Allianz cresce no seguro rural em mercado pressionado pelos riscos climáticos

Seguradora amplia proteção de cultivos, máquinas e propriedades enquanto cobertura do seguro Rural permanece baixa no país

As mudanças climáticas estão tornando a atividade agrícola mais arriscada justamente em um momento em que o produtor brasileiro enfrenta maior pressão financeira e ainda conta com uma proteção securitária bastante limitada. Em 2025, apenas 3,4% da área plantada no país estava coberta pelo seguro Rural e, segundo projeções da FGV Agro citadas pela Allianz Seguros, esse percentual pode cair para 2,8% em 2026, o menor nível da série histórica iniciada há duas décadas. Ao mesmo tempo, secas, enchentes, granizo, geadas e vendavais se tornam mais frequentes e severos, aumentando o potencial de perdas no campo.

É nesse cenário que a Allianz pretende ampliar sua atuação no agronegócio, transformando o seguro em uma ferramenta mais ampla de gestão de riscos e continuidade da produção. A companhia levou a cobertura para 13 novas culturas, ampliou o seguro para café e vem aumentando a personalização: mais de 52% de sua carteira Rural já é formada por soluções customizadas. Para analisar individualmente a exposição das propriedades, utiliza imagens de satélite, modelos geoespaciais, histórico das áreas, índices de pluviosidade e análises preditivas.

A estratégia também passa por proteger o patrimônio que mantém a produção funcionando. Em máquinas e equipamentos agrícolas, a Allianz cresceu 35% em 2025, ante avanço de apenas 0,8% do mercado. No primeiro semestre de 2026, enquanto o setor recuou 10,1%, a carteira da seguradora avançou 20%. A companhia também informa crescimento de cerca de 20% no seguro de propriedades rurais no primeiro semestre, produto que inclui proteção para estruturas, depósitos, equipamentos e, em determinadas operações de avicultura e suinocultura, até os animais alojados na propriedade.

Nesta entrevista ao Sonho Seguro, Mauricio Masferrer, diretor executivo de Negócios Corporativos da Allianz Seguros e Managing Director da Allianz Commercial Brasil, e Rafael Marani, diretor de Agronegócios da companhia, discutem como as mudanças climáticas estão alterando a percepção de risco do produtor, o impacto do endividamento sobre a necessidade de proteção, a importância da subvenção pública e o uso de tecnologia para precificar cada propriedade de forma mais precisa. Os executivos também detalham onde a Allianz vê oportunidades para crescer em cultivos, máquinas, equipamentos e propriedades rurais.

Eventos climáticos extremos têm provocado perdas recorrentes no agronegócio brasileiro. Como esse novo cenário está mudando a percepção do produtor sobre o seguro Rural e o papel das seguradoras na proteção da atividade?

Mauricio Masferrer: O aumento da frequência e da intensidade dos eventos climáticos está tornando mais evidente para o produtor que o risco faz parte da própria gestão da atividade agrícola. Seca, excesso de chuva, granizo, geada e ventos fortes podem comprometer uma safra inteira e, em muitos casos, esses eventos já não ocorrem de maneira pontual ou se restringem a determinadas localidades.

Um levantamento da fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) apontou, por exemplo, que o número de secas, enchentes e outros eventos climáticos extremos no Brasil saltou de 639 para 6,7 mil entre 2003 e 2023, um aumento de 960%. Outros dados, da CNseg, mostram que os prejuízos causados pelos eventos climáticos no país somaram R$ 180 bilhões entre os anos de 2022 e 2024. Desse total, cerca de 50% ficaram concentrados no agronegócio.

Mais do que um mecanismo de indenização depois que a perda acontece, esse cenário reforça a importância do seguro Rural como uma ferramenta de gestão de riscos e de continuidade da atividade. Com isso, o papel das seguradoras também evolui. Hoje, precisamos conhecer cada vez melhor os riscos, antecipar cenários, desenvolver produtos adequados às diferentes culturas e regiões e apoiar o produtor na tomada de decisões.

