Poupança das famílias no Brasil quase dobrou, contra avanço de menos de 30% em nível global, revela estudo da Allianz

Os efeitos da crise financeira mundial não foram motivos para impedir ganhos. Tanto assim que os ativos financeiros brutos mundiais de particulares tiveram aumento de 9,9% em 2013, a taxa de crescimento mais alta desde 2003, elevando-os para um nível recorde 118 trilhões de euros. Tal crescimento foi impulsionado pelo desempenho excepcional de bolsas de valores, visto no Japão, nos EUA e na Europa, cujos : títulos tiveram valorização de 16,5%, mais até do que nos anos imediatamente anteriores à deflagração da crise financeira.

No Brasil, os ativos financeiros brutos tiveram aumento de 7% no ano passado, com um ritmo ligeiramente maior do que a média latino-americana que foi de 6,4%. Segundo a quinta edição do Relatório de Riqueza Global divulgado pelo Grupo Allianz, que analisa em detalhes a situação de ativos e de dívidas das famílias em mais de 50 países, nem todas as regiões conseguiram se beneficiar na mesma medida deste forte crescimento visto no ano passado.

Nos mercados emergentes, o crescimento dos ativos teve uma desaceleração devido à turbulência nos mercados locais de capital e de moeda. Este desdobramento teve um impacto particularmente grande na América Latina: a taxa de crescimento caiu pela metade no último ano, para 6,4 por cento, colocando também a região bem abaixo da taxa vista na América do Norte (+11,7%).

Em termos de desenvolvimento a longo prazo, contudo, a região permanece no grupo superior, junto com a Europa Oriental e a Ásia (excluindo o Japão), com um crescimento médio da ordem de 12,7% ano desde 2000. Se for olhado para o crescimento de ativos em termos reais, ou seja, menos o índice geral de inflação, o índice da América Latina cai para 5,5% ao ano. Segundo o estudo, isto acompanha basicamente o ritmo real de crescimento na Europa Oriental (+6%), mas é muito menor do que na Ásia (excluindo o Japão), que registrou um crescimento de quase 10% ao ano desde a virada do milênio.

“Apesar do ambiente difícil, os ativos na América Latina mais uma vez mostraram um bom desenvolvimento no ano passado”, disse Michael Heise, economista Chefe na Allianz. “Isto mostra que o processo de recuperação na região continua intacto. Esperamos que o crescimento seja retomado este ano”, acrescentou

No Brasil

Não obstante, o crescimento de 7% do ano passado é o menor aumento anual para o Brasil desde 2008. Os títulos continuaram sendo a classe de ativos mais popular, com mais de 40% do total de ativos, seguidos por seguro de vida e ativos de aposentadoria (cerca de 28%). Ao longo da última década, os ativos financeiros tiveram crescimento de 13,2% ao ano e desde 2007, o último ano antes de crise, a poupança das famílias no Brasil quase dobrou, enquanto a nível global o aumento foi de menos de 30%.

Considerando estes números, segundo o estudo do grupo segurador Allianz, não é exagero dizer que a última década foi uma grande história de sucesso para o Brasil. Com relação aos passivos no balanço financeiro das famílias, no entanto, também foram observadas taxas elevadas de crescimento. No ano passado, as dívidas particulares aumentaram 16,3%, colocando o aumento anual desde 2000 a 18,1%. Consequentemente, a proporção entre dívida externa/PIB de particulares teve um aumento de 47,3%, de longe o mais alto na região.

Dívida

Não foram apenas os ativos que tiveram um forte crescimento no mundo inteiro em 2013; o aumento da dívida (incluindo a dívida hipotecária) também registrou um aumento. Em 3,6%, o aumento da dívida foi mais rápido do que em qualquer outro ano desde o estouro da crise. Não obstante, o índice da dívida global, ou seja, passivos pessoais medidos como uma porcentagem da produção econômica nominal, voltaram a cair ligeiramente no ano passado, registrando uma redução de meio ponto percentual, para 65,1%.

