LISBOA – A combinação entre ciência climática, inteligência artificial e análise de dados está criando uma nova geração de ferramentas para medir riscos, antecipar perdas e apoiar decisões de adaptação às mudanças climáticas. O tema foi debatido no painel “Dados e Inteligência Climática”, realizado durante o 1º Fórum de Seguros Brasil-Portugal – Colaborar para Adaptar.
Logo no início da apresentação, Pedro Matos Soares, pesquisador do Instituto Dom Luiz (IDL), destacou que os riscos climáticos não podem ser analisados apenas pela ótica da mudança do clima. Segundo ele, o risco resulta da combinação entre três fatores: perigosidade climática, exposição e vulnerabilidade. “Não é apenas o clima que está mudando. A sociedade aumentou enormemente sua exposição e, em muitos casos, também sua vulnerabilidade”, afirmou.
O pesquisador apresentou dados que mostram a aceleração dos impactos climáticos globais. Segundo ele, a taxa de elevação do nível médio do mar multiplicou-se por cinco nas últimas décadas, enquanto os eventos extremos de precipitação, ondas de calor e incêndios florestais se tornaram mais frequentes e intensos. Apenas na União Europeia, perdas econômicas relacionadas a eventos meteorológicos e climáticos ultrapassaram € 650 bilhões nos últimos 42 anos.
Segundo Soares, os modelos globais conseguem hoje representar atmosfera, oceanos, vegetação, gelo e ciclo de carbono, mas ainda operam em escalas insuficientes para a tomada de decisão empresarial. Para superar essa limitação, pesquisadores vêm combinando modelagem climática regional, imagens de satélite e inteligência artificial para gerar informações cada vez mais precisas sobre ativos específicos, cidades, infraestruturas e carteiras de seguros.
O especialista apresentou exemplos aplicados a Portugal, São Paulo e Estados Unidos, mostrando como essas ferramentas permitem identificar ilhas de calor urbanas, riscos de inundação, vulnerabilidade costeira, produtividade agrícola e impactos sobre redes elétricas. Segundo ele, a nova geração de dados climáticos permitirá que seguradoras, empresas e governos tomem decisões mais precisas sobre investimentos, adaptação e precificação de riscos.
Na avaliação de Pedro Baptista, chefe da Unidade de Adaptação e Financiamento Climático, Agência para o Clima, um dos principais desafios atuais não é a ausência de dados, mas a dificuldade de organizar e transformar essas informações em instrumentos efetivos de decisão. “Hoje existe muita informação disponível. O desafio é recolher, sistematizar, trabalhar esses dados e apresentá-los de forma acionável para os diversos atores”, afirmou.
Segundo o representante da Agência para o Clima, a nova Estratégia Nacional de Adaptação às Alterações Climáticas de Portugal busca justamente integrar dados produzidos por universidades, órgãos públicos e instituições internacionais para apoiar políticas públicas e investimentos privados.
Baptista ressaltou ainda a importância de ampliar a coleta de dados sobre perdas e danos provocados por eventos extremos, informação considerada fundamental para o planejamento de medidas de adaptação e para o desenvolvimento de mecanismos de proteção financeira.
Um desafio para seguradoras
Representando a CNseg, Antonio Trindade observou que o setor segurador passa por um momento de transformação diante do aumento dos riscos climáticos. Em tom bem-humorado, afirmou que, após ouvir os dados apresentados nos dois primeiros painéis do fórum, sua reação inicial como ex-executivo de seguradora seria recomendar cautela extrema na subscrição desses riscos.
Mas logo em seguida destacou que a enorme quantidade de informações hoje disponível cria uma oportunidade inédita para o desenvolvimento do mercado. “O grande desafio é organizar os dados, dar confiabilidade a essas informações e educar o mercado segurador para utilizá-las adequadamente”, afirmou.
Segundo Trindade, a CNseg já trabalha na construção de um hub de informações voltado inicialmente para riscos de inundação e seca. O objetivo é integrar dados climáticos, informações de infraestrutura, histórico de perdas e experiências internacionais para apoiar políticas de prevenção e ampliar a capacidade de subscrição das seguradoras brasileiras.
O executivo citou como exemplo as enchentes do Rio Grande do Sul e observou que parte dos danos poderia ter sido mitigada por investimentos preventivos e melhor manutenção de infraestruturas de contenção. “A prevenção continua sendo o melhor seguro”, resumiu.
Trindade também destacou a proposta que a CNseg vem desenvolvendo junto ao governo federal para a criação de um seguro de catástrofes voltado às populações mais vulneráveis. Segundo ele, a ideia é estruturar um mecanismo de caráter assistencial, com indenizações de menor valor, destinado a famílias que vivem em áreas mais expostas a enchentes, deslizamentos e outros eventos extremos.
Na avaliação do executivo, a iniciativa pode tornar mais rápida e eficiente a chegada dos recursos às vítimas de desastres naturais. “O mercado segurador tem capacidade de fazer esse dinheiro chegar mais rapidamente a quem precisa. Em vez de passar por diversas instâncias administrativas, os recursos podem alcançar diretamente as famílias atingidas”, afirmou.
Segundo Trindade, o projeto também pode representar um primeiro passo para a construção de um mercado mais robusto de proteção contra catástrofes no Brasil. Para isso, defendeu a participação conjunta de seguradoras, resseguradoras, fundos públicos e mecanismos de compartilhamento de riscos. “Precisamos construir uma solução capaz de proteger as comunidades mais vulneráveis e aumentar a resiliência do país diante dos eventos climáticos extremos”, disse.
Ao encerrar sua apresentação, Pedro Matos Soares fez um alerta sobre a necessidade de transformar conhecimento científico em decisões concretas. Segundo ele, apesar dos avanços na modelagem climática, na inteligência artificial e na produção de dados de alta resolução, essas informações ainda são subutilizadas por governos, empresas e instituições.
“No Brasil existe ainda uma cultura limitada de dados abertos. Hoje gera-se economia com dados. Temos informações sobre riscos climáticos há muitos anos, com diferentes níveis de granularidade e sofisticação, mas elas continuam sendo pouco utilizadas na tomada de decisão”, afirmou.
Para o pesquisador, a informação climática deve ser encarada como uma ferramenta operacional de gestão de riscos. Na sua avaliação, embora seja difícil alterar a evolução do clima no curto prazo, governos, empresas e seguradoras podem agir sobre dois fatores fundamentais do risco: a exposição e a vulnerabilidade. “Quando decidimos investir em locais sujeitos a determinados riscos e não levamos essa informação em consideração, estamos tomando uma má decisão. Os dados existem justamente para apoiar escolhas mais resilientes e eficientes”, concluiu.
Ao final do painel, os participantes convergiram na avaliação de que dados, modelagem climática e inteligência artificial deixarão de ser ferramentas complementares para se tornar elementos centrais da gestão de riscos nas próximas décadas. Para eles, a capacidade de transformar informação científica em decisões práticas será um dos principais diferenciais para governos, empresas e seguradoras em um mundo cada vez mais exposto aos efeitos das mudanças climáticas.


