Depois de sucessivas safras afetadas pelo clima, muitos produtores chegam ao novo ciclo já mais endividados. O seguro passa a ser também uma ferramenta de proteção financeira e de preservação da capacidade de continuar produzindo?

Mauricio Masferrer: Certamente. Em uma atividade em que grande parte das receitas está concentrada em determinados períodos do ciclo produtivo, uma perda significativa provocada por um evento climático pode comprometer o fluxo de caixa e dificultar o cumprimento dos compromissos financeiros, a realização de novos investimentos e até mesmo o financiamento da próxima safra. Então, o seguro ajuda a reduzir o impacto dessa perda e a dar ao produtor uma maior previsibilidade para reorganizar a sua operação e seguir produzindo. Essa proteção é ainda mais relevante para os pequenos e médios produtores, que muitas vezes concentram uma parcela importante de sua produção em uma determinada área. Nesses casos, um evento climático severo pode ter um impacto ainda maior. Por isso, consideramos o seguro Rural como uma ferramenta de gestão de riscos. Ele não elimina o risco climático, obviamente, mas permite que a exposição financeira do produtor seja reduzida e contribui para que um evento adverso não comprometa todo o planejamento da atividade.

Ainda existe uma parcela relevante da produção agrícola brasileira sem cobertura. O que precisa mudar para aumentar a penetração do seguro Rural e torná-lo mais acessível, principalmente para pequenos e médios produtores?

 O Brasil tem um enorme espaço para ampliar essa proteção. Em 2025, a taxa de cobertura do seguro Rural estava em 3,4% e, segundo as projeções do Centro de Estudos do Agronegócio da Fundação Getulio Vargas (FGV Agro), até o final de 2026, esse índice pode cair para 2,8% do total plantado (2,7 milhões de hectares). Se isso se confirmar, teremos o menor patamar da série histórica iniciada há 20 anos. Para mudar esse cenário, é preciso atuar em várias frentes simultaneamente. Uma delas é ampliar a oferta de produtos adequados às diferentes culturas, regiões e perfis de produtores. A Allianz está presente nas principais culturas do país (soja, milho e trigo), que representam boa parte do mercado, e, no ano passado, expandimos a nossa atuação para outros segmentos, com a cobertura para 13 novas culturas, entre elas amendoim, arroz, aveia, canola, centeio, cevada cervejeira, feijão e café.

Mas sei que no seguro para café surgiram novidade, não?

Rafael Marani: No caso do café, a cobertura da lavoura era apenas para granizo. Neste ano, reformulamos totalmente o produto voltado aos cafeicultores, com uma nova forma de contratação e indenização, que tem como diferencial a cobertura sobre a vida da planta. Com isso, indenizamos o produtor sempre que danos climáticos severos tornarem necessária a poda para recuperação do cafezal ou, nos casos em que essa ação não seja viável, a erradicação dos pés de café segurados. O tipo de poda é definido com base no impacto do evento climático e nas condições previstas na contratação.

O canal de distribuição foi ampliado?

Rafael Marani: Sim, esta é outra frente. Aumentamos a capilaridade da distribuição para aproximar o seguro de quem está no campo. Para isso, buscamos ampliar os nossos canais de distribuição por meio de parceiros que possuem maior alcance e acesso direto ao produtor. O corretor e as cooperativas podem ajudar a traduzir as necessidades da propriedade em uma solução de proteção adequada para este público. A tecnologia e a personalização também são essenciais para tornar o seguro Rural mais aderente às necessidades do produtor. Quanto mais informações temos sobre o risco de uma determinada área, maior é a nossa capacidade de desenvolver uma solução adequada àquela realidade. Por isso, a Allianz tem ampliado a oferta personalizada por cliente, um dos nossos diferenciais, o que tem permitido crescer mesmo em um período de recuo do mercado.

O Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural é considerado fundamental para ampliar o acesso à proteção, mas enfrenta limitações orçamentárias e incertezas recorrentes. Qual é a importância de uma política pública estável e previsível para o desenvolvimento desse mercado?

Rafael Marani: Vemos como uma iniciativa essencial para o desenvolvimento do seguro Rural no Brasil. Atualmente, o Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR) cobre até 40% do prêmio para as culturas e atividades agropecuárias, com exceção da soja e culturas de verão, que contam com um percentual de 20%. Isso mostra que o PSR não é simplesmente um subsídio ao seguro, e sim uma política que contribui para proteger a produção, preservar a capacidade produtiva e reduzir a vulnerabilidade do agronegócio, especialmente neste momento em que os eventos climáticos têm aumentado e se tornado mais severos. E, uma vez que a proteção agrícola está diretamente relacionada ao planejamento do produtor e ao ciclo das culturas, as incertezas sobre a disponibilidade de recursos para a subvenção podem afetar diretamente a decisão de contratação e a própria capacidade de planejamento do produtor. Uma política pública estável permite que os produtores planejem melhor as suas operações. Do lado das seguradoras, essa previsibilidade favorece o desenvolvimento de produtos, a ampliação da capacidade de atendimento e a construção de uma cultura de proteção de longo prazo. No entanto, é importante que essa política esteja inserida em uma agenda mais ampla de gestão e adaptação aos riscos climáticos. A subvenção amplia o acesso, de fato, mas o desenvolvimento do mercado também depende da prevenção, da qualidade dos dados, assim como da evolução dos produtos e dos investimentos em adaptação.

Diante das mudanças climáticas, o seguro não pode ser visto apenas como instrumento de indenização. Como a Allianz pode contribuir para prevenção, gestão de riscos e adaptação climática das propriedades rurais?

Mauricio Masferrer: A questão da mudança climática é uma das maiores preocupações e um dos maiores desafios do agronegócio, pois os fenômenos extremos afetam a carteira de várias maneiras e provocam alterações relevantes nos padrões de pluviosidade. Com isso, compreender quais cenários são prováveis no curto prazo se faz cada vez mais necessário para que possamos realizar uma precificação mais assertiva e, assim, manter os nossos resultados saudáveis. Nós investimos em uma análise cada vez mais individualizada do risco. Deixamos de trabalhar com uma visão mais padronizada por município e passamos a utilizar informações como imagens de satélite, histórico de desempenho das áreas, modelos preditivos e variáveis climáticas justamente para compreender melhor a exposição de cada produtor. Hoje, mais de 52% da nossa carteira de Rural já é composta por soluções customizadas, nas quais a área do produtor é analisada de maneira antecipada e individualizada. Para isso, a Allianz utiliza modelos geoespaciais para o produto Agro Cultivo, que se baseiam em dados históricos para analisar a performance do solo, a cobertura vegetal e os índices de pluviosidade. Além disso, empregamos análises preditivas com base em modelos de Burning Cost, que calcula o custo puro do risco, sem considerar ainda as despesas administrativas, margem de lucro, comissões e séries temporais, incorporando variáveis climáticas externas, como as fornecidas pelo NOAA (National Oceanic and Atmospheric Administration). Complementarmente, mantemos um sistema contínuo de monitoramento climático, com a emissão de relatórios quinzenais que trazem análises e previsões sobre as condições meteorológicas em todo o território nacional, com base em dados fornecidos por consultorias externas.           

Além das lavouras, máquinas e equipamentos agrícolas representam investimentos cada vez mais elevados. Como está evoluindo a demanda por seguros para tratores, colheitadeiras e outros equipamentos e quais riscos hoje mais preocupam os produtores?

