Fonte: Revista Valor Financeiro – Seguros
O segmento mais afetado é o de garantia estendida, cujo faturamento registrou queda de 6,8% no primeiro trimestre de 2015
Por Guilherme Meirelles
D estaque entre os consumidores das classes C e D durante o período de expansão do crédito, os ramos de garantia estendida e prcstamista (proteção financeira) devem passar por momentos difíceis ao longo dos próximos meses. Por serem modalidades de seguro ligadas ao comércio varejista, a expectativa é que cresçam em níveis bem abaixo de épocas anteriores, quando atingiram taxas anuais superiores a 20%. A preocupação do setor se estende também ao microsseguro, regulamentado em 2013 pela Superintendência de Seguros Privados (Susep), que ainda não conseguiu decolar entre as classes de baixa renda conforme previam as expectativas iniciais, que citavam um universo de até 100 milhões de potenciais clientes.
Pelos números iniciais, o ramo mais afetado deverá ser o de garantia estendida, oferecido pela loja como extensão do período de garantia do bem durável. O valor médio gira entre 11 % e 15% do preço do produto, e a ampliação do prazo pode ser em até dois anos. No primeiro trimestre deste ano, segundo dados da Susep, a modalidade registrou queda de 6,8% no volume de prêmios, cujo total caiu de RS 804,4 milhões para R$ 749,7 milhões.
Para a consultora de varejo Ana Paula Tozzi, CEO da GS&AGR Consultores, as vendas de seguros populares devem seguir a tendência de comportamento do consumidor em momentos de baixa atividade econômica. “Estudo feito pela Universidade de Harvard após a crise de 2008 demonstrou que o consumidor tende abrir mão de certos bens para não perder algumas conquistas, como o serviço de televisão paga ou a escola dos filhos.
Nessas situações, a contratação de um seguro é vista como um supérfluo”, afirma. Em 2014, o Conselho Nacional de Seguros Privados (CNSP) anunciou uma nova regulamentação para a modalidade, com objetivo de reduzir as chamadas “vendas casadas”, alvo de frequentes queixas junto às entidades de defesa do consumidor. Com as novas medidas, o cliente pode desistir da compra da garantia estendida em até sete dias da aquisição. A contratação do seguro pode ser feita posteriormente à compra do bem em outra seguradora que não seja a mesma da rede varejista. Além disso, as seguradoras foram obrigadas a realizar o reparo do bem em até 30 dias, sob pena de ressarcir o valor em dinheiro.
As novas medidas impactaram o setor. O Itaú Unibanco, por exemplo, rescindiu o contrato entre a Garantec, empresa de garantia estendida do grupo, e a Via Varejo, que se mantinha desde a Casas Bahia. Segundo comunicado do banco, o ramo está fora da nova estratégia da instituição, voltada para o financiamento imobiliário e cartões. A carteira da Garantec passou para a Zurich, e o Itaú Unibanco recebeu RS 584 milhões pelo fim do acordo.
Eugênio Velasques, diretor do Grupo Bradesco Seguros, assinala que o desempenho da modalidade em 2014 já havia ficado aquém do esperado. No ano passado, os prêmios acumulados ficaram em RS 358 milhões, crescimento de apenas 4,4% sobre 2013. “As mudanças na regulamentação e o ambiente da economia indicam que o crescimento deverá ficar abaixo de dois dígitos”, afirma. Velasques ressalta que a Bradesco Seguros trabalha de forma conservadora em garantia estendida, em parceria com a Cardif, atuando em grandes redes como Máquina de Vendas, Saraiva e C&A.
O primeiro teste do varejo em 2015 foi o Dia das Mães, considerado o mais fraco dos últimos sete anos, segundo estimativa da Associação Brasileira dos Lojistas de Shopping Centers (Alshop). Perspectiva que não desanima quem acabou de entrar no ramo. “Começamos em dezembro e já temos dez parcerias com redes varejistas”, afirma José Carlos Macedo, CEO da Pan Seguros. O fato de entrar mais tarde só reforçou o aprendizado com o mercado e a ênfase no treinamento da equipe de vendas e atendimento. Apenas em dezembro, a Pan registrou prêmios de R$ 3,70 milhões. Além dos balcões das redes, a companhia aposta no e-commerce com a parceria fechada com a B2W, aliada a investimentos (não revelados) em tecnologia. “Queremos crescer 30% e fechar o ano com 15 parceiros”, afirma.
Formada em 2005, por meio de uma parceria entre a Cardif e a rede Magazine Luiza, a seguradora Luizaseg surfou na onda de alta do consumo, com crescimentos médios anuais de 30%. “Acredito que manteremos os dois dígitos, mas não nessas proporções”, afirma Antonio Pastore, diretor comercial de varejo da BNP Paribas Cardif do Brasil. Focada em massificados, a garantia estendida representa 31% do faturamento da Cardif. Para não perder a rentabilidade do negócio em 2015, a estratégia da seguradora será diversificar, ampliando o leque de produtos e buscando lojas que ainda não ofereçam seguros aos seus clientes.
Já os números do seguro prestamista continuam positivos, de acordo com dados da Susep. O total de prêmios no primeiro trimestre atingiu RS 1,89 bilhão, com alta de 14% em relação ao mesmo período de 2014. No ano passado, os prêmios cresceram 12% e ficaram em RS 7,98 bilhões. “A conjuntura não é propícia para seguros atrelados ao crédito”, afirma Lauro Faria, professor da Escola Nacional de Seguros. No comércio varejista, o seguro prestamista é oferecido em compras financiadas e garante a quitação de dívida em casos de morte, invalidez permanente, invalidez temporária ou desemprego. Devido às suas características, é contratado sobretudo pelas classes C e D no varejo, com tíquetes mensais médios de até RS 8, mas também é oferecido em concessionárias de veículos e em financiamentos habitacionais.
