A recuperação judicial do Grupo Casas Bahia, com R$ 17,3 bilhões em dívidas, colocou o setor de seguros no centro de uma das maiores reestruturações empresariais recentes do país. Além do impacto sobre fornecedores protegidos — ou não — por seguro de crédito, chama atenção a presença da Zurich Seguros entre os maiores credores da varejista, com aproximadamente R$ 1,98 bilhão a receber.
Na relação divulgada pela Folha de S.Paulo, a Zurich ocupa a terceira posição, atrás do Banco Digio, com R$ 3,28 bilhões, e do Banco do Brasil, com R$ 2,99 bilhões. O Bradesco aparece em seguida, com cerca de R$ 1,5 bilhão. A maior parcela da dívida da Casas Bahia, R$ 16,4 bilhões, está concentrada entre credores quirografários, ou seja, sem garantia real.
A presença da Zurich na lista tem uma explicação que remonta a mais de uma década e ajuda a dimensionar a importância que a distribuição de seguros já teve dentro da estratégia da Casas Bahia. Em outubro de 2014, a Zurich Minas Brasil Seguros fechou com a então Via Varejo um dos maiores acordos de distribuição de seguros massificados do mercado brasileiro. A seguradora assumiu a venda exclusiva de garantia estendida nas quase mil lojas de Casas Bahia e Ponto Frio, substituindo a Itaú Seguros.
O contrato poderia durar até oito anos. Para garantir a exclusividade do canal e antecipar comissões, a Zurich concordou em desembolsar R$ 850 milhões para a Via Varejo. Na ocasião, a expectativa da seguradora era gerar mais de R$ 1,3 bilhão em prêmios apenas no primeiro ano da parceria.
Documentos financeiros da época mostram que R$ 150 milhões foram recebidos em setembro de 2014 e outros R$ 700 milhões em outubro. A dimensão da aposta fica ainda mais evidente porque a Via Varejo desembolsou R$ 584,3 milhões para encerrar antecipadamente os contratos com a Itaú Seguros, que até então ocupava o canal.
Procurada pelo Sonho Seguro, a Zurich informou que não comenta os detalhes da relação comercial. “Por política e respeito à confidencialidade de suas relações comerciais, a Zurich Seguros não comenta assuntos relacionados a clientes e parceiros. Seguimos comprometidos em oferecer todo o suporte necessário aos nossos segurados, garantindo integralmente a continuidade dos serviços contratados, sem qualquer impacto para os clientes que adquiriram produtos da Zurich nas Casas Bahia”, informou a companhia.
Segundo fontes que pediram anonimato, é nesse histórico comercial que está a origem da atual exposição da Zurich. O crédito relacionado na recuperação judicial decorre de valores vinculados à antiga operação de distribuição e às antecipações realizadas no âmbito daquele relacionamento, após a performance comercial ficar abaixo do previsto e a seguradora deixar de ocupar o balcão da varejista.
Balcões de varejo foram ativos estratégicos das seguradoras
A exposição da Zurich à Casas Bahia também remonta a uma época em que ocupar o balcão das grandes redes varejistas era considerado um ativo estratégico para as seguradoras. A disputa por esses canais ganhou força a partir dos anos 1990 e avançou nas décadas seguintes, acompanhando o esforço do setor para massificar o seguro no Brasil e alcançar consumidores que dificilmente chegavam aos produtos pelos canais tradicionais.
Naquele momento, grande parte dos corretores de seguros estava concentrada em produtos de maior tíquete, principalmente o seguro automóvel. Apólices de baixo valor individual exigiam grande escala para serem economicamente interessantes. O varejo ofereceu justamente essa escala: milhões de consumidores já estavam nas lojas comprando eletrodomésticos, eletrônicos, móveis, celulares e outros bens e podiam contratar, no mesmo ambiente, produtos como garantia estendida, proteção financeira, seguro prestamista e seguros contra roubo e furto.
Nascia um modelo de distribuição extremamente rentável baseado em baixo tíquete e enorme volume. À medida que o mercado cresceu, os próprios corretores passaram a desenvolver estruturas especializadas para atender pequenos e médios varejistas. Nas grandes redes, entretanto, a disputa assumiu outra dimensão. Bancos e seguradoras passaram a negociar contratos de exclusividade e antecipações financeiras relevantes para assegurar acesso às bases de clientes e aos pontos de venda.
