Venda da Prudential domina bastidores do evento, enquanto seguradoras disputam a plataforma da XP

A notícia sobre a possível venda das operações internacionais da Prudential Financial foi o principal assunto nos corredores da Expert XP 2026 quando o tema era seguros. Maior fornecedora de seguros de vida da plataforma da XP, a companhia despertou dúvidas entre assessores financeiros, que passaram boa parte do evento respondendo às perguntas de clientes sobre o futuro da operação brasileira.

A preocupação, porém, rapidamente deu lugar à tranquilidade. Na avaliação dos profissionais ouvidos pelo Sonho Seguro, a eventual venda não altera a solidez financeira da companhia nem sua capacidade operacional. Pelo contrário. O entendimento predominante é que a decisão faz parte de uma estratégia global da Prudential Financial de concentrar sua atuação no mercado norte-americano, onde está sua principal operação, e otimizar a alocação de capital. “A empresa continua sendo uma das maiores seguradoras de vida dos Estados Unidos e do mundo”, resumiu um assessor que administra carteiras de clientes de alta renda.

Nos bastidores, o mercado já começou a desenhar possíveis cenários. Entre assessores especializados na análise de empresas, três grupos internacionais aparecem como os candidatos mais lembrados, com mais interesse e facilidade de negociar as duas unidades da Prudential a venda: Brasil e México. Todos negam as especulações e afirmam que estão atentos as ofertas já feitas e que novos interessados entraram na disputa.

O primeiro é a MetLife. A leitura é que a companhia reúne sinergias naturais por também ser uma das maiores seguradoras de vida dos Estados Unidos. Além disso, vem reestruturando sua operação brasileira, fortalecendo sua distribuição e ampliando investimentos em marketing. Na visão de interlocutores do mercado, uma eventual aquisição conjunta das operações do Brasil e do México teria lógica estratégica e poderia ser integrada com relativa facilidade.

Outro nome citado é a Tokio Marine. A seguradora japonesa vive um momento de elevada capitalização depois do processo de reorganização promovido pelo grupo no Japão, que vendeu negócios considerados fora do core business para atender às novas exigências da legislação local de solvência. Com caixa disponível, o grupo definiu a América Latina como prioridade de crescimento, tendo o Brasil como principal mercado da região. A companhia entrou recentemente no segmento de vida, mas ainda possui participação modesta, o que alimenta especulações sobre movimentos de expansão.

A terceira candidata lembrada é a CNP Assurances. Sócia da Caixa Seguridade, a companhia francesa vem redesenhando sua estratégia brasileira nos últimos anos para ampliar sua presença por meio de novos canais de distribuição, especialmente corretores e assessorias de investimentos. Para participantes do mercado, uma aquisição desse porte aceleraria significativamente esse projeto.

Entre os grupos nacionais, o nome mais comentado foi o do Bradesco Seguros, que estreiou com um grande estande na Expert XP neste ano e promete mais investimentos no relacionamento com premiações de incentivos e patrocínio de eventos e programas de educação financeira. A percepção ganha força com os investimentos do grupo em ter a estratégia comercial apoiada em diversos canais de vendas, além do bancassurance e dos corretores de seguros e de assessorias, que vêm crescendo nos últimos três anos de forma mais intensa. Outro ponto observado pelos participantes foi a parceria entre a Bradesco Seguros e a Swiss Re Corporate Solutions para seguros corporativos, movimento visto como demonstração do interesse da companhia em ampliar presença também nos segmentos empresarial e patrimonial.

MAG Seguros também apareceu nas conversas. Segundo relatos de assessores presentes no evento, executivos da companhia comentavam informalmente que um eventual interesse dependeria principalmente do preço do ativo. A empresa tem como acionista a holandesa Aegon e acompanha atentamente os movimentos de consolidação do mercado.

Embora os bancos encarregados da venda indiquem uma avaliação próxima de US$ 3 bilhões para os ativos internacionais colocados à venda, interlocutores ouvidos pelo Sonho Seguro consideram esse valor elevado. Nos cálculos compartilhados entre assessores presentes na Expert XP, uma eventual negociação poderia ser concluída entre US$ 1,5 bilhão e US$ 2,4 bilhões, dependendo do escopo final da operação.

Enquanto isso, a disputa pelos assessores acelera

Enquanto o mercado discutia quem poderá assumir os ativos da Prudential fora dos Estados Unidos — incluindo Brasil e México — outro movimento acontecia simultaneamente dentro da Expert XP 2026: praticamente todas as grandes seguradoras reforçavam seus investimentos para conquistar justamente os assessores financeiros da plataforma.

