O mercado segurador brasileiro já não discute mais se as mudanças climáticas afetarão seus negócios. A questão agora é como se adaptar a um cenário em que eventos extremos deixam de ser exceção para se tornarem parte permanente da gestão de riscos. A necessidade de rever modelos de subscrição, programas de resseguro, limites de cobertura e até a forma de orientar os clientes foi o centro das discussões do evento “Impacto do El Niño nos seguros e suas oportunidades”, promovido nesta terça-feira pela Mapfre.
O encontro reuniu corretores, especialistas em clima e executivos das áreas técnica, comercial, patrimonial e rural para mostrar que os impactos já atingem praticamente todas as carteiras da indústria seguradora. Não se trata apenas de proteger uma lavoura contra seca ou uma residência contra enchentes. As mudanças climáticas já afetam seguros de automóveis, empresas, aeroportos, centros logísticos, indústrias, aeronaves agrícolas, grandes propriedades rurais e cadeias inteiras de prestação de serviços.
A principal mensagem foi clara: o seguro também precisará se adaptar ao novo clima. A tragédia climática que atingiu o Rio Grande do Sul tornou-se o principal exemplo apresentado pela Mapfre para ilustrar a dimensão do desafio. As perdas econômicas foram estimadas em aproximadamente R$ 100 bilhões. Desse total, apenas cerca de R$ 6 bilhões estavam protegidos por seguros, revelando um dos maiores gaps de proteção já registrados no país. Ao todo, aproximadamente 58 mil avisos de sinistros foram contabilizados.
Os reflexos atingiram praticamente todas as linhas de negócios. No segmento de Grandes Riscos, foram registrados cerca de 922 sinistros, que resultaram em mais de R$ 3,2 bilhões em indenizações envolvendo aeroportos, concessionárias, indústrias, grandes centros logísticos e multinacionais. No seguro residencial, milhares de imóveis foram atingidos pelas enchentes, gerando aproximadamente R$ 340 milhões em indenizações e cerca de R$ 95 milhões destinados à reconstrução de residências.
Também houve reflexos sobre o seguro de automóveis, principalmente por alagamentos e queda de árvores, além da interrupção de atividades econômicas dependentes das condições climáticas, como operações realizadas por aeronaves agrícolas.
A base técnica do encontro foi apresentada por Gabriel Perez, PhD em Ciências Climáticas e cofundador da MeteoIA. Segundo ele, ainda é impossível prever exatamente como a atmosfera irá se comportar. Mas a evolução dos modelos meteorológicos permite identificar regiões onde existe elevada probabilidade de ocorrência de excesso ou falta de chuva. “Não conseguimos controlar a atmosfera. O que conseguimos é transformar informação em inteligência para melhorar a subscrição, preparar as equipes de sinistros e permitir que produtores e empresas se antecipem aos riscos”, explicou.
Perez explicou que os modelos atualmente já conseguem atingir cerca de 70% de confiabilidade em determinadas previsões regionais. A expectativa é de um El Niño pelo menos forte, podendo atingir intensidade muito forte, embora ainda não seja possível classificá-lo como um “super El Niño”.
Os cenários apresentados indicam maior probabilidade de chuvas acima da média no Sul do país e déficit hídrico em parte do Centro-Oeste e do interior do Sudeste, afetando simultaneamente seguros patrimoniais e agrícolas. A Mapfre apresentou ainda mapas preditivos que estimam maior risco de vendavais, danos elétricos e alagamentos para diferentes regiões brasileiras durante o ciclo 2026/27. Essas informações deixam de ser apenas previsões meteorológicas para orientar decisões de subscrição, precificação, engenharia de riscos e planejamento operacional das seguradoras.
O desafio deixou de ser climático. Agora também é econômico. Para o diretor técnico de Seguro Rural da Mapfre, Fabio Damasceno, o El Niño é apenas uma das variáveis que tornam a próxima safra extremamente complexa. “O ano deixou de ser apenas desafiador. Hoje ele é complexo. Se fosse apenas a questão climática já seria difícil. Mas ela vem acompanhada do cenário macroeconômico, dos juros elevados, da falta de recursos da subvenção e do aumento dos custos de produção.”