A queda no índice da dívida desde 2009 atinge 6,4 pontos percentuais. Esta desaceleração é, no entanto, unicamente atribuível aos países desenvolvidos, e principalmente aos EUA, onde o índice teve uma queda de 15,5 pontos percentuais nos últimos quatro anos. Nos mercados emergentes, por outro lado, o peso da dívida está aumentando de forma mais ou menos contínua, também em relação à produção econômica.

Na América Latina, a dívida pessoal aumentou 14,3% em 2013, excedendo a marca de 1 trilhão de euros pela primeira vez. No Brasil, o passivo totalizou mais de 700 bilhões de euros e a dívida per capita ficou em 3.520 euros, mais de 50% acima da média regional. Apesar do aumento galopante do crédito visto no passado, a proporção da dívida com relação à atividade econômica geral na América Latina como um todo ainda é relativamente baixa: a dívida regional ficou em 31% no final de 2013 e não excedeu a marca de 50 por cento em nenhum país da região – apesar de o Brasil estar chegando bem perto desta marca.

Matriz de riqueza

Este ano, também pela primeira vez, a Allianz analisou minuciosamente o desenvolvimento da distribuição de riqueza em cada país individualmente, usando uma “matriz de riqueza”. Os resultados não são necessariamente consistentes com a teoria do aumento cada vez maior da desigualdade.

Segundo o estuado a seguradora, na verdade, há mais países, entre aqueles incluídos na análise, em que a distribuição da riqueza, de forma geral, não mudou muito ou até mesmo melhorou ao longo da última década, a maioria sendo economias em ascensão e particularmente na América Latina. Em geral, no entanto, a distribuição da riqueza nos países da América Latina é menos igualitária do que na Ásia, por exemplo, que é mais igualitária.

Distribuição

A população no decil superior geralmente detém mais de 60% do total de ativos. Uma olhada nas economias desenvolvidas revela uma história diferente como um todo. Aqui, a distribuição da riqueza se deteriorou na maioria dos países incluídos em nossa análise, ou seja, a proporção de riqueza nas mãos dos dez por cento mais ricos voltou a crescer. Em nenhum lugar este desenvolvimento foi mais marcado do que nos EUA.

O estudo mostra que a desigualdade também aumentou consideravelmente em diversos países da Europa (França, Suíça, Irlanda e Itália) e no Japão. Em 2013, um total de cerca de 912 milhões de pessoas com ativos financeiros líquidos médios vivia nos países incluídos na análise da Allianz.

O número de membros da classe de baixa riqueza (média de ativos financeiros líquidos per capita de menos de EUR 5.300) permaneceu relativamente constante nos últimos anos, em aproximadamente 3,5 bilhões. No entanto, isto é principalmente subproduto de um forte crescimento populacional.

Se a tendência for ajustada para refletir este aumento natural, uma verdadeira história de avanço pode ser encontrada por trás destes números: quase meio bilhão de pessoas no mundo – e mais de 33 milhões de latino-americanos – conseguiu ser promovida desta classe para a classe média de riqueza global nos últimos 13 anos. “Este número, mais do que qualquer outro indicador, ressalta o fato de que, em uma comparação global, cada vez mais pessoas estão conseguindo participar da prosperidade global. Portanto, a partir deste ângulo mundial, certamente não se pode dizer que a desigualdade está aumentando”, disse Heise.

Denise Bueno
Denise Buenohttp://www.sonhoseguro.com.br/
Denise Bueno sempre atuou na área de jornalismo econômico. Desde agosto de 2008 atua como jornalista freelancer, escrevendo matérias sobre finanças para cadernos especiais produzidos pelo jornal Valor Econômico, bem como para revistas como Época, Veja, Você S/A, Valor Financeiro, Valor 1000, Fiesp, ACSP, Revista de Seguros (CNSeg) entre outras publicações. É colunista do InfoMoney e do SindSeg-SP. Foi articulista da Revista Apólice. Escreveu artigos diariamente sobre seguros, resseguros, previdência e capitalização entre 1992 até agosto de 2008 para o jornal econômico Gazeta Mercantil. Recebeu, por 12 vezes, o prêmio de melhor jornalista de seguro em concursos diversos do setor e da grande mídia.

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