Análise de 2016 do setor de seguro, por Lauro Faria

Fonte: CNseg

por Lauro Faria
Economista da Escola Nacional de Seguros

Em 2016, o mercado de seguros regulado pela SUSEP teve um faturamento de R$ 239,3 bilhões, 9,2% acima do ocorrido em 2015. Descontada a inflação (IPCA), a variação foi positiva em 2,8%, um excelente resultado dada a situação recessiva em que vive o país. Como porcentagem do PIB, arrecadação de seguros privados regulados pela SUSEP também subiu,de 3,7% em 2015 para estimados 3,8% em 2016. Quanto ao setor de saúde suplementar, o órgão regulador (a ANS) ainda não publicou os dados de fechamento de 2016, mas a receita de contraprestações às operadoras de saúde no período de janeiro a setembro desse ano atingiu R$ 120,7 bilhões, com alta nominal de 12,2% sobre igual período de 2015.

Como já assinalado anteriormente, o resultado global positivo na área da SUSEP foi fortemente influenciado pelo acréscimo da arrecadação de produtos de um único grupo: coberturas de pessoas – planos de acumulação cujas contribuições cresceram 19,5% (12,4% em termos reais). Os demais foram fortemente impactados pela recessão: os prêmios diretos das coberturas de pessoas – planos de risco subiram apenas 3,6% em termos nominais (portanto,queda real de 2,5%) e os prêmios diretos dos ramos elementares,1,2% (queda real de 4,8%). Os aportes aos planos de capitalização, por sua vez, caíram 2,0% em 2016 frente a 2015, uma queda real de 7,8%.

A sinistralidade dos produtos de risco regulados pela SUSEP recuou de 49,2% em 2015 para 46,4% em 2016, contribuindo para melhorar amenizar os efeitos da contração econômica sobre os balanços das seguradoras. O resultado foi diferente entre os dois grandes grupos de seguros: para as coberturas de pessoas – planos de risco, a variável aumentou de 28,5% para 29,1% no período citado, enquanto para os ramos elementares caiu de 59,3% para 55,2%.

No agregado das seguradoras reguladas pela SUSEP, desconsiderando as entidades abertas de previdência complementar e as sociedades de capitalização, deve-se destacar também o fraco desempenho dos resultados nanceiros e patrimoniais, que tiveram em 2016 variações nominais de +4,3% e -13,7%, respectivamente (-1,9% e -18,8%, em termos reais) sobre o verificado em 2015.

Assim, mesmo com o controle da sinistralidade e das demais despesas, o lucro líquido global das seguradoras caiu de R$ 19,8 bilhões em 2015 para R$ 17,5 bilhões em 2016 (variação nominal de -11,6% e real de -16,8%). A lucratividade, entretanto, se manteve positiva e elevada: a rentabilidade do patrimônio líquido (“return on equity”) foi de 22,4% em 2016, novamente um excelente resultado dadas as circunstâncias.

Segundo dados da SUSEP, a sinistralidade do ramo de seguros de automóveis no Brasil teve um acréscimo absoluto de 5%. Não surpreende, portanto, a reação das seguradoras e a percepção dos segurados de que houve acréscimo nos prêmios nessas regiões. No Rio de Janeiro, por exemplo, do modelo de veículo, estima-se que os prêmios tenham subido até 20% entre 2015 e 2016. No caso do estado do Rio de Janeiro, segundo dados Instituto de Segurança Pública (ISP/RJ), a quantidade de roubo de veículos cresceu 34% entre 2015 e 2016. E não apenas isto: o total de roubos aumentou 41% e o de homicídios, 20%.

A Lei dos Desmanches (Lei 12.977/2014), que propõe a regulamentação dos chamados “ferros-velhos”, ajudaria certamente na redução de roubo de veículos para desmonte. A Lei determina que os Detrans estaduais controlem o comércio de autopeças e gerenciem o credenciamento de empresas habilitadas. Exige que o estabelecimento que compra o veículo para desmanche emita nota fiscal de entrada e peça baixa do registro do veículo. Após a desmontagem do veículo, as peças devem ser registradas. O pleno funcionamento da lei viabilizaria também o recém- regulamentado seguro de carros populares devido à possiblidade de reaproveitamento nos consertos de peças usadas, porém certificadas. O reflexo seriam apólices mais baratas e acessíveis, beneficiando milhões de donos desse tipo de automóvel no país.

A Lei, entretanto, supõe severa fiscalização dos desmanches e punição dos envolvidos em ilegalidades, o que infelizmente ainda não acontece na escala necessária. Muitos ferros-velhos continuam irregulares ou ilegais seja por operarem com veículos roubados ou por funcionarem sem o completo respeito às novas determinações legais.

De qualquer modo, esses dados demonstram mais uma vez a importância do seguro. Na atual situação de insegurança pública, vale muito mais ser precavido do que desatento. O prêmio de seguro, ainda que majorado pelo acréscimo do risco, é um preço barato a pagar, pois evita o risco de perda de dezenas de milhares de reais do veículo roubado ou furtado e que dificilmente será encontrado e devolvido intacto ao seu dono.

Denise Bueno
Denise Buenohttp://www.sonhoseguro.com.br/
Denise Bueno sempre atuou na área de jornalismo econômico. Desde agosto de 2008 atua como jornalista freelancer, escrevendo matérias sobre finanças para cadernos especiais produzidos pelo jornal Valor Econômico, bem como para revistas como Época, Veja, Você S/A, Valor Financeiro, Valor 1000, Fiesp, ACSP, Revista de Seguros (CNSeg) entre outras publicações. É colunista do InfoMoney e do SindSeg-SP. Foi articulista da Revista Apólice. Escreveu artigos diariamente sobre seguros, resseguros, previdência e capitalização entre 1992 até agosto de 2008 para o jornal econômico Gazeta Mercantil. Recebeu, por 12 vezes, o prêmio de melhor jornalista de seguro em concursos diversos do setor e da grande mídia.

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