Mercado busca reaproximação com o BNDES para destravar potencial do seguro garantia

O seguro garantia, instrumento essencial para assegurar a execução de contratos de obras e concessões, pode voltar a ganhar espaço em projetos de infraestrutura financiados pelo BNDES. A proposta foi defendida por Roque de Holanda Melo, CEO da Junto Seguros e presidente da Comissão de Seguro Garantia da CNseg, durante painel que reuniu especialistas do setor no Pré-COP da CNseg, nesta terça-feira (8).

O debate contou também com Flavio Papelbaum, head de Soluções Imobiliárias e Regeneração Urbana do BNDES, e Roberto Guimarães, diretor de Planejamento e Economia da ABDIB, com moderação de Esteves Colnago, diretor de Relações Institucionais da CNseg.

“Uma parte do que dissemos aqui — se não todas as problemáticas — tem uma solucionatória no seguro. A CNseg e a FenSeg nunca estiveram tão dispostas e proativas em buscar o diálogo com o governo e com a sociedade”, afirmou Melo. “O recado é de muito diálogo para que possamos colocar em prática tudo aquilo que o mercado já tem de maturidade técnica e regulatória.”

O seguro garantia foi, por décadas, preterido pelo BNDES como instrumento de cobertura em financiamentos de infraestrutura, após divergências contratuais no passado. Desde então, o banco passou a priorizar fianças bancárias e garantias reais, o que reduziu o espaço do seguro no financiamento de obras públicas e parcerias público-privadas (PPPs).

“Se no passado o produto não funcionou, é necessário repensá-lo”, disse Melo. “O mercado segurador está plenamente disposto a construir, junto com o BNDES, uma nova apólice que funcione. Quando o produto era utilizado, há décadas, ainda estávamos em fase incipiente. Hoje, o seguro garantia amadureceu: a legislação evoluiu, a regulamentação da Susep mudou e há total liberdade para desenhar apólices sob medida.”

Entre os principais entraves para a ampliação do uso do seguro garantia em infraestrutura estão a complexidade dos riscos das obras, a precificação adequada, a capacidade de resseguro, e a falta de padronização jurídica nos contratos. Além disso, a ausência de aceitação institucional por financiadores, como o próprio BNDES, limita o potencial de expansão do instrumento.

Outro ponto é a necessidade de operacionalizar a chamada “cláusula de retomada”, prevista na Lei 14.133/2021 (nova Lei de Licitações), que autoriza a seguradora a assumir e concluir uma obra em caso de inadimplemento do contratado. Na prática, faltam regras claras sobre gatilhos, responsabilidades e prazos, o que dificulta a execução imediata das garantias.

O setor avalia que, com a maturidade regulatória atual e o diálogo restabelecido, o seguro garantia pode voltar a desempenhar papel central na atração de investimentos. “O produto evoluiu, o mercado está mais maduro e os riscos são melhor compreendidos”, afirmou Melo. “O momento é de reconstruir a confiança com o BNDES e mostrar que o seguro garantia pode contribuir efetivamente para a retomada dos investimentos em infraestrutura no Brasil.”

O secretário de Parcerias e Investimentos da Abdib apresentou um panorama das oportunidades de infraestrutura sustentável no país. Segundo ele, 80% dos investimentos em infraestrutura no Brasil são privados, totalizando R$ 280 bilhões em 2025 e R$ 300 bilhões em 2026.

“O país investe apenas de 2% a 3% do PIB em infraestrutura, metade do necessário para garantir mobilidade e acesso a serviços básicos à população. Temos cerca de 500 novos projetos em estruturação, somando R$ 800 bilhões em CAPEX. É uma avalanche de oportunidades — e precisamos de seguros para garantir que a conta não recaia sobre o Estado. O seguro é mais eficiente e barato que a fiança bancária”, afirmou.

Denise Bueno
Denise Buenohttp://www.sonhoseguro.com.br/
Denise Bueno sempre atuou na área de jornalismo econômico. Desde agosto de 2008 atua como jornalista freelancer, escrevendo matérias sobre finanças para cadernos especiais produzidos pelo jornal Valor Econômico, bem como para revistas como Época, Veja, Você S/A, Valor Financeiro, Valor 1000, Fiesp, ACSP, Revista de Seguros (CNSeg) entre outras publicações. É colunista do InfoMoney e do SindSeg-SP. Foi articulista da Revista Apólice. Escreveu artigos diariamente sobre seguros, resseguros, previdência e capitalização entre 1992 até agosto de 2008 para o jornal econômico Gazeta Mercantil. Recebeu, por 12 vezes, o prêmio de melhor jornalista de seguro em concursos diversos do setor e da grande mídia.

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