O cooperativismo financeiro pode se tornar um dos principais canais para reduzir o gap de proteção no Brasil. Mas o caminho não será simplesmente colocar os seguros existentes nas milhares de agências espalhadas pelo país. O desafio é aproveitar a proximidade das cooperativas com seus associados para desenvolver produtos adequados às necessidades de cada região, especialmente diante do aumento dos riscos climáticos.
Essa foi uma das principais mensagens do painel “O papel do cooperativismo para reduzir o gap de proteção no Brasil”, realizado durante o 3º Fórum IRB(P&D), com Ricardo Balbinot, presidente do Conselho de Administração da Cresol MT; Jeferson Betemps, gerente de Produtos e Serviços do Sicredi; e Marcelo Carneiro, diretor da Sicoob Seguradora. A mediação foi de Glaucio Tomaya, diretor de Agro do IRB(Re).
A discussão ocorre em um momento de transformação do cooperativismo no mercado segurador. As mudanças regulatórias recentes ampliaram as possibilidades de atuação das cooperativas no setor, enquanto os grandes sistemas já possuem milhões de associados, forte presença no interior e uma relação histórica principalmente com pequenos e médios produtores rurais.
É justamente essa capilaridade que pode ajudar a levar seguros a consumidores e empresas ainda pouco protegidos. Balbinot contou que a Cresol nasceu há 31 anos no interior do Paraná, ligada principalmente aos pequenos e médios produtores e à agricultura familiar. Hoje, segundo ele, a instituição está presente em 20 estados, com cerca de 1,2 mil agências e 12 mil colaboradores. Aproximadamente 70% a 75% da atuação ainda está concentrada na Região Sul, justamente uma das áreas mais afetadas nos últimos anos por eventos climáticos extremos. A relação entre crédito e seguro tornou-se, por isso, estratégica.
A Cresol começou a estruturar sua atuação em seguros em 2011, inicialmente por meio de corretoras e seguradoras parceiras. Posteriormente, desenvolveu estrutura própria de corretagem, mantendo parcerias com diferentes companhias. O objetivo é conectar a concessão do crédito à gestão dos riscos enfrentados pelo associado.
Para Balbinot, o seguro não pode ser visto como produto isolado dentro da cooperativa. O mesmo associado que contrata a proteção utiliza crédito e outros serviços financeiros e mantém uma relação de longo prazo com a instituição. “Usamos o mercado de seguros como uma das ferramentas de proteção. É extremamente importante”, afirmou.
Capilaridade chega onde muitas vezes não há corretor
Um dos dados apresentados no debate ajuda a entender o potencial desse canal: cerca de 90% das agências das cooperativas estão em cidades com até 50 mil habitantes. Em muitas dessas localidades pode existir outra cooperativa financeira, mas não necessariamente há presença relevante de corretoras ou profissionais especializados em seguros.
Para Balbinot, isso significa que muitos produtores ainda não convivem naturalmente com a oferta de proteção securitária. O desafio passa a ser levar seguro a esse “mundo distante” de maneira acessível, utilizando tecnologia e, principalmente, acompanhando as próprias carteiras de crédito das cooperativas.
A ambição é sincronizar crédito e proteção, mas não simplesmente tornar o seguro uma obrigação associada ao financiamento. A proteção precisa fazer sentido para quem está contratando. Ou seja: o produtor não deveria contratar porque “financiou e é obrigado a segurar”, mas porque compreende que o seguro protege sua operação financeira, seu patrimônio e sua capacidade de continuar produzindo.
Jeferson Betemps trouxe números que mostram a dimensão dessa rede de distribuição. O Sicredi reúne mais de 10 milhões de associados, aproximadamente 50 mil colaboradores, 99 cooperativas, cinco centrais e mais de 3,1 mil agências.