O interesse não estava apenas no prêmio gerado por uma garantia estendida vendida junto com uma geladeira ou televisão. O balcão criava um relacionamento potencialmente longo com milhões de consumidores e abria espaço para a oferta de outros produtos financeiros e de seguros.
A rentabilidade desse negócio foi tão relevante que alguns grandes grupos varejistas chegaram a criar seguradoras, joint ventures ou estruturas próprias ligadas à distribuição de seguros. O balcão deixou de ser apenas um local para oferecer uma cobertura adicional e passou a ser tratado como um ativo financeiro dentro das negociações entre varejistas, bancos e seguradoras.
Um case importante foi a trajetória do Magazine Luiza, que como seus concorrentes buscam otimizar a rentabilidade de seus ecossistemas de serviços. O Magalu inaugurou esse modelo de forma robusta em 2005, ao fundar a Luizaseg em uma joint venture com a francesa BNP Paribas Cardif. Essa parceria societária direta perdurou por quase duas décadas e foi encerrada em 2023, quando a varejista vendeu seus 50% de participação na seguradora para a própria Cardif por R$ 160 milhões — um movimento tático focado em simplificar a estrutura operacional e gerar alívio imediato de caixa diante do cenário macroeconômico pressionado por juros altos. Mesmo com o fim da sociedade, o Magalu preservou o canal de distribuição por meio de um acordo comercial de longo prazo até 2033.
É dentro dessa lógica que deve ser entendido o acordo firmado pela Zurich com a então Via Varejo em 2014. A seguradora desembolsou R$ 850 milhões entre pagamento pela exclusividade e antecipação de comissões para assumir a distribuição de garantia estendida nas redes Casas Bahia e Ponto Frio. Na época, esperava gerar mais de R$ 1,3 bilhão em prêmios apenas no primeiro ano.As projeções para este segmento de massificados é que as contratações cresceriam mais de 40% ao ano.
A novidade sugeria que o movimento de oferecer Garantia Estendida por seguradoras, e não apenas por redes de varejo, começava a se consolidar. Pouco antes, em 2012, por exemplo, a Bradesco Seguros firmou parceria na venda de seguros – principalmente apólices de Garantia Estendida para produtos eletrônicos – com a rede varejista Máquina de Vendas, numa negociação foi acertada em R$ 500 milhões com distribuição nas 900 lojas da empresa, na época. Com a aliança, a Bradesco Seguros adquiriu o direito de exclusividade por 10 anos para os negócios efetuados nas bandeiras Insinuante, Ricardo Eletro, City Lar e Eletro Shopping, marcas que deixaram de existir oficialmente em abril de 2016, quando a holding Máquina de Vendas unificou todas as suas operações sob a bandeira da Ricardo Eletro. Anos depois, a própria Ricardo Eletro entrou em colapso financeiro
O modelo, entretanto, também trouxe problemas. O rápido crescimento dos seguros massificados provocou aumento das reclamações de consumidores e levou a uma atuação regulatória mais intensa. A garantia estendida tornou-se um dos principais focos de atenção. Houve casos em que consumidores afirmavam não perceber que estavam contratando um seguro adicional, com o produto sendo apresentado junto à compra do bem sem informações suficientemente claras sobre preço, caráter opcional, coberturas, exclusões e condições para utilização.
As dificuldades também apareciam no momento do sinistro. Consumidores nem sempre sabiam se deveriam procurar a loja, a seguradora ou uma assistência técnica, aumentando os conflitos relacionados à prestação do serviço. A regulamentação e a fiscalização avançaram, assim como as práticas das seguradoras e dos varejistas. A oferta passou a exigir maior transparência, identificação do seguro e esclarecimento sobre seu caráter facultativo, enquanto processos de atendimento e regulação de sinistros foram aprimorados.
O próprio mercado amadureceu. Seguro massificado deixou de ser sinônimo apenas de garantia estendida e passou a incorporar prestamista, residencial, vida, proteção de celular, roubo e furto, assistência e outras coberturas. Mas o balcão físico que sustentava o antigo modelo também começou a perder força. O avanço acelerado do comércio eletrônico mudou o comportamento dos consumidores e reduziu a importância relativa das lojas como principal ponto de contato. Ao mesmo tempo, grandes varejistas tradicionais passaram a enfrentar a concorrência de marketplaces e plataformas digitais, necessidade de investimentos pesados em tecnologia e logística, redução de margens e uma estrutura financeira cada vez mais pressionada.
