. “Ao fazer o bem, estamos economizando para todos os lados: para a família, para a empresa, para a seguradora e para o sistema de saúde”, resume Gianlucca.
Ainda pequena diante da escala das grandes operadoras de saúde, a Emerson terá agora de provar que os resultados obtidos nos primeiros pacientes podem ser reproduzidos em populações muito maiores.
A tecnologia permite escalar rapidamente o aplicativo. O desafio mais complexo está justamente naquilo que os fundadores consideram seu maior diferencial: manter o cuidado humano à medida que aumenta o número de pessoas atendidas.
Giancarlo acredita que o protocolo desenvolvido pela equipe ajudará nessa expansão. Novos psicólogos passam a trabalhar dentro de uma metodologia estruturada, permitindo ampliar a capacidade de atendimento conforme surgirem contratos corporativos.
É uma equação que ainda precisa ser testada em escala. Mas a dor que os irmãos decidiram atacar deixou há muito tempo de ser um problema de nicho. O que começou com a tentativa de ajudar um homem chamado Emerson tornou-se uma aposta empresarial — justamente contra uma das compulsões que mais rapidamente avançaram na sociedade brasileira.
























