Furacão Melissa devasta a Jamaica e deve acionar título de catástrofe de US$ 150 milhões

Apesar de perdas econômicas bilionárias, impacto segurado tende a ser moderado e concentrado em resseguradoras, segundo AM Best

Denise Bueno com agências internacionais

O furacão Melissa, primeiro de categoria 5 da temporada de 2025 no Atlântico, devastou a Jamaica nesta semana, marcando o mais poderoso evento climático a atingir a ilha desde o furacão Gilbert, em 1988. De acordo com a AM Best, as perdas seguradas devem permanecer modestas, mas o volume principal dos prejuízos recairá sobre as resseguradoras, refletindo a forte dependência de resseguro das companhias caribenhas.

A agência estima que as perdas econômicas totais alcancem bilhões de dólares, embora ainda leve tempo para dimensionar o impacto completo da tempestade, que chegou à ilha com ventos acima de 250 km/h. Com penetração de seguros inferior a 5%, apenas uma pequena parcela das propriedades jamaicanas está coberta, o que limita a compensação via apólices e amplia o custo social do desastre.

“As parcerias de resseguro são o alicerce que permite que seguradoras caribenhas assumam riscos de propriedade. Resta saber como esse evento afetará o preço do resseguro daqui em diante”, afirmou Bridget Maehr, diretora da AM Best.

Para Sridhar Manyem, diretor sênior de pesquisa e análise da agência, o mapeamento de riscos no Caribe continua desafiador. “Os modelos precisam considerar correlações entre geografias, já que um evento catastrófico pode se propagar por toda a região”, observou.

Entre as companhias com maior exposição estão as que atuam em seguros patrimoniais, fortemente dependentes de resseguro para manter capacidade de subscrição diante de riscos climáticos cada vez mais severos.

Título paramétrico deve ser acionado

Segundo a Aon, o título de catástrofe de US$ 150 milhões estruturado para a Jamaica — o IBRD CAR Jamaica 2024, com vigência até 2027 — deve ser acionado após a passagem do furacão Melissa. O instrumento faz parte do programa de seguros paramétricos do Banco Mundial, criado para oferecer resposta financeira rápida a países vulneráveis a desastres naturais.

“O furacão Gilbert continua sendo a tempestade mais custosa da história da Jamaica, com perdas econômicas ajustadas pela inflação de US$ 4,1 bilhões e apenas US$ 215 milhões segurados”, lembrou Dan Hartung, chefe global de resposta a eventos da Aon. “Essa diferença mostra o desafio persistente da baixa penetração de seguros, que expõe comunidades ao impacto financeiro total dos desastres.” Hartung destacou que mecanismos como os títulos de catástrofe ajudam a fechar essa lacuna ao oferecer financiamento imediato e pré-acordado após grandes eventos.

Já Chris Lefferdink, chefe de seguros vinculados a títulos (ILS) para a América do Norte na Aon, afirmou que o título jamaicano “transfere o risco da tempestade para investidores globais, permitindo acesso rápido a fundos de recuperação”. Dados iniciais do Centro Nacional de Furacões indicam pressão atmosférica abaixo de 900 milibares, intensidade suficiente para acionar pagamento integral do título, caso confirmada por revisão independente.

“O mercado de cat bonds cresceu mais de 50% desde o fim de 2022, alcançando quase US$ 55 bilhões, o que mostra a confiança dos investidores e a relevância dessa ferramenta para reduzir a lacuna de proteção”, completou Lefferdink.

A AM Best continua monitorando os impactos de Melissa na Jamaica e em outras ilhas do Caribe, incluindo Bahamas Orientais e Turks & Caicos, reforçando que o evento deve reabrir o debate sobre resiliência climática e proteção financeira nas economias mais expostas da região.

Denise Bueno
Denise Buenohttp://www.sonhoseguro.com.br/
Denise Bueno sempre atuou na área de jornalismo econômico. Desde agosto de 2008 atua como jornalista freelancer, escrevendo matérias sobre finanças para cadernos especiais produzidos pelo jornal Valor Econômico, bem como para revistas como Época, Veja, Você S/A, Valor Financeiro, Valor 1000, Fiesp, ACSP, Revista de Seguros (CNSeg) entre outras publicações. É colunista do InfoMoney e do SindSeg-SP. Foi articulista da Revista Apólice. Escreveu artigos diariamente sobre seguros, resseguros, previdência e capitalização entre 1992 até agosto de 2008 para o jornal econômico Gazeta Mercantil. Recebeu, por 12 vezes, o prêmio de melhor jornalista de seguro em concursos diversos do setor e da grande mídia.

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