A crise atual do varejo é resultado de vários fatores e não pode ser atribuída apenas à migração das vendas para o ambiente digital. Juros elevados, endividamento, competição crescente, mudanças no consumo e dificuldades de adaptação dos modelos de negócios também pesaram. Mas a transformação digital retirou parte do valor estratégico daquele balcão físico pelo qual seguradoras chegaram a desembolsar centenas de milhões de reais.
A ironia é que o seguro não desapareceu do varejo. Ele mudou de balcão. Hoje, a disputa ocorre cada vez mais dentro de aplicativos, carteiras digitais, marketplaces e plataformas de crédito. A recente parceria entre CNP Seguradora e Casas Bahia Pay é um exemplo dessa transformação. Em vez de depender exclusivamente do vendedor diante do consumidor em uma loja, o seguro prestamista é contratado digitalmente junto ao empréstimo pessoal.
A recuperação judicial da Casas Bahia conecta, assim, dois momentos distintos da história dos seguros massificados no Brasil. De um lado está a Zurich, credora de quase R$ 2 bilhões em uma relação cuja origem remonta ao período em que seguradoras pagavam valores expressivos pela exclusividade dos grandes balcões. Do outro estão novas parcerias digitais, como a da CNP, construídas em torno de aplicativos, crédito e bases de dados.
Entre esses dois momentos, o varejo brasileiro mudou — e a distribuição de seguros mudou junto com ele. O relacionamento da Casas Bahia com o mercado segurador também mudou ao longo dos anos. Atualmente, a Mapfre mantém parceria com a varejista e oferece produtos como Proteção Casa Casas Bahia, Proteção Financeira Casas Bahia e Vida Protegida e Premiada Casas Bahia. A própria seguradora mantém estrutura específica de atendimento aos consumidores que contrataram esses produtos na rede.
Mais recentemente, outro acordo mostra que o potencial da gigantesca base de clientes da Casas Bahia continuava atraindo seguradoras mesmo em meio à reestruturação financeira do grupo. Em junho deste ano, a CNP Seguradora fechou parceria com a Casas Bahia Pay, que está, por ora, fora do processo de recuperação judicial do Grupo Casas Bahia. para oferecer seguro prestamista aos clientes que contratam empréstimos pessoais pelo aplicativo da plataforma. A operação é totalmente digital e oferece coberturas para morte, invalidez permanente, perda involuntária de emprego e perda temporária de renda decorrente de acidente.
O acordo tem dimensão relevante. A expectativa anunciada é gerar aproximadamente R$ 220 milhões em faturamento nos próximos cinco anos. Além do prestamista, a parceria prevê possibilidade de ampliação para outros seguros, títulos de capitalização e planos odontológicos dentro do ecossistema Casas Bahia Pay. A plataforma reunia, quando a parceria foi anunciada, 8 milhões de contas abertas, 4,9 milhões de cartões emitidos, 21,3 milhões de downloads do aplicativo e mais de R$ 25,4 bilhões em transações acumuladas.
Efeito dominó
O contraste é significativo. Enquanto a Zurich tenta recuperar valores originados de um acordo de distribuição iniciado em 2014, outras seguradoras continuaram enxergando valor na enorme base de consumidores da Casas Bahia e desenvolvendo novos modelos de distribuição dentro do grupo.
Se a dívida da Casas Bahia com a Zurich tem origem específica no relacionamento comercial entre as duas empresas, é no seguro de crédito que a recuperação judicial começa a produzir efeitos mais disseminados sobre o mercado segurador. A diferença entre empresas protegidas e não protegidas já apareceu nos comunicados ao mercado dos fornecedores.
A Positivo Tecnologia informou possuir aproximadamente R$ 19 milhões em recebíveis da Casas Bahia, equivalentes a 2,7% de suas contas a receber líquidas ao final de junho. Segundo a companhia, a exposição está protegida por seguro de crédito contratado com duas seguradoras e não representa risco material para seus resultados de 2026.
A Multi, antiga Multilaser, mostrou o outro lado dessa equação. A fabricante anunciou uma provisão adicional de R$ 20 milhões para possíveis perdas relacionadas à recuperação judicial. O valor corresponde justamente à parcela dos recebíveis que não está protegida por apólices de seguro de crédito ou outros instrumentos de garantia. A empresa já havia realizado R$ 11 milhões em provisões anteriormente.
