Veículos elétricos desafiam seguradoras com custos de reparo mais elevados, aponta Swiss Re

Estudo mostra que experiência de mercados como Noruega e China está levando seguradoras e montadoras a repensarem precificação, reparabilidade e design dos veículos

A expansão dos veículos elétricos no mundo está trazendo um desafio relevante para o mercado segurador: o aumento dos custos de reparo após acidentes. Embora a eletrificação avance rapidamente e deva representar a maioria das vendas de carros novos na Europa e na China até 2030, as seguradoras ainda enfrentam dificuldades para equilibrar a rentabilidade das carteiras diante da maior complexidade dos consertos, segundo estudo “Electric Vehicle Insurability: Markets Maturing“, do Swiss Re Institute.

De acordo com o relatório, a principal pressão não está relacionada à frequência dos sinistros, mas ao valor das indenizações. “As evidências continuam apontando para uma questão central na economia do seguro: os custos de reparo dos veículos elétricos permanecem mais elevados do que os dos veículos com motor a combustão”, afirma o estudo. 

Nos Estados Unidos, os custos médios de reparo de veículos elétricos foram cerca de 25% superiores aos dos modelos a combustão em 2025. Na França, a diferença chegou a aproximadamente 23%, enquanto no Reino Unido os reparos foram 25% mais caros e demandaram, em média, 14% mais tempo para conclusão. 

Segundo a Swiss Re, a diferença decorre de fatores estruturais, como baterias de alta tensão, sensores de assistência à condução (ADAS), sistemas eletrônicos embarcados, softwares de diagnóstico e a necessidade de oficinas certificadas para determinados procedimentos. “Mesmo com a evolução do mercado e o ganho de experiência das oficinas, esperamos que parte desse diferencial de custos permaneça”, destaca o relatório. 

Noruega e China mostram caminhos para o setor

A experiência internacional indica, porém, que o mercado tende a amadurecer à medida que cresce a base de dados disponível para precificação e gestão dos riscos. Na Noruega, país líder mundial na adoção da mobilidade elétrica, os veículos elétricos responderam por cerca de 96% das vendas de carros novos em 2025. O estudo mostra que, após um período inicial de deterioração da sinistralidade, as seguradoras passaram a segmentar melhor os riscos por modelo de veículo e perfil do cliente, além de investir em eficiência na regulação de sinistros e nas redes de reparação. 

Já na China, onde o mercado de seguros para veículos elétricos movimentou cerca de RMB 190 bilhões em 2025, com crescimento de 35% em um ano, reguladores, seguradoras e montadoras vêm atuando conjuntamente para reduzir os custos dos sinistros. O índice combinado do segmento caiu de 109% em 2023 para cerca de 105,7% em 2025, ainda acima da média do mercado automotivo, mas em trajetória de melhora. 

Segundo o estudo, uma das estratégias adotadas pelos chineses foi vincular a precificação dos seguros à reparabilidade dos veículos. “A resposta regulatória fortalece a conexão entre dados de sinistros, economia dos reparos e desenho dos veículos”, afirma a Swiss Re. 

Design dos veículos entra na discussão

O estudo aponta que a próxima fronteira da discussão envolve o próprio projeto dos veículos elétricos. As baterias podem representar cerca de 40% do valor de um veículo novo e, em muitos modelos, pequenos danos acabam exigindo a substituição integral do componente. Para enfrentar esse problema, seguradoras e entidades do setor vêm defendendo o conceito conhecido como design for insurability, que busca tornar os veículos mais fáceis e econômicos de reparar. 

Entre as soluções estudadas estão baterias modulares, componentes de alta tensão mais acessíveis, protocolos padronizados de reparo e maior disponibilidade de informações técnicas para oficinas independentes. “Os fabricantes já começam a incorporar conceitos de reparabilidade desde as fases iniciais de desenvolvimento dos veículos”, destaca o relatório. 

Reflexões para o mercado brasileiro

Embora o estudo não trate especificamente do Brasil, as conclusões oferecem sinais importantes para um mercado que vive forte crescimento da frota elétrica, impulsionado principalmente pela chegada de fabricantes chineses.

Na avaliação da Swiss Re, a evolução sustentável desse mercado dependerá não apenas do avanço tecnológico dos veículos, mas também da capacidade de seguradoras, montadoras, oficinas e fornecedores de peças desenvolverem um ecossistema preparado para lidar com os novos riscos.

“O amadurecimento dos mercados de seguros para veículos elétricos mostra que avanços em redes de reparação, acesso a dados e cooperação entre seguradoras e fabricantes podem melhorar a segurabilidade desses veículos ao longo do tempo”, conclui o estudo. 

Denise Bueno
Denise Buenohttp://www.sonhoseguro.com.br/
Denise Bueno sempre atuou na área de jornalismo econômico. Desde agosto de 2008 atua como jornalista freelancer, escrevendo matérias sobre finanças para cadernos especiais produzidos pelo jornal Valor Econômico, bem como para revistas como Época, Veja, Você S/A, Valor Financeiro, Valor 1000, Fiesp, ACSP, Revista de Seguros (CNSeg) entre outras publicações. É colunista do InfoMoney e do SindSeg-SP. Foi articulista da Revista Apólice. Escreveu artigos diariamente sobre seguros, resseguros, previdência e capitalização entre 1992 até agosto de 2008 para o jornal econômico Gazeta Mercantil. Recebeu, por 12 vezes, o prêmio de melhor jornalista de seguro em concursos diversos do setor e da grande mídia.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Ouça nosso podcast

ARTIGOS RELACIONADOS