Apesar da queda de R$ 11 bilhões em valor de mercado na B3 desde o dia 3, os analistas do Credit Suisse enxergam bons resultados para a companhia e aumentaram o preço-alvo dos papéis
O maior ressegurador do Brasil, o IRB Brasil Re, que tem entre seus acionistas Bradesco e Itaú, enfrenta um mês turbulento. Perto de divulgar seu balanço, previsto para a semana que vem, vê o valor de mercado despencar 26%, ou perda de R$ 11 bilhões, na B3 desde o último dia 3, quando a gestora Squadra divulgou um relatório de 50 páginas questionando dados financeiros divulgado até setembro passado. Usando da prerrogativa de que estava em período de silêncio pela divulgação próxima do balanço, os executivos do grupo não deram esclarecimentos públicos. No entanto, mudaram a estratégia após cobrança da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), uma vez que o período de silêncio é para dados futuros e não para dados passados.
O vice presidente financeiro do IRB, Fernando Passos, afirmou que as demonstrações contábeis já eram transparentes e terão uma abertura ainda maior de dados. Passos afirmou que, com mais informações, todos os interessados poderão fazer suas próprias contas e chegar à “conclusão correta”.
O Estadão informa que a nova carta aos cotistas da carioca Squadra foi publicada às vésperas do vencimento de uma opção de venda de ações do IRB Brasil Re, que estão nas mãos da gestora. “Isso significa, em miúdos, que quanto mais os papéis do ressegurador caírem até lá, melhor para a ‘asset’, visto que ela tem posição vendida, que aposta na queda das ações. Como a gestora havia acumulado perda de cerca de R$ 360 milhões, uma vez que os papéis do ressegurador estavam em alta na bolsa, a reviravolta nas ações ocorrida após a primeira carta que questionou os resultados da companhia na semana passada tem ajudado a atenuar o prejuízo. A Squadra tem uma opção de venda correspondente a 910,9 mil lotes com 100 ações do IRB cada e que vencem na próxima segunda-feira, dia 17, conforme informações públicas da CVM”, destaca o jornal.
Depois da nova carta endereçada aos cotistas, o IRB acionou ontem a CVM, acusando a Squadra de “manipulação de mercado” e de “insider trading”. Depois da correspondência da gestora, a XP Investimentos colocou o IRB Brasil em revisão. A XP tem um volume considerável de ações do ressegurador.
Segundo relatório da maior plataforma de investimento do país, “dada a alta incerteza gerada pela falta de esclarecimentos por parte da empresa” coloca sua cobertura de IRB sob revisão. Segundo o analista Marcel Campos, ainda não há esclarecimentos suficientes por parte da companhia para que a XP pudesse reavaliar os questionamentos levantados pela Squadra. “Segundo o documento da gestora, muitas das análises envolvem interações com reguladores (locais e estrangeiros), além da interpretação independente de dados contábeis. Dessa forma, dada a falta de visibilidade, estamos colocando nossa cobertura das ações do IRB sob revisão”, disse, segundo informa o portal de notícias Infomoney.
“Nossa recomendação anterior e estimativas não são mais válidas a partir da publicação desse relatório. A empresa atualmente encontra-se em período de silêncio, em função da divulgação dos resultados do quarto trimestre de 2019. Nossa expectativa, entretanto, é de que maiores esclarecimentos sejam compartilhados com o mercado na divulgação. Até então, investidores devem esperar volatilidade no curto prazo, conforme o mercado continue a assimilar as informações.”
Diante do forte tombo dos papéis do IRB em fevereiro, muitos investidores têm se perguntado se isso abre uma oportunidade de compra dos papéis. Para o Credit Suisse, não, informa o Infomoney. Em relatório divulgado a clientes, os analistas do banco disseram que o papel ainda não está em um entry point (ponto de entrada) interessante mesmo depois do sell-off recente. Ainda assim, eles enxergam bons resultados para a companhia e aumentaram o preço-alvo dos papéis.
“As nossas projeções de earnings para o papel estão razoavelmente otimistas, incluindo um crescimento forte nos prêmios emitidos, custos bem menores de retrocessão e apenas uma pequena queda no loss ratio em relação ao histórico”, afirmou o Credit. As projeções do banco suíço para o IRB em 2020 e 2021 indicam um lucro líquido de R$ 1,83 bilhão para 2020 (+12,7% na comparação anual; 7% abaixo do consenso) e R$ 2,14 bilhões em 2021 (+16,5% na comparação anual; 2% abaixo do consenso).
“Vale destacar que, mesmo estando abaixo do consenso, estamos dando o benefício da dúvida em alguns pontos, como incorporar uma relevante redução de custos de retrocessão de 27% em 2019 para 17% em 2020.” Segundo o banco, os resultados financeiros devem ficar bem acima dos 100% do benchmark e o crescimento de top line (receitas) deve permanecer resiliente, acima dos 20% tanto em 2020 quanto 2021.
“Assumimos apenas uma pequena deterioração na sinistralidade. A redução de nossas estimativas está lastreada em boa parte pela queda de resultados financeiros (-6% em 2020 e -1,5% para 2021) e o nosso preço-alvo para as ações subiu de R$ 38 para R$ 43, principalmente em função de um menor risk-free.” No entanto, para justificar a falta de visão de um ponto de entrada nas ações do IRB neste momento, os analistas do Credit disseram que a relação entre risco e retorno não parece muito atrativa.
Ao contrário da visão do Credit, o Morgan Stanley já havia se pronunciado a seus clientes indicando que a queda dos papéis do IRB na semana passada abriu, sim, um ponto de entrada. “Achamos que os investidores estão comparando maçãs e laranjas”, disse em nota o diretor do banco Jorge Kuri. “Contratos de curto prazo e falta de risco catastrófico geram uma lacuna no ROE (retorno sobre o patrimônio) e produzem modelos de negócios fundamentalmente diferentes.” O diretor do Morgan Stanley ressaltou ainda outros diferenciais do IRB em relação aos seus pares globais. “O rendimento dos títulos é significativamente maior no IRB do que em pares globais, principalmente devido a um ambiente de taxa de juros mais alto que permite spreads maiores e ao fato de que, diferentemente das empresas de resseguros globais, o IRB não precisa proteger seu risco cambial. Apesar do maior rendimento, a receita financeira representa uma parcela menor da receita líquida no IRB do que nos pares globais, outra diferença fundamental no modelo de negócios do IRB. Além disso, a receita financeira do IRB, como uma porcentagem do lucro total, tem diminuído constantemente à medida que as operações de subscrição da empresa se tornam mais eficientes.”


