Segundo ele, muitos produtores iniciam o planejamento da safra já com margens negativas. “O produtor faz as contas e percebe que, mesmo produzindo dentro do potencial esperado, o resultado financeiro já começa negativo.” Esse cenário faz com que muitos agricultores reduzam investimentos justamente naquilo que torna a lavoura mais resistente aos eventos climáticos. “Quando o produtor diminui aplicações de insumos ou reduz tecnologia para cortar custos, ele diminui a resiliência da cultura. Isso aumenta potencialmente o risco para todos.”
Outro agravante é a incerteza sobre a subvenção federal ao prêmio do seguro rural. Historicamente, entre 20% e 40% do valor pago pelo produtor era subsidiado pelo governo. Sem esse apoio, o custo da proteção aumenta justamente quando cresce também a exposição ao risco climático. “Vai aumentar a demanda por seguro principalmente nas áreas de maior risco.” Mesmo assim, Damasceno afirma que a estratégia da companhia permanece baseada na diversificação. “A Mapfre não vai deixar de ofertar seguro. Nosso trabalho é balancear carteira, regiões, culturas e produtos para manter sustentabilidade.”
Curiosamente, o aumento da percepção de risco pode abrir uma oportunidade histórica para ampliar a penetração do seguro agrícola em regiões onde sua contratação ainda é pequena. Segundo Damasceno, produtores do Centro-Oeste e do Matopiba sempre confiaram na elevada tecnologia empregada nas lavouras e, por isso, contrataram menos seguros do que agricultores do Sul.
Agora esse comportamento começa a mudar. “Talvez esse produtor perceba que também está exposto ao risco climático e passe a enxergar o seguro como ferramenta de gestão do negócio.” Para atender esse mercado, a Mapfre investe em modelos baseados em georreferenciamento, imagens de satélite, histórico produtivo e inteligência geográfica.
No ano passado, a companhia utilizou essa tecnologia para analisar aproximadamente 15 mil áreas agrícolas em um projeto piloto. A expectativa é que esse produto cresça cerca de 900% nesta safra. O maior desafio ainda é cultural. Outro ponto levantado pelos executivos da companhia é que vender seguro agrícola não significa apenas comercializar uma apólice. É preciso explicar claramente o que está sendo protegido.
Enquanto produtores do Sul convivem com o seguro há décadas e compreendem que ele protege o investimento realizado na lavoura, muitos agricultores de outras regiões ainda acreditam que a indenização deve garantir todo o lucro esperado da safra. “O seguro agrícola garante produtividade contratada. Não garante lucro.”
A mesma preocupação vale para os seguros paramétricos. Segundo os especialistas, muitos produtores procuram esse tipo de cobertura acreditando que ela substitui o seguro tradicional. Na prática, os produtos possuem finalidades diferentes. “O paramétrico cobre eventos específicos. Quando ele é vendido como substituto do seguro tradicional e não ocorre exatamente o gatilho previsto em contrato, o produtor acaba frustrado e a imagem do produto é prejudicada.”
O corretor passa a ser gestor de riscos
Se durante muitos anos o trabalho do corretor consistia basicamente em comparar preços e coberturas, a tendência é que sua atuação se torne cada vez mais consultiva. A própria Mapfre estruturou o evento para mostrar essa mudança. Após a apresentação científica sobre o comportamento do El Niño, a companhia reuniu especialistas em resseguro, seguros patrimoniais, grandes riscos e seguro rural para discutir como essas informações climáticas serão incorporadas ao dia a dia da operação.
O objetivo é transformar previsões meteorológicas em inteligência de negócios. Isso significa orientar clientes sobre prevenção, revisar limites de cobertura, ajustar contratos de resseguro, fortalecer a engenharia de riscos e preparar previamente as equipes responsáveis pelo atendimento aos sinistros.
O grande desafio daqui para frente será equilibrar uma conta cada vez mais difícil. De um lado, consumidores e empresas desejam ampliar coberturas sem aumentar o custo do seguro. Do outro, a frequência e a intensidade dos eventos climáticos elevam o volume de indenizações, pressionando a precificação dos riscos.
A resposta, na avaliação dos especialistas reunidos pela Mapfre, não passa apenas por reajustar preços. Ela dependerá da capacidade do setor de utilizar inteligência climática, tecnologia, dados e engenharia de riscos para antecipar cenários, reduzir perdas e tornar o seguro mais sustentável. A mudança do clima já começou. E, para o mercado segurador, ela representa também uma mudança definitiva na forma de calcular, vender e administrar riscos.






