Para Rubens Nogueira, diretor da Brasil Insurance, grupo que reúne 53 corretoras, mesmo em tempos de desaceleração, a venda de seguros massificados pode representar uma fonte adicional de renda para o varejista. “Hoje, temos contrato com 28 redes, enquanto há um ano tínhamos 23. As classes populares são preocupadas com a possibilidade de deixarem dívidas para a família”, afirma. Um detalhe, porém, chama a atenção de Nogueira. “Este ano, as indenizações em caso de desemprego cresceram 30%”, afirma.
O mercado de massificados no Brasil tem predominância de grupos estrangeiros, que já operavam com esse conceito em outros países. É o caso da Chubb, que, mesmo sendo especializada em grandes seguros corporativos, tem no ramo de massificados 25% da sua receita. Em 2014, sempre em parceria com redes varejistas, a seguradora vendeu cerca de 700 mil apólices com valor médio financiado de R$ 800, fechando o ano com RS 9,62 milhões em prêmios de seguros prestamistas. Segundo Robert Cradock, diretor de massificados, a queda na procura ainda não foi detectada pela companhia. “Só teremos uma posição após comparativo com datas fortes do comércio, como Dia dos Namorados”, afirma. As operações da Chubb estão concentradas em redes voltadas para as classes emergentes, como a Eletrozema, que conta com cerca de 500 lojas em Minas Gerais, Espírito Santo e sul da Bahia. Até o final do ano, a Chubb deve fechar parcerias com mais cinco redes dentro do mesmo perfil de público.
Há companhias que optam por sair do modelo tradicional de vendas em balcões de lojas populares. Com participação considerada “seletiva” dentro do ramo prestamista, a Porto Seguro concentra sua atuação desde 2007 na rede de vestuário Renner e, de forma pontual, em financiamento de veículos. “Estamos satisfeitos com a parceria e não temos planos de expansão nesse ramo”, afirma Marcelo Picanço, diretor da seguradora.
Com participação de 30% dentro do ramo vida, o seguro prestamista distribuído pela Yasuda Marítima privilegia a rede de corretores em ofertas para grupos de consórcios, bancos médios e condomínios residenciais, com um seguro que oferece quitação de até 12 cotas da taxa de condomínio em caso de falecimento. Samy Hazam, diretor de pessoas, explica que a opção se deve aos “custos elevados” para entrar no varejo. “Já existem concorrentes estabelecidos nessa área. Nosso DNA sempre esteve com o canal corretor”, afirma.
Voltado para o mesmo público, mas vinculado a outros canais de venda, o ramo de microsseguros fechou 2014 com um volume de prêmios de RS 82,79 milhões. Os números do primeiro trimestre deste ano chegaram a R$ 19,25 milhões, com um expressivo salto de 773,9% sobre igual período de 2014. Mas a comparação deve levar em conta a base praticamente inexistente no início do ano passado. A liderança do mercado, com mais de 70%, está com a BB Mapfre, seguida pela Chubb e pela Caixa Seguradora. O bom desempenho de BB e Mapfre pode ser explicado pela estratégia adotada na distribuição do produto. “Os melhores canais são aqueles que já são de conhecimento do público-alvo, como correspondentes bancários, lojas de varejo e agências bancárias”, afirma Bento Zanzini, diretor-geral de seguro de pessoas do Grupo BB e Mapfre. “São operações pequenas, mas muito relevantes para nós”, afirma.
Para a Chubb, o principal canal de vendas são as redes varejistas que já atuam com os massificados. Além das coberturas básicas (morte acidental e acidentes pessoais), a seguradora agrega coberturas adicionais conforme o perfil da loja. “Em uma rede de materiais de construção, oferecemos coberturas para danos em residências. Já em uma loja de informática, incluímos danos elétricos”, afirma Cradock.
Apesar dos números positivos, o microsseguro ainda é visto com cautela pelo setor. Somente nove seguradoras se dispuseram a oferecer o produto até o momento. Velasques, da Bradesco Seguros, explica que o trabalho é “lento e gradual” por parte das seguradoras. “É um produto que requer treinamento e orientação na oferta”, diz. Com uma rede de 500 correspondentes bancários, a Bradesco vendeu 10 mil apólices em 2014. “A meta é atingir 40 mil apólices, multiplicando por quatro o canal de venda”, afirma Velasques, que também preside a comissão da CNseg sobre o tema.
Zanzini, do BB e Mapfre, observa que as expectativas exageradas em tomo do microsseguro decorrem de uma avaliação equivocada da realidade brasileira. As características do produto apontam diretamente para um público com renda familiar até RS 1,2 mil. “O produto foi formulado utilizando-se como parâmetro as classes sociais de países como a China e a índia, onde a renda média das populações mais carentes é bem abaixo da brasileira. Só agora se percebeu que parte dos potenciais compradores era formada por pessoas já inseridas na sociedade de consumo e que já recebiam alguma proteção semelhante, tanto do poder público como do setor privado.”
Para Faria, da Escola Nacional de Seguros, as baixas comissões não estimulam o empenho dos corretores. “Seria necessário uma grande frente de varejo, mas no momento essa possibilidade não anima as seguradoras.”

