Rafael Marani: A Allianz vem se destacando no segmento de seguros para equipamentos agrícolas, com desempenho significativamente superior ao do mercado. Em 2025, a companhia registrou crescimento de 35% na carteira, resultado expressivamente acima da alta de 0,8% observada no setor. A trajetória positiva se manteve no primeiro semestre de 2026. Enquanto o setor recuou 10,1%, a Allianz cresceu até o momento 20%, reforçando a consistência de seu desempenho no segmento. O avanço dessa modalidade acompanha a própria modernização do campo. Tratores, colheitadeiras e outros maquinários estão cada vez mais sofisticados, com maior valor de aquisição e mais tecnologia embarcada, o que amplia a exposição financeira do produtor em caso de danos ou perdas. Por isso, além da preocupação com o patrimônio em si, cresce a percepção de que proteger esses equipamentos é também uma maneira de preservar a continuidade da operação.

Quais as principais preocupações dos produtores?

Rafael Marani: Hoje, entre as principais preocupações do produtor estão justamente os eventos que podem provocar a perda ou a indisponibilidade desses ativos e gerar algum tipo de impacto sobre o seu ciclo produtivo. Isso inclui danos e perdas decorrentes de acidentes e outros imprevistos, além dos próprios efeitos de eventos climáticos extremos, que podem comprometer a infraestrutura e os equipamentos utilizados na propriedade. A Allianz oferece proteção para máquinas de grande porte e equipamentos com alta tecnologia embarcada, que representam investimentos relevantes e são essenciais para a realização de etapas como plantio, pulverização e colheita. O objetivo é contribuir para que um eventual sinistro não se transforme em uma interrupção prolongada da atividade. Vale destacar que essa visão de proteção vai além dos cultivos e dos equipamentos agrícolas, estendendo-se também à propriedade rural. Nós oferecemos um seguro para propriedades rurais, voltado à proteção de casas, depósitos, equipamentos estacionários, granjas, instalações e mercadorias; muitas vezes, a própria estrutura onde o produtor vive e trabalha. Entre as coberturas disponíveis estão incêndio, danos elétricos, vendaval e alagamento. Nesta modalidade, crescemos cerca de 20% no primeiro semestre de 2026, em relação ao mesmo período de 2025, e seguimos nessa trajetória no segundo semestre.

O produtor precisa proteger simultaneamente a produção, o patrimônio e sua capacidade financeira. Há espaço para soluções mais integradas, reunindo seguro agrícola, máquinas, equipamentos e outras coberturas da propriedade?

Rafael Marani: No produto de Propriedades Rurais, voltado à avicultura e à suinocultura, ampliamos a proteção para além das estruturas das fazendas, que já contam com cobertura contra incêndio, danos elétricos, vendaval e outros eventos. Em operações específicas concedemos cobertura para as aves e os suínos alojados na propriedade, quando decorrentes de eventos cobertos, tendo assim a cobertura para as mercadorias. Com isso, o produtor passa a ter, no mesmo produto, a proteção do patrimônio e da produção. Essa é uma das primeiras soluções integradas em operação na companhia, e há estudos em andamento para novas iniciativas com essa mesma proposta.

Denise Bueno
Denise Buenohttp://www.sonhoseguro.com.br/
Denise Bueno sempre atuou na área de jornalismo econômico. Desde agosto de 2008 atua como jornalista freelancer, escrevendo matérias sobre seguros, previdência, educação financeira, longevidade e saúde para o blog Sonho Seguro, do qual e fundadora, e para cadernos especiais produzidos pelo jornal Valor Econômico, bem como para revistas como Época, Veja, Você S/A, Valor Financeiro, Valor 1000, Revista de Seguros (CNSeg) entre outras publicações. É colunista do SindSeg-SP, entrevistadora em eventos e podcasts, bem como palestrante sobre temas diversos que envolvem o setor de seguros. Escreveu artigos diariamente sobre seguros, resseguros, previdência e capitalização entre 1992 até agosto de 2008 para o jornal econômico Gazeta Mercantil. Recebeu, por 17 vezes, o prêmio de melhor jornalista de seguro em concursos diversos do setor e da grande mídia.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Ouça nosso podcast

ARTIGOS RELACIONADOS