Carta do Seguro: Auto e Rural mostram desaceleração em março

por Lauro Faria, economista da Escola Nacional de Seguros

No Brasil, dizem, o ano começa mesmo em março. Janeiro e fevereiro são tradicionalmente meses de queda da atividade nos vários mercados pela pausa depois das festas de fim de ano, das férias de verão e do Carnaval. Não surpreende, portanto, que, em março passado, a arrecadação em prêmios e contribuições do mercado segurador regulado pela Susep, de R$ 22 bilhões, tenha crescido 25,4% sobre a arrecadação de fevereiro.

Trata-se de padrão sazonal perfeitamente de acordo com esse período do ano e indicativo de manutenção de crescimento moderado do mercado segurador. Comparando-se períodos mais largos em Ramos Elementares foinotável o desempenho dos seguros Patrimoniais, de Transportes, de Créditos e Garantias e de Garantia Estendida: as arrecadaçõesdesses grupos cresceram, respectivamente, 14,5%, 24,9%, 39,8% e 15% em março de 2018 sobre igual mês de 2017. Também merece destaque a recuperação dos prêmios dos seguros de Responsabilidade Civil e dos seguros Marítimos e Aeronáuticos que de taxas negativas de variação tiveram expansão de 6,7% e 8,2%, respectivamente, em março de 2018 sobre março de 2017.

No polo oposto, chamou atenção, ainda em ramos elementares, a desaceleração de prêmios de seguros de Automóveis (o ramo mais importante do segmento) e de seguros Rurais. De fato, no primeiro caso, a arrecadação aumentou apenas 0,2% em março de 2018 sobre março de 2017, quando nos 12 meses findos em março tinha crescido 7,3% sobre igual período anterior. No caso do seguro Rural, nas mesmas bases de comparação, as taxas de variação passaram de 4,5% (12 meses) para -2,4% (mês/mês do ano anterior). Esses dados produziram desaceleração de prêmios no conjunto dos ramos elementares (sem contar o DPVAT): a taxa de março de 2018 contra igual mês de 2017 mostrou aumento de 5%, inferior às taxas no trimestre (8%) e em 12 meses (7%). São, entretanto, taxas ainda mais nitidamente superiores à inflação, indicativas de crescimento real.

Nas coberturas de Pessoas, a arrecadação do seguro Prestamista continuou com desempenho excepcional: em março de 2018, cresceu 25% sobre março de 2017; no acumulado nos 12 meses findos em março, a variação foi positiva em 22%. Trata-se de indicativo claro da recuperação do crédito na economia, estimulada, certamente, pelos seguidos cortes na taxa Selic. No lado oposto, cabe mencionar a desaceleração dos prêmios de seguros de Vida, que tiveram variação de 1,6% em março de 2018, ante março de 2017, inferior aos 5,7% no acumulado de 12 meses. Finalmente, a modesta recuperação dos aportes ao VGBL em março passado, com acréscimo de 2% contra março de 2017, permitiu que o conjunto dos seguros de Pessoas tivesse expansão de 1,7% nessa mesma base de comparação.

Fatores específicos e gerais operam sobre os diversos ramos de seguros. No caso de Automóveis, o aumento da sinistralidade em certas regiões do país, ligado à criminalidade, é fator restritivo de venda de seguros. Porém, as perspectivas para 2018 ainda são posi-tivas pelo grande aumento da venda de veículos, que teve expansão de 15% no primeiro trimestre de 2018 contra igual trimestre de 2017. Idem para a subvenção ao prêmio no seguro Rural, que é essencial para viabilizar a compra desse seguro.

No caso dos planos de acumulação, a expectativa das taxas de juros, bem como o desenvolvimento nas áreas previdenciária e tributária, é o fator maisimportante. Porém, no geral, a desaceleração do mercado de seguros espelha fato similar verificado na economia nacional. Os dados macroeconômicos continuam mostrando trajetória positiva de crescimento da renda e do emprego, mas em ritmo menor que oocorrido em fins de 2017, provavelmente, em razão das dificuldades políticas e incertezas eleitorais que amplificam os desequilíbrios fiscais da economia. Isso tem levado a contínuas revisões para baixo da estimativa de taxa de crescimento do PIB real em 2018 pelos analistas consultados pelo Banco Central (Bacen). Tais dificuldades e incertezas também empurram para o próximo ano a agenda de aperfeiçoamentos regulatórios necessários ao desenvolvimento da indústria nacional de seguros.

No mercado como um todo, exceto DPVAT, a sinistralidade continuou em queda, situando-se em 41,8% no trimestre janeiro-março de 2018, 4,7 pontos percentuais abaixo do mesmo período de 2017. A sinistralidade dos ramos elementares foi de 49,9%, com queda de 2,8 pontos percentuais na mesma base de comparação, e a do grupo de planos de risco de coberturas de pessoas, de 26,2%, também com queda de 1,6 ponto percentual sobre o mesmo período de 2017. O índice de despesas de comercialização aumentou 0,7 ponto percentual no mercado como um todo, exceto DPVAT, sendo de 25,2% nesse mesmo período e dividindo-se em 22,1% em ramos elementares e 31,1% no grupo de planos de risco de coberturas de pessoas.

A redução da sinistralidade, pela melhora na subscrição de riscos, é o esperado em conjunturas de forte queda das taxas de juros e, consequentemente, do resultado financeiro das seguradoras. Este, nas seguradoras reguladas pela Susep, caiu 17,5% no 1° trimestre de 2018, ante o mesmo período de 2017, mas a queda da sinistralidade permitiu que o lucro líquido agregado crescesse 4,7% nessa base de comparação e, desse modo, que a rentabilidade do patrimônio líquido agregado, anualizada linearmente, fosse de 20,6%, 1,9 ponto percentual abaixo do resultado do primeiro trimestre de 2017.

No setor de Saúde Suplementar, a ANS divulgou os dados de 2017 que mostram uma receita de contraprestações de R$ 181,7 bilhões, 10,8% acima de 2016, bem como sinistralidade de 83%, 0,7 ponto percentual abaixo de 2016. O setor continua às voltas com os problemas anteriores, em particular, a contradição entre a elevada inflação médica e as baixas taxas de expansão de salá-rios e rendas dos beneficiários, dificultando a acessibilidade dos mais pobres e a manutenção da classe média nos planos de saúde.

 

Denise Bueno
Denise Buenohttp://www.sonhoseguro.com.br/
Denise Bueno sempre atuou na área de jornalismo econômico. Desde agosto de 2008 atua como jornalista freelancer, escrevendo matérias sobre finanças para cadernos especiais produzidos pelo jornal Valor Econômico, bem como para revistas como Época, Veja, Você S/A, Valor Financeiro, Valor 1000, Fiesp, ACSP, Revista de Seguros (CNSeg) entre outras publicações. É colunista do InfoMoney e do SindSeg-SP. Foi articulista da Revista Apólice. Escreveu artigos diariamente sobre seguros, resseguros, previdência e capitalização entre 1992 até agosto de 2008 para o jornal econômico Gazeta Mercantil. Recebeu, por 12 vezes, o prêmio de melhor jornalista de seguro em concursos diversos do setor e da grande mídia.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Ouça nosso podcast

ARTIGOS RELACIONADOS