A instituição pretende abrir outras 140 unidades nos próximos meses. A rede alcança aproximadamente 2,2 mil municípios brasileiros e, em cerca de 200 deles, o Sicredi é a única instituição financeira presente. Considerando todo o sistema cooperativo, foi destacado no debate que cerca de mil municípios brasileiros são atendidos exclusivamente por cooperativas de crédito.
Mas Betemps chamou atenção para uma característica que considera ainda mais importante do que os números. “A diferença do cooperativismo são as pessoas.” Isso acontece porque cada cooperativa está diretamente vinculada ao desempenho econômico da região onde atua. Se agricultores, comerciantes e empresas daquela comunidade enfrentam dificuldades, a própria cooperativa sente os efeitos. Essa proximidade pode ajudar o mercado segurador a compreender quais proteções cada público efetivamente necessita.
“Preço hoje não é o problema”
Para Betemps, um dos principais erros seria acreditar que o gap do seguro rural será resolvido apenas tornando as apólices mais baratas. “Preço hoje não é o problema. O produtor está comprando cobertura. O problema é que os produtos não atendem à necessidade do produtor”, afirmou. O Brasil possui realidades agrícolas muito diferentes.
Um produtor do Sul exposto a eventos extremos pode querer uma cobertura capaz de evitar uma perda catastrófica. Já um agricultor de alta produtividade em Sorriso, em Mato Grosso, pode estar menos preocupado com uma cobertura mínima e muito mais interessado em proteger sua margem e sua rentabilidade.
É essa diversidade que, segundo os participantes, precisa começar a aparecer nos produtos. As cooperativas podem funcionar como laboratórios regionais justamente porque conhecem o produtor, sua produtividade, seu histórico de crédito, as características da atividade e os riscos de cada localidade.
Tecnologia e seguro paramétrico entram na discussão
O desenvolvimento de novos produtos foi outro ponto importante do painel. Seguro paramétrico, novas estruturas de cobertura, maior segmentação regional e uso intensivo de tecnologia estão entre as alternativas que podem ser estudadas para reduzir custos e tornar a proteção mais aderente ao risco.
No seguro paramétrico, a indenização pode ser vinculada a um parâmetro previamente estabelecido — como determinado volume de chuva, temperatura ou outro indicador — em vez de depender exclusivamente da apuração convencional da perda. Mas o painel deixou uma ressalva fundamental: não adianta desenvolver uma solução sofisticada se ela não fizer sentido para o produtor.
Tecnologia e inovação precisam partir da necessidade concreta de quem está na ponta. Isso vale também para a possibilidade de desenvolver estruturas mais amplas de financiamento e transferência de riscos, envolvendo seguradoras, resseguradoras e, futuramente, instrumentos ligados ao mercado de capitais, como a Letra de Risco de Seguro (LRS). O potencial existe, mas o produto final precisa ser compreensível e entregar a proteção que o produtor efetivamente procura.
Crédito e seguro ainda são dois mundos
Marcelo Carneiro, diretor da Sicoob Seguradora, chamou atenção para uma contradição: as cooperativas possuem enorme relevância na concessão de crédito rural, mas sua participação no mercado de seguros ainda está muito abaixo desse potencial. O Sicoob administra cerca de R$ 420 bilhões em ativos, R$ 290 bilhões em depósitos e R$ 230 bilhões em crédito. Desse total, quase R$ 100 bilhões estão relacionados ao crédito rural.
Segundo Carneiro, o sistema responde por aproximadamente 11% do crédito rural brasileiro. Durante o debate, ele corrigiu o número anteriormente mencionado sobre seguros: a participação do Sicoob no mercado brasileiro total de seguros está em torno de 2%, embora a penetração das coberturas dentro de sua própria carteira de crédito seja maior. A diferença entre a força no crédito e a presença no seguro mostra o tamanho da oportunidade.