O recado foi dado pelo CEO da XP Seguridade, André Lauzana. “A XP é uma casa de investimentos, mas também é uma casa de proteção.” A frase sintetizou a transformação vivida pelo setor. O seguro deixou de ocupar uma prateleira separada para integrar definitivamente a estratégia patrimonial dos investidores, ao lado de investimentos, previdência privada e planejamento sucessório.

Os assessores financeiros se transformaram no principal campo de batalha das seguradoras. Nesta edição do evento, o movimento mostra que a disputa deixou de ocorrer apenas entre seguradoras e passou a envolver quem controla o relacionamento com o cliente. Além das parcerias já consolidadas na plataforma XP, como Prudential, Icatu, MAG, MetLife, Omint e Mapfre, a Bradesco Seguros e a Tokio Marine iniciaram oficialmente a distribuição de seguros dentro da XP. A Bradesco começou com um seguro de vida, com outros produtos em negociação, como consórcio, e a Tokio Marine confirmou que iniciará, nas próximas semanas uma agenda específica voltada aos assessores da XP para apresentar seu portfólio de seguros destinados às pessoas jurídicas, especialmente produtos voltados à proteção do patrimônio físico de empresas de diferentes portes.

Essa mudança foi o tema central do painel que reuniu Luciano Soares, CEO da Icatu Seguros; Breno Gomes, CEO da MetLife Brasil; e Patrícia Freitas, CEO da Prudential do Brasil. “O planejamento financeiro não existe sem proteção”, afirmou Luciano Soares. Segundo ele, apenas cerca de 18% dos brasileiros possuem seguro de vida, enquanto mercados maduros apresentam índices próximos de 50%. Para o executivo, o desafio não é mais criar produtos, mas inserir a proteção na conversa sobre patrimônio. A Icatu aproveitou a Expert XP para anunciar a ampliação do maior capital segurado disponível atualmente no mercado brasileiro. O limite passou para R$ 150 milhões, com idade máxima de ingresso ampliada para 80 anos e produtos que variam desde soluções de entrada, a partir de R$ 26 mensais, até estruturas patrimoniais altamente sofisticadas. “Nossa missão é proteger o maior número possível de brasileiros. Proteção não pode ser privilégio nem uma solução padronizada.”

Na MetLife, Breno Gomes reforçou que o seguro precisa acompanhar toda a construção patrimonial. “O seguro antecipa o patrimônio que a família ainda não construiu.” Gomes acredita que o setor será completamente diferente do atual em cinco anos. Segundo ele, produtos mais completos, soluções patrimoniais sofisticadas e ferramentas de inteligência artificial estarão presentes em toda a jornada, desde o treinamento dos assessores até a recomendação personalizada de coberturas aos clientes. Para o executivo, produtos como o Universal Life deverão finalmente fazer parte do mercado brasileiro.

Já Patrícia Freitas destacou uma mudança importante na utilização do produto. Atualmente, mais de 90% dos benefícios pagos pela Prudential são destinados ao próprio segurado, e não aos beneficiários, demonstrando que o seguro deixou de ser uma solução apenas para a morte e passou a proteger renda, patrimônio e qualidade de vida durante toda a jornada financeira. Ela lembrou que o Brasil passou de cerca de mil para aproximadamente 27 mil assessores em pouco mais de uma década e acredita que esse crescimento ajudará a elevar a penetração do seguro de vida dos atuais 18% para cerca de 25% nos próximos cinco anos. “Já seria um grande avanço”, afirmou. “Temos muito espaço para amadurecer o uso correto do seguro de vida como instrumento de planejamento financeiro.”

Ao final do painel, os três executivos concordaram em um ponto: o próximo ciclo de crescimento será liderado menos pelos produtos e mais pela distribuição. Na visão deles, a combinação entre assessoria financeira, inteligência artificial, soluções patrimoniais e novos modelos de distribuição deverá elevar significativamente a participação do seguro de vida no planejamento financeiro dos brasileiros durante os próximos anos. Se depender do movimento observado na Expert XP, essa transformação já começou.

Denise Bueno
Denise Buenohttp://www.sonhoseguro.com.br/
Denise Bueno sempre atuou na área de jornalismo econômico. Desde agosto de 2008 atua como jornalista freelancer, escrevendo matérias sobre finanças para cadernos especiais produzidos pelo jornal Valor Econômico, bem como para revistas como Época, Veja, Você S/A, Valor Financeiro, Valor 1000, Fiesp, ACSP, Revista de Seguros (CNSeg) entre outras publicações. É colunista do InfoMoney e do SindSeg-SP. Foi articulista da Revista Apólice. Escreveu artigos diariamente sobre seguros, resseguros, previdência e capitalização entre 1992 até agosto de 2008 para o jornal econômico Gazeta Mercantil. Recebeu, por 12 vezes, o prêmio de melhor jornalista de seguro em concursos diversos do setor e da grande mídia.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Ouça nosso podcast

ARTIGOS RELACIONADOS