Infraestrutura abre nova frente de negócios para seguros, mas projetos exigem mais capacidade e resseguro

O 3º Fórum IRB(P&D) foi realizado no Rio de Janeiro sob o tema “Não há futuro sem seguro: ciência, inovação e resiliência para ampliar a proteção”.

A retomada dos investimentos em infraestrutura no Brasil abre uma importante avenida de crescimento para seguradoras e resseguradoras. Seguro garantia, grandes riscos e soluções voltadas à continuidade de obras tendem a ganhar espaço à medida que avançam concessões e projetos em setores como energia e mineração. Mas capturar essa oportunidade exigirá mais capacidade, especialização e uma divisão mais eficiente dos riscos entre governo, investidores, empreendedores e mercado segurador.

O tema encerrou o 3º Fórum IRB(P&D), no painel “Desafios da indústria de seguros: proteção para negócios e infraestrutura”, que reuniu Daniel Zaltman, diretor de Subscrição do IRB(Re); Hailton Madureira, diretor de Relações Institucionais da CNseg; e Jorge Sant’Anna, diretor-presidente da Daycoval Seguros. A moderação foi de Antonio Penteado, articulista do Estadão e apresentador do boletim diário “Siga Seguro”.

Para Zaltman, crescimento econômico e investimentos em infraestrutura ampliam naturalmente a demanda por proteção. Mas o tamanho e a complexidade dos novos projetos elevam também as exigências sobre o mercado segurador. “Projetos maiores e mais complexos exigem disciplina técnica, capacidade e inovação, que são determinantes para impulsionar essa expansão”, afirmou.

Uma das mudanças destacadas no painel está na própria estruturação dos projetos.Madureira lembrou que o Brasil já teve experiências em que os riscos foram mal distribuídos, sendo transferidos excessivamente para o concessionário ou, no outro extremo, para o segurado.Agora, segundo ele, o mercado atravessa uma fase de revisão dessa arquitetura.“Estamos avançando, passando por um momento de recalibrar a distribuição dos riscos entre investidor, empreendedor e consumidor.” Essa reorganização, acrescentou, abre oportunidades para o setor segurador em áreas que demandarão volumes elevados de investimentos nos próximos anos, entre elas energia e mineração.

Jorge Sant’Anna chamou atenção para outro ponto: o déficit histórico de investimentos em infraestrutura no país e a necessidade de mudar a forma como o próprio seguro é percebido dentro dos projetos. “É preciso tirar da cabeça que o seguro é garantia de indenização. Seguro é para que seja possível concluir a obra”, afirmou.

Na avaliação do executivo, o momento é favorável para a captação de recursos, mas atrair investidores exige mecanismos capazes de reduzir as incertezas relacionadas aos projetos. “Temos que, junto com os governos, definir ações para dar tranquilidade para os investidores.”

A discussão coloca o seguro em uma posição que vai além da reparação de uma perda. Em grandes projetos, a cobertura passa a integrar a própria estrutura financeira e de gestão de riscos necessária para viabilizar investimentos.

O avanço das concessões e do seguro garantia também traz uma questão fundamental para as companhias: até onde é possível assumir determinado risco e por qual preço? Questionado sobre a contratação de seguro garantia em obras de infraestrutura, Zaltman destacou que as seguradoras precisam compreender profundamente aquilo que está sendo contratado pelas concessionárias.

“Esse é o desafio das seguradoras: entender os riscos, como precificá-los e se vai ser possível absorvê-los e pagar pelos mesmos.” Segundo ele, essa capacidade está diretamente relacionada à modernização da análise de dados no mercado segurador.

Quanto maiores e mais complexos forem os projetos, maior será a necessidade de informações capazes de sustentar subscrição, modelagem, precificação e definição da capacidade que seguradoras e resseguradoras poderão colocar à disposição.

Lei Federal nº 14.133/2021, a Nova Lei de Licitações, também foi apontada como um avanço para o desenvolvimento do seguro garantia no Brasil. Para Madureira, a legislação cria oportunidades, mas exige uma aproximação maior entre seguradoras e os diferentes setores envolvidos nos projetos. “Nosso papel agora é nos aproximar dos setores envolvidos para entender mais sobre os riscos e qual problema o contratante precisa resolver.” O desafio é evitar que uma estrutura inadequada de proteção termine prejudicando tanto quem financia o projeto quanto quem contrata o seguro.

Um dos pontos em que o mercado brasileiro ainda precisa amadurecer é o chamado step-in, mecanismo pelo qual pode ocorrer uma intervenção para evitar que uma obra ou projeto em dificuldades seja simplesmente paralisado. Zaltman avalia que boa parte das seguradoras já possui capacidade para analisar e precificar diferentes riscos. Assumir uma posição mais ativa para garantir a continuidade de um projeto problemático, entretanto, exige outro grau de especialização. “O processo de step-in é mais complicado. Nesse aspecto, nosso mercado ainda precisa evoluir.” Essa evolução ganha relevância justamente porque a Nova Lei de Licitações ampliou a discussão sobre seguros garantia com cláusula de retomada em grandes contratos públicos.

O crescimento desse mercado também dependerá diretamente da capacidade disponível no resseguro. Sant’Anna lembrou que seguro garantia é uma atividade altamente especializada internacionalmente e exige conhecimento técnico, capital e estruturas adequadas para distribuição dos riscos. “Nossas seguradoras mais antigas são fantásticas e conhecem os riscos desse tipo de seguro, tanto que não fazem”, provocou.

Para ele, entrar nesse segmento exige muito mais do que enxergar uma oportunidade comercial. “É preciso expertise, capital e estrutura de resseguro. Não existe seguro garantia sem resseguro.” A frase sintetiza um dos principais desafios dessa nova avenida de negócios. O pipeline de concessões e investimentos pode ampliar significativamente a demanda por proteção, mas o crescimento sustentável do seguro garantia dependerá da capacidade de seguradoras e resseguradoras de selecionar, precificar e distribuir riscos de projetos cada vez maiores e mais sofisticados.

Nesse cenário, infraestrutura pode se transformar em uma importante fronteira de crescimento para o mercado segurador brasileiro — desde que o seguro seja incorporado desde a estruturação do projeto, e não tratado apenas como uma apólice a ser contratada depois.

Denise Bueno
Denise Buenohttp://www.sonhoseguro.com.br/
Denise Bueno sempre atuou na área de jornalismo econômico. Desde agosto de 2008 atua como jornalista freelancer, escrevendo matérias sobre seguros, previdência, educação financeira, longevidade e saúde para o blog Sonho Seguro, do qual e fundadora, e para cadernos especiais produzidos pelo jornal Valor Econômico, bem como para revistas como Época, Veja, Você S/A, Valor Financeiro, Valor 1000, Revista de Seguros (CNSeg) entre outras publicações. É colunista do SindSeg-SP, entrevistadora em eventos e podcasts, bem como palestrante sobre temas diversos que envolvem o setor de seguros. Escreveu artigos diariamente sobre seguros, resseguros, previdência e capitalização entre 1992 até agosto de 2008 para o jornal econômico Gazeta Mercantil. Recebeu, por 17 vezes, o prêmio de melhor jornalista de seguro em concursos diversos do setor e da grande mídia.

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