Os dois casos são praticamente uma demonstração prática da função do seguro de crédito. O produto protege o contas a receber das empresas contra a insolvência ou inadimplência de compradores. As seguradoras acompanham permanentemente a situação financeira das companhias para as quais seus segurados vendem a prazo, estabelecem limites de crédito e podem reduzir ou retirar capacidade quando percebem deterioração do risco.
Americanas foi o grande alerta
Em uma recuperação judicial, portanto, o efeito não se limita ao pagamento de indenizações. A deterioração de um grande varejista pode provocar revisão de limites de crédito para todo o setor, aumento do preço da cobertura e maior seletividade na aceitação de novos riscos. O mercado brasileiro já viveu uma situação semelhante — e ainda maior — com a Americanas.
Quando a companhia entrou em recuperação judicial, em janeiro de 2023, fornecedores começaram a acionar suas apólices de seguro de crédito. Na época, estimativas apontavam que entre R$ 2 bilhões e R$ 3 bilhões dos recebíveis dos fornecedores da varejista poderiam estar protegidos pelo produto. O episódio colocou o seguro de crédito comercial, até então pouco conhecido fora do universo corporativo, sob os holofotes. A Atradius classificou posteriormente o episódio como o maior default da história brasileira e estimou que aproximadamente metade dos cerca de US$ 740 milhões devidos aos grandes fornecedores comerciais estava protegida por seguradoras de crédito.
Casas Bahia pode representar agora um segundo grande teste para essa carteira. Entre seus principais credores comerciais estão alguns dos maiores fabricantes mundiais de eletroeletrônicos. A Samsung aparece com R$ 937,6 milhões a receber, além de Electrolux, LG, Motorola, Britânia e TCL/Semp. A questão para o mercado segurador será saber quanto dessa exposição está coberto e quais seguradoras concederam capacidade para esses compradores.
Crise do varejo já envolve R$ 68 bilhões
O caso Casas Bahia também não pode ser analisado isoladamente. Grandes redes varejistas brasileiras estão renegociando cerca de R$ 68 bilhões em dívidas por meio de recuperações judiciais e extrajudiciais. Americanas, Dia, Polishop, Grupo Pão de Açúcar, Casa & Vídeo, Tok&Stok, Casas Bahia e Marabraz estão entre os casos que colocaram o endividamento do setor no radar de bancos, fornecedores e seguradoras.
O pedido da Casas Bahia expôs ainda mais a fragilidade financeira do varejo. A companhia declarou R$ 17,3 bilhões em dívidas e já havia recorrido, em 2024, a uma recuperação extrajudicial envolvendo aproximadamente R$ 4,8 bilhões.
A empresa afirma que a recuperação judicial será utilizada como instrumento para reorganizar sua estrutura de capital, preservar caixa e negociar com credores. O plano operacional envolve redução de investimentos, fechamento de aproximadamente 300 lojas e corte de cerca de 3 mil funcionários.
A Marabraz também entrou recentemente com pedido de recuperação judicial, reforçando a percepção de deterioração das condições financeiras do comércio. Juros elevados são uma das principais pressões. O varejo depende intensamente de financiamento: precisa comprar estoques, conceder crédito aos consumidores e financiar seu próprio capital de giro. Quando o custo do dinheiro permanece elevado por períodos prolongados, toda essa engrenagem fica mais difícil de sustentar.
Para bancos, o aumento das recuperações significa maior risco de crédito. Para fornecedores, significa decidir quanto continuar vendendo a prazo. Para seguradoras de crédito, significa revisar limites e precificação. E para empresas sem proteção, a conta aparece diretamente no balanço. O comunicado da Multi deixa isso particularmente evidente: a companhia provisionou exatamente a parcela da exposição à Casas Bahia que não estava coberta por seguro ou outras garantias.
Depois da Americanas, a recuperação judicial da Casas Bahia pode, portanto, produzir um novo efeito sobre a percepção das empresas brasileiras em relação ao seguro de crédito. Em momentos de expansão, a cobertura pode parecer apenas mais um custo. Quando um cliente bilionário entra em recuperação judicial, ela passa a definir quem transfere parte do prejuízo para uma seguradora e quem precisa absorvê-lo diretamente no próprio balanço.






















