Rodrigo Botti assumiu o comando da Terra Brasis. Ele substitui o pai, Paulo Botti, na companhia que tem o Banco Plural e o Banco Mundial como investidores. Só isso representa um grande desafio, se considerarmos que o pai é um dos profissionais mais renomados do mercado de seguros e resseguros. A boa notícia é de que Rodrigo seguiu os passos do pai em tudo. Inclusive no amor para desenvolver a cultura de seguros e de resseguros no Brasil. Algo realmente desafiador para todos.
“Temos na pauta vários temas”, diz ele, em um agradável almoço com o blog Sonho Seguro, ao lado do pai, no restaurante Salvattore, em São Paulo. Ele cita três, que considera relevantes para serem iniciadas já e tocadas no longo prazo: buscar soluções para o segmento de saúde suplementar, que está às voltas com discussões sobre a reorganização do setor; desenvolver no Brasil a transferência de riscos para o mercado de capitais, como acontece na Europa, por meio do produto financeiro conhecido como Insurance-Linked Securities (ILS); e tornar o Brasil o centro de excelência de resseguro para a América Latina.

“A América Latina representa somente 3% do mercado mundial de seguros, mas representa 10% do mercado mundial de resseguros”, diz ele. “Essa participação de 10% é relevante, principalmente se considerarmos que a Europa representa 25% do mercado mundial”, cita. Segundo ele, o Brasil é considerado pelos investidores como potencial por ter o mercado de seguros mais desenvolvido da região, com 49% das vendas de seguros, ser o país isento de catástrofes naturais de grandes proporções como Chile, por exemplo, ter 16 resseguradoras locais já instaladas e uma regulamentação adequada, considerando-se as portarias publicadas no final de 2017 e uma nova, sobre aceitações de risco do exterior, que será apresentada ao Conselho Nacional de Seguros Privados (CNSP) na próxima reunião.
Em dezembro, o CNSP acabou com os limites de operação intragrupo nos contratos de resseguro. Havia um limite de 20% por operação com uma escala de ampliação que atingiria 75% em 2020 para que o resseguro fosse passado para empresas do mesmo grupo. Além disso, o CNSP acabou com a reserva de mercado, que começava em 40% e terminava em 15%. Apenas a preferência de oferta de 40% para os resseguradores locais foi mantida. “Políticas dessa natureza são comuns em todos os mercados, principalmente nos EUA e na China”, cita Paulo Botti, defendendo tal regra como uma preservação do mercado nacional, bem como necessária ao crescimento sólido do mesmo.
Já no forno, com divulgação prevista para breve, há uma resolução simples, com cerca de seis artigos, que visa regulamentar a aceitação pelas resseguradoras locais originados por cedentes do exterior. Trata-se de um tema importante, tendo em vista que o crescimento do mercado ressegurador do Brasil tem sido puxado pelas operações das resseguradoras locais na América Latina.
A região, que tem como principal concorrente Miami (EUA), considerando-se os núcleos de resseguros regionais, gera localmente US$ 20 bilhões de prêmios de resseguro. Desconsiderando-se as trocas com o exterior, resta somente com US$ 3 bilhões, explica. Por outro lado, a Europa gera localmente US$ 58 bilhões e depois das trocas restam US$ 128 bilhões. “Ou seja, recebe muito mais do que cede”, ressalta.

E como realizar esse sonho do Brasil ser o centro de excelência, alimentado há anos? “Nossa tese é de que devemos aprimorar nossa competitividade, tanto como industria e como país, para que exista um pouco mais de equilibrio nestas trocas. É para isto que a Terra Brasis, a ANRe e nós pessoalmente, temos lutado muito ultimamente”, acrescenta o pai Paulo Botti, que agora ocupa um assento no Conselho da Terra Brasis.
Quanto a saúde, a ideia é de que as operadoras possam acessar o resseguros sem ter de ter uma seguradora como emissora, assim como os fundos de pensão. “Seria positivo comprar diretamente, mas não é crucial. O importante mesmo é que o resseguro possa prover soluções para as operadoras de saúde e assim contribuir para melhorar os balanços das companhias”, diz ele.
Com referência ao ILS, no mês de março foi anunciado que a AlphaCat Managers Ltd. (“AlphaCat”), uma subsidiária integral da Validus Holdings, Ltd. (“Validus”), e a Terra Brasis Resseguros concluíram uma transação de US$ 5 milhões em títulos privados de catástrofe. A emissão de bonds, denominada Alpha Terra Validus II, renova efetivamente a transação Terra Brasis Validus I de 2017, que representou uma oferta exclusiva de risco de resseguro da América Latina com base em indenização.
“É uma iniciativa que visa ajudar a fomentar o desenvolvimento de um mercado de capitais para risco seguráveis no Brasil”, diz. São produtos que tem tido forte procura pelos investidores que buscam rentabilidades diferenciadas e sem correlação com outros tipos de investimentos, como ações e renda fixa. O título cobre a exposição a riscos de danos a bens ligados a catástrofes naturais da Terra Brasis na América Latina, com cobertura para as principais exposições da empresa fora do Brasil, especialmente em países como Peru e Colômbia, onde o grupo abriu escritórios de representação.
Para fomentar o ILS no Brasil é preciso mudanças na legislação relacionada aos seguros, uma vez que a lei brasileira não permite às seguradoras transferir riscos aos mercados de capitais. “Uma das vantagens dos produtos ILS é que eles lhes ajudam a reduzir a exposição a riscos de grande intensidade como terremotos e furacões, o que mitiga riscos para seguradoras, resseguradoras e emissores privados ligados a agências de fomento governamentais”, explica Botti. Entre os mercados potenciais para esse tipo de papel abordar são os seguros agrícola, garantia, de engenharia e também os ligados ao tema longevidade, como saúde e vida.
Além desses três pontos, os Botti acreditam que a nova Lei de Seguros, resumida no Projeto de Lei de Contrato de Seguro da Câmara (PLC 29/2017) que tramita no Senado, seria importante para o setor. “Pode ter alguns equívocos, mas 90% está adequado. O setor teria muito a ganhar, principalmente o consumidor”.


