Carneiro levantou ainda uma discussão sensível: como aproximar crédito e seguro sem transformar a proteção em venda casada. Segundo ele, quando se observam mercados em que existe elevada universalização do seguro, normalmente há algum mecanismo que induz ou exige proteção. No Brasil, a regulação é corretamente cuidadosa para impedir que a contratação de crédito seja condicionada indevidamente à compra de determinado seguro.
Ainda assim, o executivo acredita que há espaço para discutir formas de facilitar a contratação de proteção integrada à operação financeira, desde que o consumidor tenha liberdade de escolha e o produto responda efetivamente ao seu risco.
A necessidade fica ainda mais evidente diante das mudanças climáticas. Há regiões antes consideradas de baixíssimo risco que começam a registrar perdas relevantes. Ao mesmo tempo, surge um problema clássico da seleção de riscos: quem acredita estar pouco exposto tem menor interesse em comprar seguro, enquanto quem enfrenta exposição muito elevada quer contratar justamente quando o mercado encontra maior dificuldade para oferecer cobertura a um preço sustentável.
Política pública continuará necessária
Para Carneiro, essa equação não será resolvida exclusivamente pelo mercado privado. A produção rural está sujeita a riscos climáticos, de produtividade e de preços e, nas principais economias agrícolas do mundo, conta com algum tipo de apoio governamental. No Brasil, a subvenção ao prêmio do seguro rural continuará sendo peça relevante para ampliar a proteção. A discussão passa, portanto, por encontrar um equilíbrio entre participação do produtor, capacidade das seguradoras e resseguradoras, atuação das cooperativas e política pública.
O debate também mostrou que ampliar a cobertura do agronegócio exigirá olhar para toda a cadeia de transferência de riscos. Na ponta está o produtor. A cooperativa conhece esse cliente, financia sua produção e pode ampliar a distribuição do seguro. As seguradoras assumem e estruturam as coberturas. O resseguro permite distribuir exposições maiores e ampliar capacidade. E, para determinados riscos, novas estruturas poderão aproximar também o mercado de capitais, inclusive por instrumentos como a LRS.
Essa arquitetura ganha importância conforme os eventos climáticos aumentam a possibilidade de perdas simultâneas em grandes regiões produtoras. O desafio, entretanto, permanece o mesmo desde o início da cadeia: a solução precisa fazer sentido para o produtor.
Transformar a capilaridade em proteção dependerá agora de aproximar mundos que historicamente caminharam em velocidades diferentes: crédito, seguro, resseguro, tecnologia e política pública. Se essa integração avançar, as cooperativas poderão deixar de ser apenas grandes financiadoras da produção para assumir um papel ainda mais relevante na construção da resiliência financeira do agronegócio brasileiro.
Educação financeira pode abrir caminho para o seguro
A capilaridade das cooperativas traz outra vantagem para a expansão da proteção: a tradição em educação financeira. Dados citados pelo setor na discussão sobre cooperativismo mostram que as cooperativas chegaram a responder por cerca de 70% das ações de educação financeira registradas no Banco Central.
A educação é considerada parte do próprio modelo cooperativista: não basta ampliar o acesso ao crédito. O associado precisa compreender como utilizar o financiamento, administrar riscos e preservar sua capacidade de pagamento e de investimento.
O próximo passo é levar essa lógica também para o seguro. Educação financeira pode evoluir para educação securitária, ajudando o produtor a entender que a proteção não é apenas uma exigência vinculada ao financiamento, mas um instrumento para preservar renda, patrimônio e capacidade de continuar produzindo depois de uma perda.
A dimensão dessa oportunidade cresce com a expansão do cooperativismo. O sistema encerrou 2025 com 21,2 milhões de cooperados e presença em 59% dos municípios brasileiros, segundo o Banco Central.
Nesse sentido, a vantagem competitiva das cooperativas pode estar menos em simplesmente colocar uma apólice na mesma operação de crédito e mais em acompanhar toda a jornada financeira do associado: crédito, prevenção, gestão de risco e seguro.
























