LISBOA – As mudanças climáticas deixaram de ser um desafio futuro para se tornar uma realidade econômica, social e financeira. A avaliação foi compartilhada pelos participantes do painel “Gerir o Clima é Gerir Risco”, realizado durante o 1º Fórum de Seguros Brasil-Portugal – Colaborar para Adaptar, que reuniu especialistas em sustentabilidade, regulação e seguros para discutir como ampliar a resiliência das economias diante da intensificação dos eventos extremos. Participaram do debate Duarte Cordeiro, presidente Sócio da Shiftify Estratégias de Sustentabilidade, Carlos Guiné, diretor de sustentabilidade da Eiopa, autoridade europeia de supervisão de seguros e previdência, e Cláudia Prates, diretora de sustentabilidade da CNseg, a confederação das seguradoras do Brasil. O painel foi moderado por João Mestre.
Na palestra principal do painel, Duarte Cordeiro apresentou um diagnóstico detalhado dos impactos das mudanças climáticas em Portugal e na Europa. Segundo ele, o continente aquece a uma velocidade aproximadamente duas vezes superior à média global e já registra efeitos concretos das alterações climáticas sobre a economia e a qualidade de vida da população.
O especialista destacou que quatro dos cinco anos mais quentes da história de Portugal ocorreram entre 2022 e 2025. Apenas em 2025 o país enfrentou seis ondas de calor, enquanto cinco dos dez anos mais secos já registrados ocorreram desde o ano 2000. A erosão costeira também avança de forma acelerada: entre 1958 e 2020, Portugal perdeu 13 quilômetros quadrados de território para o mar.
Segundo Cordeiro, os impactos financeiros já são expressivos. Somente os eventos climáticos registrados no inverno de 2026 provocaram prejuízos estimados em € 5,3 bilhões. Além disso, dados internacionais mostram que cerca de 57% das perdas econômicas relacionadas a eventos climáticos permanecem sem cobertura securitária.
Para o especialista, os desafios geopolíticos atuais, incluindo tensões comerciais, conflitos internacionais e pressões sobre o custo da energia, tornam ainda mais complexa a implementação das políticas climáticas. Ainda assim, ele defendeu que governos e empresas mantenham os compromissos assumidos no Acordo de Paris e reforcem investimentos em adaptação. “Grande parte das perdas acontece porque continuamos construindo em áreas de risco. O risco não entra na conta. Quando ele passar a entrar, muitas decisões econômicas serão diferentes”, afirmou.
Segundo Cordeiro, seguradoras podem desempenhar papel decisivo ao fornecer dados, estudos e mecanismos capazes de aumentar a consciência dos agentes públicos e privados sobre os riscos climáticos, contribuindo para decisões mais adequadas de ocupação do território e planejamento urbano.
Claudia Prates, da CNseg, detalhou como os impactos climáticos já afetam a economia brasileira e evidenciam uma enorme lacuna de proteção. Segundo Cláudia Prates, entre 2020 e 2024 o Brasil registrou perdas econômicas médias superiores a R$ 12 bilhões por ano associadas a 67 eventos climáticos extremos analisados pela entidade. Apesar disso, aproximadamente 90% dessas perdas não possuíam cobertura securitária. “O Brasil ainda possui uma lacuna de proteção muito elevada. Quando olhamos para esses números, fica evidente que precisamos avançar na construção de uma economia mais resiliente”, afirmou.
A executiva destacou que o país gasta atualmente cerca de dez vezes mais recursos na recuperação de desastres do que em adaptação climática, situação que considera insustentável diante da crescente frequência dos eventos extremos. Segundo ela, estudo recente do Lloyd’s mostrou que cada redução de 1% na lacuna de proteção pode evitar cerca de 22% dos gastos posteriores com recuperação e reconstrução.
Para Cláudia, o setor segurador precisa ocupar papel estratégico nesse processo, trabalhando ao lado do governo, do mercado de capitais e do sistema financeiro para financiar a adaptação climática e fortalecer a gestão de riscos. “Não adianta reconstruir no mesmo local sem adaptação. Não adianta uma empresa aumentar sua resiliência se o município não fizer sua parte. Os riscos climáticos precisam ser vistos de forma integrada”, afirmou.
A diretora da CNseg chamou atenção para a vulnerabilidade da infraestrutura brasileira. Segundo ela, escolas, hospitais, rodovias e outras estruturas públicas continuam amplamente expostas aos riscos climáticos, enquanto o agronegócio — responsável por parcela relevante do PIB nacional — permanece entre os setores mais suscetíveis aos efeitos das mudanças do clima.
Outro ponto destacado pela executiva foi a necessidade de ampliar a consciência da população sobre os riscos. Ela lembrou que a CNseg desenvolveu ferramentas para permitir que cidadãos consultem o nível de exposição de seus imóveis a eventos como inundações, além de defender a criação de mecanismos de proteção social para catástrofes climáticas voltados às populações mais vulneráveis.
“Quem mais sofre com os eventos extremos são as populações vulneráveis. Quando ocorre uma enchente, não há apenas a perda patrimonial. Há queda de arrecadação, endividamento das famílias, dificuldades para as empresas se reerguerem e enfraquecimento da economia local”, afirmou.
Seguradoras devem deixar de ser apenas pagadoras de sinistros
Representando a autoridade europeia de supervisão de seguros, Carlos Guiné destacou que as mudanças climáticas já começam a produzir um fenômeno preocupante em algumas regiões da Europa: áreas onde o seguro se torna excessivamente caro ou simplesmente deixa de estar disponível. Segundo ele, o setor segurador precisa assumir um papel mais ativo na prevenção e na redução dos riscos. “O seguro não pode atuar apenas depois que o sinistro acontece. As seguradoras precisam tornar-se parceiras na gestão do risco e na construção da resiliência”, afirmou.
Guiné explicou que o preço do seguro funciona como um importante sinalizador econômico. Ao refletir adequadamente o risco, as seguradoras podem incentivar investimentos em prevenção, adaptação e construção resiliente. Também destacou o potencial do setor para apoiar processos de reconstrução sustentável após eventos extremos. Na avaliação do regulador europeu, o futuro do mercado passa por uma transformação de papel: deixar de atuar apenas como pagador de sinistros para se tornar um agente ativo de prevenção, orientação e gestão de riscos.


















