LISBOA – A cooperação entre Brasil e Portugal para enfrentar os impactos das mudanças climáticas e ampliar a capacidade de resposta da sociedade a eventos extremos marcou a abertura do 1º Fórum de Seguros Brasil-Portugal – Colaborar para Adaptar, realizado nesta terça-feira, em Lisboa, numa parceria entre a CNseg, confederação das seguradoras do Brasil, e a seguradora Fidelidade, a maior de Portugal. O encontro reúne representantes do mercado segurador, autoridades públicas, especialistas e acadêmicos para debater o papel dos seguros na construção de economias mais resilientes e preparadas para os desafios ambientais, econômicos e sociais das próximas décadas.
Na abertura do evento, o presidente do Conselho Diretor da CNseg, Roberto Santos, destacou que a iniciativa nasce com o objetivo de criar uma ponte permanente de cooperação entre os dois países. Segundo ele, o intercâmbio de experiências pode contribuir para o desenvolvimento de novas soluções, o fortalecimento das capacidades técnicas do setor e a ampliação da capacidade de resposta diante de eventos extremos.
“Queremos compartilhar experiências, conhecimento atuarial, tecnologia e inovação para desenvolver produtos e construir uma capacidade cada vez maior de adaptação. Este fórum nasce para ser uma ponte permanente entre Brasil e Portugal”, afirmou. O executivo ressaltou que o papel do seguro vem se ampliando em todo o mundo. Mais do que indenizar perdas após a ocorrência de um sinistro, o setor passou a atuar na prevenção, na gestão de riscos e na promoção da resiliência econômica e social.

A mesma visão foi compartilhada por Rogério Campos Henriques. O executivo português lembrou que a aproximação entre a Fidelidade e a CNseg ganhou força durante as últimas conferências climáticas da ONU e resultou na criação do fórum como espaço permanente de diálogo entre os mercados seguradores dos dois países. Para Henriques, embora temas como geopolítica, defesa e segurança energética tenham ganhado espaço no debate público internacional, as mudanças climáticas continuam avançando e produzindo impactos cada vez mais relevantes sobre a economia e a sociedade. “As alterações climáticas não entraram de férias”, afirmou. “O debate já não é se esses eventos vão afetar as nossas economias. A questão é como vamos nos adaptar.”
Segundo o executivo, o setor segurador possui uma posição única nesse processo porque atua não apenas na reparação das perdas, mas também na redução das vulnerabilidades e na aceleração da recuperação econômica após eventos extremos. “O seguro existe para transformar risco em resiliência”, afirmou. Henriques destacou ainda que nenhum agente conseguirá enfrentar sozinho os desafios climáticos. Na sua avaliação, governos, seguradoras, empresas, universidades e centros de pesquisa precisarão atuar de forma coordenada para construir soluções de adaptação capazes de proteger a população e sustentar o crescimento econômico.

A dimensão internacional da cooperação foi reforçada pelo embaixador do Brasil em Portugal, Raimundo Carreiro. Segundo ele, Brasil e Portugal compartilham não apenas laços históricos e culturais, mas também desafios comuns relacionados à sustentabilidade, à proteção financeira e aos impactos dos eventos climáticos extremos.
Ao citar as enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul e os incêndios florestais e tempestades que afetaram Portugal nos últimos anos, Carreiro observou que os dois países enfrentam situações semelhantes e podem se beneficiar do intercâmbio de experiências e soluções. “O setor de seguros vai muito além da mitigação de riscos. Ele ajuda a organizar expectativas, viabilizar investimentos e fortalecer a confiança, elementos indispensáveis para o desenvolvimento econômico e social”, afirmou.
O embaixador também aproveitou a abertura para lançar uma provocação ao setor. Segundo ele, uma das agendas que merecem maior atenção é a criação de mecanismos de proteção para trabalhadores de aplicativos de transporte e entrega, grupo que cresce em diversos países e frequentemente atua sem proteção previdenciária ou cobertura securitária adequada.
“Os hospitais brasileiros estão cheios de jovens trabalhadores de aplicativos envolvidos em acidentes sem qualquer proteção financeira ou benefício trabalhista. Talvez daqui possa surgir uma ideia para os governos dos dois países sobre como ampliar essa proteção”, afirmou.
Carreiro também destacou a relevância dos seguros para o agronegócio, setor estratégico para as economias brasileira e portuguesa. Segundo ele, instrumentos de proteção financeira contribuem para garantir estabilidade produtiva, segurança alimentar e geração de riqueza em um cenário de crescente exposição aos riscos climáticos.
Ao longo do dia, os debates do fórum abordarão temas como adaptação climática, inteligência de dados, proteção do agronegócio, financiamento da resiliência e o papel dos seguros na construção de uma economia mais preparada para enfrentar eventos extremos. O objetivo comum, segundo os organizadores, é fortalecer a cooperação entre Brasil e Portugal e acelerar a construção de soluções capazes de transformar riscos crescentes em oportunidades de adaptação e desenvolvimento sustentável.


















